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segunda-feira, 27 de setembro de 2010



Raid T.T. Kwanza-Sul

AVENTURA COMEÇOU

COM UM BANHO NO MUSSULO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Definitivamente, a tradição já não é o que era. E ainda bem! Todos os anos, quem ia a Angola para tomar parte do Raid T.T. Kwanza-Sul chegava a Luanda ao cair da noite e na madrugada seguinte, ainda antes do amanhecer, já estava a pé para integrar a caravana e começar a devorar quilómetros sobre quilómetros à descoberta — ou à redescoberta, pois muitos dos que se deslocam desde Portugal viveram parte das suas vidas em Angola — deste enorme país da África Austral que em 2002 pôs termo a décadas de uma guerra terrível e que hoje faz da paz uma bandeira. Iniciativa conjunta do Governo da Província do Kwanza-Sul e da Câmara Municipal de Almada, no âmbito de um protocolo de cooperação que começou pela geminação desta cidade em frente a Lisboa com Porto Amboim, no sul de Angola, mas que acabou por estender-se a todos os municípios desta província, o Raid T.T. Kwanza-Sul desde a primeira edição, em 2005, que justifica bem todas as horas roubadas ao sono e até, por vezes, alguns sacrifícios ao conforto. Embora nunca ninguém se tivesse verdadeiramente queixado, o certo é que era praticamente unânime o sentimento de alguma perda por o programa ser, ano após ano, de tal modo intenso e preenchido que jamais sobrou tempo para permitir uma visita à capital angolana. Sempre arrancámos algumas horas após termos aterrado e quase sempre partimos de regresso a Portugal assim que terminámos o percurso, reconhecendo as bagagens à chegada ao aeroporto de Lisboa por serem, invariavelmente, as malas mais sujas que desfilavam pela esteira rolante.

Pois este ano, a tradição passou à história e o programa proposto para o 5º Raid T.T. Kwanza-Sul, que mobilizou uma caravana de quase duas dúzias de Nissan PickUp Hardbody e cerca de sete dezenas de expedicionários — que, como sempre, se dividiam em igualdade entre angolanos e estrangeiros, maioritariamente portugueses — arrancou com uma jornada de puro lazer em Luanda, antes de nos levar a enfrentar mais de quatro milhares de quilómetros até às Lundas, as duas províncias diamantíferas, bem no norte.

Assim, desta vez, a preocupação na primeira noite em Angola não foi despertar às quatro e meia da madrugada para irmos carregar as Nissan e deixar a capital ainda antes do trânsito matinal, mas sim acordar antes de encerrar o serviço de pequeno-almoço no Hotel Trópico, que continua a ser uma das referências — e não somente pelo pequeno-almoço, embora esta refeição impressione pela diversidade e qualidade do que oferece — ao nível da hotelaria neste país.

Na noite anterior, o jantar terminou com o “briefing” de Pedro Cristina, o líder da caravana, onde se anunciou que o traje para a primeira jornada era o... fato de banho. A ideia era arrancar do Trópico pelas dez da manhã, descer a Rua da Missão até à Maianga e continuar durante pelo menos um par de horas a percorrer as principais artérias de Luanda, como se fossemos fazer um “safari-fotográfico” urbano. Todavia, o autocarro disponibilizado para esta excursão atrasou-se mais do que esse par de horas, pelo que a visita matinal à capital quase não passou de uma boa intenção, já que desde o meio-dia que estava preparado um almoço — um belo almoço, diga-se de passagem... — num dos resorts do Mussulo, a “quase-ilha” — como dizem os franceses — a sul de Luanda.

O passeio ficou-se pelo itinerário directo ao embarcadouro, onde também as lanchas que nos levaram até ao Mussulo tardaram a chegar, acentuando ainda mais o atraso.

Oito minutos depois de nos sentarmos a bordo, quando desembarcámos no Mussulo, boa parte dos expedicionários tomou logo lugar à mesa. Mas como o almoço já estava requentado, mais meia hora de atraso não faria a menor diferença. Por mim, o apelo de um banho nas águas do Mussulo, contemplando Luanda do outro lado do braço de mar, foi mais forte que o apetite!

Em mais de duas décadas de viagens até Angola, era a primeira vez que estava no Mussulo e não podia desperdiçar a oportunidade de sentir por mim o quanto é delicioso um banho nesta península, há muito convertida na estância de veraneio da elite luandense. Apesar de, como quase sempre que fui à praia em Angola, este episódio ter ocorrido na época do “Cacimbo”, correspondente ao Inverno Austral, quando os termómetros não chegam aos 30 graus e ninguém vai para a praia, porque “faz frio”, para mim, bem como para mais alguns corajosos deste grupo, aquele banho foi imperdível e só não nos demorámos mais porque não pudemos. O almoço já se tinha convertido num lanche e arriscavamo-nos a nem o provar quando nos sentámos à mesa, ainda com o corpo a escorrer água salgada. Agora, que o nosso Verão, no hemisfério norte, está terminado, dou comigo a pensar como é irónico ter desperdiçado todo o Verão aqui em Portugal, para ir à praia no Inverno Austral, em Angola...




Bidões de combustível, para alimentar os geradores das residências de veraneio da elite luandense, e grades de cerveja, para saciar a sede, são duas das mercadorias que mais são transportadas pelas lanchas que fazem a ligação entre Luanda e o Mussulo.

Do pontão junto ao clube náutico, o Mussulo avista-se ao longe, com os coqueiros a recortar a linha do horizonte.


Não havia mais banhistas na praia. Em plena estação do "Cacimbo", como em Angola chamam ao Inverno Austral, uma temperatura de 27 graus celsius não é suficiente para despertar a vontade de um banho no mar.

A espera foi longa, mas depois de embarcarmos na lancha, em apenas oito minutos atravessámos o braço de mar que separa Luanda da "quase-ilha" do Mussulo.

Parece uma praia nas Caraíbas. Não faltam sequer os coqueiros a delimitar o areal da mata. É esta a imagem que temos ao chegar ao Mussulo, a península junto de Luanda, frente à área de expansão da capital angolana.

A tarde já estava no fim quando saí da praia para ir almoçar. Ao fim de mais de duas décadas, pela primeira vez tive oportunidade de ir a banhos ao Mussulo. Isso valeu mais do que qualquer almoço, até porque almoço quase todos os dias, há 46 anos...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009


Ajuda que vale a pena
UMA ESCOLA PARA CONSTRUIR O FUTURO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Em quase três décadas de viagens, tropecei inúmeras vezes em programas organizados que tinham, pelo meio, ou em si mesmo, acções anunciadas como sendo de “ajuda humanitária”. A expressão é relativamente recente, embora o princípio seja idêntico ao que antigamente se fazia sem atribuir nenhum nome especial, ou até mesmo sem disso se fazer grande alarde.
Nunca gostei particularmente de me ver envolvido neste tipo de acções, pelo que sempre me senti um tanto incomodado cada vez que tomava parte num programa que incluía “ajuda humanitária”. E o mais engraçado, embora não tenha realmente graça nenhuma, é que ao abster-me de participar nestas acções, acabei sempre por ser olhado de lado, com desconfiança. Era sempre o único que não vibrava de entusiasmo por entrar numa escola de miúdos meio esfarrapados para oferecer caixinhas de lápis de cor e caderninhos todos bonitos, ou por parar no centro de uma aldeia, algures numa das muitas regiões pobres do mundo, para distribuir não interessa o quê, até porque muito raramente me apercebi de que alguém tivesse feito um levantamento prévio das necessidades das comunidades sobre as quais incidia a “ajuda humanitária”. Normalmente, a sensação que tenho é que se compraram uns tantos artigos baratos, que não fazem falta a ninguém, carregaram-se quilos e mais quilos de brindes publicitários que também já ninguém queria e não servem para nada, por vezes junta-se uma colecção de roupas e sapatos velhos, que deviam ter ido para o lixo, mas que todos guardaram à espera da oportunidade para poder oferecer “a quem precisa”, como costumo ouvir dizer, com aquele ar piedoso de quem julga que está a praticar o bem. Cresci a ouvir dizer que a caridade é anónima e quanto mais assisto a estas manifestações, mais concordo que sim, que quem realmente quer ajudar alguém, simplesmente ajuda. Não o anuncia, nem o publicita.
Nunca me esqueci de ouvir um tipo a contar, depois de ter regressado de uma “missão humanitária”, que tinha andado a ensinar os pretos a comer de garfo e faca. Contava isto em rodas de amigos e toda a gente se ria imenso. Nunca achei piada. Se ele tivesse ido à tropa, cumprir o Serviço Militar, que ainda era obrigatório quando fiz 21 anos, em 1985, podia ter feito o mesmo a imenso tipos, todos da minha idade e tão brancos como eu... Outro tipo que conhecia guardava uma noite por semana para trabalhar como voluntário numa ONG e andava um par de horas a distribuir sanduiches e pacotes de leite aos miseráveis que dormem na rua, em Lisboa, só porque ficava muito bem no seu currículo e, melhor do que isso, as mulheres ficavam sempre muito bem impressionadas com ele. Generoso, hem!... Tive uma amiga — que um dia deixou de merecer sê-lo — que era tão dada a depressões que passava a vida a dizer que queria tirar um ano para ir trabalhar como voluntária num projecto qualquer em África, a ajudar os coitadinhos e a aliviar a consciência, em busca de paz. Pelo que conhecia dela — e sobretudo pelo que mais tarde descobri... — ainda bem que os coitadinhos dos pobrezinhos nunca contaram com a sua disponibilidade, pois quem precisava de ajuda era mesmo ela e eles não iam ter paz. E são tantos os exemplos, maus exemplos, que me ocorrem, que se os fosse contar todos era uma história interminável. Mas se a regra é invocar-se de forma pouco escrupulosa e pouco séria a expressão “ajuda humanitária”, reconheço que não há regra sem excepção. Em tantos anos, só me ocorrem duas excepções, que eu testemunhei. Uma passou-se recentemente, em Angola, outra aconteceu há bastante tempo, também em África, mas bem perto da Europa...
Foi numa expedição a Marrocos, em meados dos anos 90, que vivi um desses momentos que considerei uma excepção: fomos oferecer um motor para puxar água a uma aldeia remota nas franjas do Sahara, encostada à fronteira com a Argélia, numa zona tão isolada que nem sequer as costumeiras caravanas de jipes carregadas de turistas sequiosos de aventura costumavam lá passar. Passavam sim, mas ao longe e quando os miúdos corriam atrás dos jipes, descalços sobre as pedras, agitando as mãos num gesto que tanto era um sinal de cumprimento, a dizer adeus, como de ajuda, a pedir uma esmola, os jipes aceleravam ainda mais e desapareciam sob uma densa nuvem de poeira. Por muito que corressem, os miúdos nunca conseguiam chegar à pista a tempo de ainda alcançarem um jipe. Nesse dia, porém, o que aconteceu foi diferente. Quando os miúdos se aperceberam da caravana já todos os jipes vinham ao seu encontro. Estacionámos no centro da aldeia e imediatamente fomos rodeados por dezenas de crianças, alegres e ruidosas. Em poucos minutos, toda a gente da aldeia estava junto de nós. Até algumas cabras e burros passeavam-se entre a multidão, como se estivessem igualmente curiosos de saber o que ia passar-se. Connosco vinha um camião e foi de lá que retirámos o motor de puxar água, que em minutos foi instalado num poço que ali havia, no meio da aldeia, à sombra de duas enormes palmeiras. Depois de termos posto gasolina no pequeno depósito do motor, puxámos um cabo meia-dúzia de vezes e de repente fez-se um silêncio profundo: assim que se ouviram os primeiros roncos do motor a funcionar, toda a gente se calou. E depois desataram numa algazarra. Aquele era, sem dúvida, um momento de grande alegria! Três homens, que se comportavam como se fossem os líderes locais, aprenderam num instante tudo o que era fundamental saberem para que o motor durasse longo tempo, nomeadamente a manutenção e modo de funcionamento da máquina. Quando a mangueira mergulhou no poço, tão fundo que do alto não conseguíamos distinguir a água, já se tinha criado um fila de mulheres e crianças carregadas com vasilhas de plástico, que aguardavam pacientemente que a água começasse a jorrar da ponta da mangueira. Esse foi outro momento inesquecível. A expressão alegre de toda a gente, os olhares felizes. Sem discursos, sem lápides para descerrar, sem mais nada, despedi-mo-nos e partimos de novo pela pista pedregosa e poeirenta. E desta vez os miúdos não vieram atrás, numa correria desenfreada. Ficaram ali, à volta do poço, fascinados com aquela máquina vermelha, barulhenta, que chupava a água do poço. Pelo menos enquanto o motor funcionasse, não teriam de queimar as energias agarrados à alavanca da velha bomba manual, num repetitivo vai-vem de minutos para fazer cuspir pequenas golfadas de água do poço.
Nesse dia, em Marrocos, algures entre Erfoud e Zagora, junto à fronteira com a Argélia, mudei a minha opinião e achei que tinha valido a pena aquele pequeno esforço para oferecermos um motor de puxar água, que contribuiu para uma efectiva melhoria das condições de vida daquela comunidade. E porque nos limitámos a oferecer o motor. Discretamente.
A outra excepção foi em Junho de 2009, no sul de Angola. Integrava a caravana de uma expedição todo-o-terreno, o Raid T.T. Kwanza Sul e na manhã do último dia do programa os promotores do evento levaram-nos a ver as obras de construção de uma escola primária, uma das três escolas projectadas e custeadas pelo município português de Almada, ao abrigo de um acordo de geminação que começou pela associação à pequena cidade costeira de Porto Amboim e que acabou por alargar-se a toda a província do Kwanza Sul.
Implantada nos arredores da vila de Conda, não muito longe da cidade de Gabela, a escola que visitámos era ainda o esqueleto de um edifício térreo, com três amplas salas para aulas e um anexo com as restantes infra-estruturas. O local da construção é no meio do nada, entre uma aldeia e a vila de Conda, à beira de um cabeço, de onde se aprecia uma paisagem extraordinária. Lembrou-me uma escola primária que encontrei há alguns anos num local igualmente isolado e lindíssimo, na Amazónia venezuelana; tinha na fachada, pintada em grandes letras, uma frase atribuída a Simon Bolívar, que nunca mais me saiu da cabeça: “Un hombre sin estudios és un ser incompleto”. E ao visitar as obras da nova escola de Conda, dei comigo a pensar que se há coisas em que vale sempre a pena investir é na construção de escolas. Nisso e na vacinação de crianças, que um médico, velho amigo, que já desapareceu, me dizia ter a certeza de que era a única coisa verdadeiramente útil que tinha feito em longos anos de trabalho em missões humanitárias, que o levaram diversas vezes ao epicentro de alguns dos maiores conflitos recentes, como o Afeganistão, ainda no tempo da guerra com os russos, mas também já sob o domínio dos talibãs, o Ruanda durante a crise dos Grandes Lagos, a Libéria e a Serra Leoa durante os piores momentos das guerras civis que assolaram estes países, entre tantos outros cenários, sempre dos mais duros para trabalhar.
Ali, entre os muros de tijolo nu da nova escola, lembrei-me também das Filipinas, onde encontrei escolas nos locais mais recônditos, em plena selva. Em 1898, quando a Coroa espanhola vendeu aos Estados Unidos da América o arquipélago das Filipinas — alienando esta colónia do Pacífico pela soma de um milhão de USD — os americanos tomaram posse de 7107 ilhas, um terço das quais habitadas, onde ninguém se entendia. Simplesmente porque cada comunidade tinha a sua própria língua. E quase ninguém falava espanhol, porque durante o tempo de domínio espanhol as poucas escolas estavam reservadas aos próprios espanhóis e a uma reduzida elite filipina. Em 1946, quando os EUA concederam a independência às Filipinas, a realidade era completamente diferente: já havia uma língua que unia todos os filipinos. Era o inglês. E como é que os norte-americanos conseguiram em 48 anos aquilo que os espanhóis não conseguiram em mais de três séculos? Abriram escolas. Milhares de escolas. Uma em cada aldeia. E levaram professores. E decretaram que as crianças eram obrigadas a frequentar a escola primária.
Numa altura em que se debate a importância do português enquanto língua, bem como a memória de Portugal nos países que outrora integravam o imenso Império Colonial Português, são exemplos como este, da pequena escola perdida no cimo de um cabeço junto à vila de Conda, nas profundezas de Angola, que nos mostram a solução. A solução mais válida de todas para que o português mantenha a sua importância no quadro das grandes línguas faladas no mundo. E volto a lembrar-me da frase de Simon Bolívar, escrita na fechada da escola que encontrei na floresta amazónica: um homem sem estudos é um ser incompleto. Sem dúvida. E nenhum país se constrói nem se desenvolve com analfabetos. O futuro, de Angola, de Portugal, de qualquer país, constrói-se nas escolas.
Momentos depois da breve inspecção às obras, dirigi-mo-nos ao centro da vila de Conda, onde todos os membros desta caravana foram recebidos como os beneméritos da nova escola, a quem as autoridades e a população locais dispensou uma pequena homenagem, que decretou feriado na terra durante aí uma meia hora. O tempo necessário para uma sessão de cumprimentos aos sobas e administradores municipais, seguidas por algumas palavras de circunstância, que não se alongaram. O sistema de som que permitiu amplificar a voz dos que discursaram, foi o mesmo que logo a seguir aos aplausos populares afrouxarem começou a emitir música. E em segundos dançava-se na rua principal de Conda. Naquele dia, havia motivo para festejar a meio da manhã...


Depois de visitadas as obras da nova escola, fizémos uma entrada triunfal em Conda, onde as forças vivas da terra e inúmeros representantes da sociedade civil — num discurso formal é assim que designamos a assistência popular — aguardavam pacientemente a chegada da comitiva, para um breve acto simbólico. Foi bonito ver que aqueles que receberam ajuda ficaram gratos por isso.

Para não tapar ninguém, fui o último a participar na sessão de cumprimentos, trocando dezenas de apertos de mão com os Sobas do município de Conda, mas também com o Padre e seus ajudantes, com os dirigentes da Administração local e os representantes das Autoridades. No final, apanhei o microfone a jeito não resisti a um breve improviso. Nunca se deve deixar um microfone à mão...

Uma vénia de respeito diante das senhoras, que os sobas são sempre homens de grande educação.

Terminados os breves discursos, ainda se ouviam os aplausos populares e já tocava música no sistema de som, transformando a rua principal de Conda num palco de dança, como se tivesse sido decretado feriado na vila por uma boa meia-hora!

...até na repartição o trabalho parou uns momentos, para os funcionários espreitarem a festa, encostados à janela.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009


Fotógrafo, poeta e voluntário
O MEU AMIGO DANIEL

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Penso frequentemente no que é a amizade entre pessoas e um destes dias dei comigo a reconhecer um dado curioso: cada viagem que fiz a Angola, e já foram várias, regressei com um novo amigo. Não na bagagem, mas sim no coração. E convém deixar bem claro que eu não faço amigos instantâneos, como quase toda a gente que eu conheço, que regressa de férias e fala do guia que os acompanhou como se fosse um amigo do peito, daqueles que cresceram connosco, mas que umas semanas mais tarde já nem se lembram do nome do “coiso”. Sempre aprendi a distinguir amizade de conhecimento. O que não quer dizer que não use e abuse igualmente da palavra amigo sem ter esse sentimento.
Daniel Vika é um dos meus amigos angolanos. Conhecemo-nos em cima de uma ponte, nos arredores de Sumbe, sul de Angola, quando olhava para o rio e imaginava uma forma diferente de registar uma imagem clássica, de um grupo de mulheres, rodeadas por imensas crianças, a lavar roupa junto à margem. Vi que ele tinha equipamento compatível com o meu e estava a usar uma objectiva mais pequena. Era o que me dava jeito para a fotografia em que estava a pensar e não me fiz rogado: pedi-lhe a lente emprestada. Foi assim que comecei a falar com o Daniel Vika. Trocámos de lentes por um instante e ele ficou encantado com a qualidade da minha objectiva, pesada, muito luminosa e com um alcance superior. Percebeu a diferença entre equipamento amador e profissional. E ficou morto de curiosidade por ver o que eu tinha feito com a objectiva dele. Vi logo que gostou. Os olhos dele até brilharam. Visionou várias vezes aquelas fotografias e foi tentar fazer iguais. Ficaram parecidas, mas ainda lhes faltava qualquer coisa. Tinham diferenças profundas na luz captada. Senti que ele estava consciente de que havia diferenças, mas não conseguia descobrir o que fazia essa diferença. Podia tê-lo confortado, dando-lhe uma palmada nas costas ao mesmo tempo que lhe dizia “— Parabéns, estão igualzinhas!” E assim, talvez ele nunca na vida conseguisse fazer uma foto, uma só, como as minhas. Mas não fiz isso. Desde miúdo, ainda nos bancos da escola, descobri que talento cada um tem o seu, ou simplesmente não tem, mas técnica só não tem que não quer, pois basta estudar. Quantas vezes não fiz trabalhos para colegas que nesse dia tiraram uma nota incrível, a que precisavam para ganhar “aquele” prémio dos Pais, mas que não voltaram a ter uma nota assim, precisamente porque só lhes emprestei o meu talento e por muito que tivessem estudado, continuava a faltar-lhe esse elemento, essencial para atingirem o patamar de notas onde eu os tinha feito chegar, um dia. Este era um caso assim. Já tinha emprestado o meu talento, ao permitir-lhe que visse os enquadramentos que eu tinha escolhido, mas ele nunca tinha estudado a técnica. Então ensinei-lhe o que ele tinha mesmo de saber para não voltar a cometer o erro em que persistia, e que o levava a queimar, por excesso de luz, muitas das suas fotografias. Quando ele percebeu que era mesmo isso, sentiu-se tão contente, tão motivado, que nunca mais parou de esforçar-se por fotografar tudo e mais alguma coisa, de todas as maneiras, para perceber por si mesmo quais os enquadramentos que melhor resultavam perante cada cenário, cada situação. Creio que Daniel não evoluiu muito mais do ponto de vista técnico, mas fiquei contente por verificar o seu empenho em desenvolver algum talento. Definitivamente, senti que tinha valido a pena ajudá-lo. E não me custou nada. Rigorosamente nada. Só fiquei a ganhar. Ganhei um amigo, que passou a tratar-me carinhosamente por mestre.
Ao princípio, Daniel tinha como que uma paixão por mim. Coitado, fazia-me sentir perseguido, tal a vontade de mostrar-me o trabalho dele, tal a curiosidade em espreitar o meu. Fazia-o de uma forma tão inocente e tão entusiastica que eu acabava por me sentir mal quando o mantinha à distância. Lembro-me de uma vez, em que fui apanhado de surpresa pela abordagem e não tive tempo de inventar uma desculpa consistente para me livrar dele, que só me ocorreu pôr um ar muito sério e distante, convencendo-o que estava a meditar. Fui tão convincente que ele até ficou embaraçado por achar que me podia estar a incomodar. E deixou-me ali a meditar, no meio de um pomar lindíssimo, cheio de pés de maracujá, na região que outrora era conhecida por Colonato da Cela. Daniel já era meu amigo e foi nesse dia que eu passei a ser amigo dele. E senti-me tão envergonhado por tê-lo enxotado que fiquei zangado comigo. Interroguei-me mesmo se não o tinha magoado, pois achava que tinha sido bastante rude. Arrependi-me e eu detesto arrepender-me do que faço. Até porque sempre achei que o está feito já não se desfaz. E sei que ficamos magoados quando somos enxotados pelos amigos, quando não têm paciência para nos aturar. Mas a inocência dele tranquilizou-me a consciência. Acreditara tão bem na minha desculpa que também ele tinha ficado envergonhado, por me estar a incomodar nesse momento de meditação. E não precisou de muito tempo para perceber quando é que me incomodava, para deixar de fazê-lo. Um ano depois, reencontrámo-nos em Luanda para fazermos uma nova viagem através de Angola e recebeu-me com um abraço caloroso, carregado de afecto, daqueles que só damos mesmo às pessoas de quem gostamos muito. E nem sempre. Nesse abraço, compreendi que sim, que a amizade entre nós tinha ganho o direito de chamar-se amizade.
Ao longo da vida, chamamos amigo a centenas e centenas de pessoas que vão passando por nós, que se cruzam no nosso caminho, ou até com quem simplesmente contactamos ocasionalmente. Nem sequer é preciso que esses contactos nos tenham marcado, tão pouco que essas pessoas tenham sido realmente simpáticas connosco. Basta que esses contactos não tenham sido antipáticos para que, ao referirmo-los, digamos que “somos amigos”. E quando se trata de pessoas importantes, como normalmente classificamos aqueles que detêm uma elevada posição social, uma rica conta bancária ou desempenham um cargo relevante — diremos muito importante nos casos, mais raros, em quer tudo isto se adiciona... — costumamos mesmo acentuar a palavra amigo, para que quem nos ouça não tenha dúvidas em como somos mesmo amigos. E sentimo-nos vaidosos, até um bocadinho importantes também, quando os nossos amigos metem aquele olhar de respeito por saberem que somos amigos de fulano, o tal que é muito importante. Mas nunca hei-de esquecer-me de uma noite em que jantei com um amigo, que me conhecia tão bem que passámos a noite toda a conspirar contra mim. Ele dizia mata e eu acrescentava logo esfola. Nunca disse tanto mal de mim a mim próprio como nessa noite, aliás, divertidíssima. E não sei se esse meu amigo alguma vez descobriu com quem jantou...
O Facebook é o melhor exemplo disto. Criaram-me uma conta e num ápice, sem que me tivesse apercebido, já tinha reunido um leque de amigos impressionante. Alguns nem sei se os cheguei a conhecer pessoalmente, embora a esmagadora maioria sejam, na verdade, pessoas com quem já convivi. O que tenho em comum com quase todos estes amigos é, ou foi, contactos profissionais. Sobre muitos, para além da profissão e das funções que desempenham, não sei mais nada. Nunca calhou. Alguns, por acaso até calhou e ao rever as suas fotografias na lista de amigos do Facebook recordo-me de termos estendido conversas para além dos assuntos profissionais, não raras vezes para temas tão interessantes que fizeram com que a nossa mesa tivesse sido a única em que ninguém se levantou depois de ter sido servido o café, no final de um jantar de convívio, como tão frequentemente sucede após uma jornada de trabalho. Foi assim que nasceram algumas amizades que perduraram no tempo e que continuo a considerar. Refiro-me agora aos amigos que passaram a fazer parte da minha vida. Como se fossem irmãos. Com os quais, por vezes até, trocamos confidências que nem fazemos com os próprios irmãos. Família é família. Não a escolhemos. Já os amigos, sim, são escolhas que fazemos. É um lugar comum que não gosto de usar, mas reconheço que é assim mesmo. E sou amigo dos meus irmãos todos. Mas tenho mais alguns, que são só amigos, mas tão amigos como os irmãos. Os amigos são os que nós adoptamos. E isso não quer dizer que eles também nos adoptem, nem mesmo que sejam nossos amigos. Como nós somos deles. Há até amigos que, no fundo, nem conhecemos realmente, mas que nem por isso deixamos de considerá-los amigos, neste sentido de estarmos disponíveis para eles, de termos toda a paciência e mais alguma, de nos envolvermos nos seus problemas, de nos preocuparmos com eles, de sentirmos um aperto no coração quando não estão bem.
E porque será que somos sempre todos amigos? Seria mais fácil dizer que por uma questão de hipocrisia generalizada, mas não é. Não é nada disso. Isso só é verdade quando olhamos para alguém de quem não somos amigos e lhe chamamos isso. Em todas as outras circunstancias somos todos amigos simplesmente porque se criou como que uma convenção. É uma forma de falar, simpática, mas mais nada. Apenas porque na verdade todos nos sentimos algo desconfortáveis por não chamarmos amigos às pessoas que conhecemos e fazemo-lo mais para deixar claro que não são inimigas.
Quando comecei a dizer que Daniel Vika era meu amigo, já sabia que ele sim, gostava de mim como amigo. Mas à medida que o fui compreendendo também eu passei a gostar dele. Por vezes, é um chato. Eu também. Ainda gosto mais dele por isso. Os chatos têm como que o dever de apoiar-se. E achar isso fez-me desenvolver uma paciência notável. E raramente perco a paciência. Muito menos com os amigos. Mesmo quando me magoam, mesmo quando não têm paciência. Aos amigos não regateamos defeitos. Aceitamo-los como eles são e pronto. Eu tenho imensos defeitos. Daniel também. Mas também tem um coração enorme e esforça-se tanto para conquistar amizades que até abusa de voluntarismo. E depois magoa-se. Quando percebe que esses momentos, em que se sente um herói para quem todos olham, passam num instante. Daniel é uma poeta. À sua maneira, claro, que nem todos os que com ele convivem apreciam. Estimular essa poesia tem sido a maior maldade que tenho feito aos que não a apreciam. Eu preferia que Daniel se concentrasse na fotografia. Mas ele gosta tanto da sua poesia que maior maldade era matar-lhe essa paixão. O maior embaraçado que lhe causei foi quando, há uns meses, lhe nasceu mais um filho. Estávamos juntos, em Angola, e disse-lhe que como somos amigos, das duas uma: ou me escolhia para padrinho do bebé, ou dava-lhe o meu nome. Coitado do Daniel, que andou aflito durante uns dias, sem coragem de dizer que já tinha as suas escolhas feitas e nenhuma me contemplava. Assim, continuámos apenas amigos. Mas podíamos ser compadres. Ainda podemos vir a ser.


Voluntarioso como poucos, Daniel não hesitou em despir-se para se meter dentro um lamaçal e ajudar a desatascar alguns veículos que tinham ficado retidos na lama. Só nunca largou a sua Nikon.

De máquina fotográfica na mão, Daniel posa no meio do capim, num admirável fim de tarde no Parque Nacional de Iona, bem no sul de Angola. Tínhamo-nos conhecido há uns dias e já me tratava por mestre. E queria que eu fosse amigo dele. Ainda não era...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009


“...Tomar banho de cueca ou nu”
EXPRESSAMENTE PROIBIDO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

O aviso era bem claro: “Expressamente proibido tomar banho de cueca ou nu”. E acrescentava que “só de fato de banho ou calção”. Quem chega às piscinas de Conda depara com este aviso, cuidadosamente escrito em letras maiúsculas pintadas de branco num painel preto, para que o contraste seja absoluto e a leitura tão fácil que não possa passar despercebida. As piscinas são o orgulho de Conda, uma vila perdida no sul de Angola, não muito longe da cidade de Gabela. Digo piscinas porque há dois “complexos” balneares distintos, cada qual encaixado no seu vale, nos arredores da povoação, onde a água que saí quentíssima das nascentes a meia encosta da serra já chega apenas quente. A primeira vez que passei por lá fui à piscina maior e felizmente que tinha calções de banho comigo, porque consolei-me a banhar-me demoradamente naquela água quente, mais a atirar para o morna, que sabia deliciosamente bem naquela altura, porque o tempo ainda estava fresco. Quando voltei, fui às piscinas mais pequenas e percebi que chamar-lhes piscinas era apenas uma simpatia, talvez para que aquela comunidade não se sentisse inferiorizada perante a grandiosidade das verdadeiras piscinas da freguesia vizinha. Na realidade, não passavam de dois tanques, cheios de água até à altura dos joelhos, mas que, precisamente por serem pequenos, tinham a particularidade de manter a água bem mais quente, a uma temperatura que não chega para arrancar a pele, mas que é um castigo num dia de calor como aquele. Desta vez, felizmente que não tinha os calções de banho à mão, porque assim nem me senti tentado a experimentar o sofrimento de uma santola quando a deitamos viva numa panela cheia de água ao lume. Parece que a pobrezinha ainda sofre um pouco antes de despertar tanta alegria a quem a comer, mas há uns anos um Chef confidenciou-me um truque para minorar este sofrimento. Consiste em fazer exactamente o contrário, ou seja, meter a santola no congelador durante uma meia-hora antes de ir para a panela, porque o frio mata o bicho de uma forma mais suave; não morre cozido, mas morre de frio, literalmente. E mesmo que eu estivesse a morrer de frio, sem os calções de banho juro que não arriscava uma banhoca no tanque. Já lá vai o tempo em que bastava ler o “expressamente proibido” para ficar logo com vontade de quebrar a interdição, como se fosse um desafio. Com o tempo, aprendi que não era. Era meramente desobediência, arrogância, falta de respeito. Não que me tenha tornado um cordeirinho manso, pois há interdições e regras inaceitáveis, que se as respeitarmos é como se assumissemos a sua validade. Agora, não era o caso. Tratava-se meramente de uma regra de costumes. E bastou ter lido o aviso para ficar elucidado e não querer repetir o embaraço que passei três anos antes na ilha de São Tomé, quando fui detido por atentado ao pudor — uma acusação forte, daquelas que ninguém tem orgulho em contar. A minha mãe teria desgosto se soubesse que eu tinha sido detido pela policia, mas não sei se conseguiria resistir ao choque de saber o motivo. Pensei no seu coração fraco e nunca lhe contei. Felizmente que o Chefe Bernardo Ramos — chefe com é, porque este era policia, não chef da cozinha —, a autoridade máxima do posto policial de Neves, no norte de São Tomé, revelou-se um homem compreensivo, mas quando mandou parar o meu jipe numa operação stop à entrada da vila e a primeira coisa que disse, assim que me abordou, foi “Está detido” (a segunda foi “Avance até à esquadra e estacione no quintal da policia”), só pensei que tinha o dia estragado. Claro que não avancei para o quintal da policia sem saber o motivo da detenção. E então é que me convenci que estava em apuros: tinha sido apanhado a conduzir em tronco nu! Um policia ainda meteu a cabeça janela adentro e espreitou-me descaradamente para ver se era só o tronco que estava nu, mas mesmo depois de ter indicado ao Chefe Ramos que eu tinha calções de banho vestidos, não me livrei de seguir para a esquadra. Não fosse eu tentar fugir, o Chefe Ramos mandou dois policias acompanharem-me no caminho, seguindo pendurados nos estribos laterais do meu jipe, enquanto o próprio Chefe vinha atrás, no Land Rover oferecido pela Policia de Segurança Pública portuguesa. Ao ver todo aquele aparato, a população de Neves não resistiu à curiosidade. Quando cheguei à esquadra, no centro da vila, já estava rodeado por uma multidão que, curiosamente, mesmo sem saber o meu crime já reclamava a minha inocência de pedia liberdade. Entrei no portão, arrumei o jipe a um canto do quintal e — sempre escoltado pelos dois policias — fui levado ao gabinete do Chefe, que já me aguardava com um ar grave. Quando lhe vi a expressão do rosto, achei que não me safava sem mais nem menos. Mas depois de lhe estender a mão e de tê-lo cumprimentado pelo seu nome, percebi que a situação não estava fora de controlo. O Chefe Bernardo Ramos, meio intrigado, perguntou-me logo como é que eu sabia o nome dele, mas como pôs ar de quem estava a pensar de onde é que nos conhecíamos, não lhe fiz a desfeita de confessar que simplesmente tinha acabado de o ler na plaquinha azul com letras brancas que tinha presa no bolso da camisa, ambos também provenientes da PSP portuguesa, que devem ter seguido com o Land Rover. Mandou-me logo sentar e começou a explicar-me a gravidade do meu acto, por conduzir em tronco nu. “Ainda se fosse Domingo, dava para para fechar os olhos, porque é feriado, mas nunca a uma quinta-feira”, insistindo que, de acordo com o regulamento, tratava-se de “atentado ao pudor”. Nem mais. Lá lhe expliquei que não Senhor, eu não era desses, de andar por ali a exibir o físico. Claro que não lhe contei que há muitos anos, em Angola, safei-me por uma unha negra de ser vítima de um linchamento popular por, alegadamente, andar a exibir-me para uma funcionária do aeroporto de Namibe, onde eu estava há largas horas a torrar ao sol, esperando pelo avião que me levaria de regresso a Luanda. Estava um calor insuportável e eu tinha acabado de passar por uma das experiências mais aterrorizantes da minha vida, a única em que duvidei seriamente se alguma vez voltaria a casa, mesmo que dentro de um caixão de chumbo com uma etiqueta no pé a dizer o meu nome. E não foi pela fome e sede que passei, porque até sobrevivi aos dois dias e meio de absoluto jejum. Foi por um braço de ferro com um tipo que esperou pacientemente que eu deixasse de ter as “costas quentes” para me dizer que eu era malandro, mas que ele era muito pior e já estava a perder a paciência. Felizmente que antes disso acontecer fui salvo — é a palavra mais acertada para descrever a situação — por dois portugueses que o tinham ouvido, num bar de Namibe, contar aos amigos o que é que me fazia. E não era nada bom! Os meus salvadores ficaram em pânico, mas a única coisa que sabiam de mim era que eu era um jornalista português que andava por ali desgarrado. Procuraram por toda a cidade — nem as casas de putas escaparam à busca — e nada, ninguém tinha visto nenhum português que não fosse conhecido na terra. Às tantas, só lhes restava ir ao aeroporto e pegaram-se numa discussão, porque um insistia em esgotar todas as possibilidades, enquanto o outro contrapunha que não fazia sentido, porque só havia avião dois dias depois e o aeroporto estava fechado; ainda para mais o aeroporto está isolado já no deserto, a alguns quilómetros da cidade. Ganhou o que defendia que devia procurar até ao fim, mas quando os vi chegar ao aeroporto, num velho camião militar, o meu coração disparou. Já era noite, bem tarde e pensei que a minha carreira acabava ali. Na escuridão, nem consegui distinguir mais do que os dois vultos, que antes de se aproximarem perguntaram se eu é que era o jornalista português. Fechei a mão e fui pensando quantos dentes seria capaz de partir ao primeiro que me agarrasse, mas disse que sim. A tensão acabou ali mesmo, porque ficaram eufóricos e levaram-me logo dali, recolhendo-me num hotel de contentores instalado numa ponta da cidade, junto ao mar, que estava ocupado pelas forças da UNAVEM II, a missão das Nações Unidas que nessa altura observava a situação em Angola, vivia-se então a paz podre trazida pelos célebres Acordos de Bicesse, rubricados sob os auspícios de José Manuel Durão Barroso, que então era ainda um mero Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do Governo português e, provavelmente, nem sonhava sequer que um dia seria Presidente da União Europeia. O milagre seguinte foi arranjarem-me um bife e depois uma cama lavada, para redescobrir esse prazer, bem como o de um duche. O mais incrível deste episódio é que ao conversarmos descobri que um deles era pai de um amigo que tinha em Lisboa! Dois dias depois, no dia do avião, tiveram de deixar-me no aeroporto de manhã cedo, embora o voo só estivesse previsto para meio da tarde. Fiquei ali ao sol e às tantas pus-me em calções. Até que, de repente, uma funcionária começou aos gritos e num instante fiquei rodeado de gente, no centro de um ambiente ameaçador. Só então percebi que a gritaria tinha a ver comigo e que estava a ser acusado de andar ali a exibir-me para a Senhora. Fiquei horrorizado. Duplamente horrorizado, porque para além da situação estar quase incontrolável, juro que nunca na minha vida serei capaz de assediar uma mulher como aquela. Nem que quisesse castigar-me rudemente escolheria uma punição como ela. Seria demasiado atroz. Mas não quis ferir o orgulho à Senhora e perante a acusação, decidi retractar-me, pedindo-lhe desculpa publicamente e, claro, voltando a vestir-me. Fui tão convincente a justificar-me e a pedir desculpa que imediatamente senti o perdão popular e de nada serviu à minha agressora — tive pesadelos com ela durante muito tempo — continuar a reclamar que eu devia ser castigado. Eu é que me fartei de pensar como é que a castigava e foi um exercício tão violento que nunca hei-de contar o que me passou pela cabeça. Em São Tomé, na esquadra de Neves, este filme surreal passou-me todo pela cabeça enquanto o Chefe Ramos expunha os motivos da minha detenção. Bem, pelo menos desta vez o atentado ao pudor não metia assédio. E expliquei-lhe que tinha acabado de sair da Praia das Conchas, ainda vinha a escorrer água pelo corpo e como me dirigia para outra praia mais adiante, inocentemente achei que ninguém repararia que ia de peito ao léu. Como a minha mãe sempre me ensinou, valeu a pena dizer a verdade, porque o Chefe Bernardo Ramos aceitou a explicação e decidiu ser benevolente face a uma confissão tão expontânea e sincera. Foi então que desatámos na conversa e não tardou a que nos ficassemos a conhecer como velhos amigos. Quando saí da esquadra, gentilmente acompanhado pelo Chefe, tinha a certeza que da próxima vez que nos encontrarmos nem ele vai interrogar-se de onde é que nos conhecemos, nem eu precisarei de ler a plaquinha para saber o seu nome. Já éramos amigos e pronto. Os meus companheiros, mais respeitadores dos bons costumes, porque tinham vestido t-shirts, esperaram nervosissímos à porta e nem dizendo a verdade os convenci que não tive de pagar nada ao Chefe para ser solto. É irónico como grande parte das pessoas critica tão violentamente a corrupção, mas quando se vêm numa situação desconfortável, nomeadamente perante autoridades, são os primeiros a tomar a iniciativa de negociar uma saída airosa. Nessas alturas, que se lixe a justiça e se têm razão. Interessa é salvar a pele e oferecem logo uma recompensa para garantir isso. E depois de safos, são os primeiros a acusar, a denunciar que a única justiça que funciona é a do suborno. Esta cultura está tão enraízada que o impresso da declaração de imposto sobre o rendimento, vulgo IRS, tem até uma alínea para os contribuintes declararem “luvas, gratificações, etc...”. Sempre me interroguei se alguma vez as Finanças registaram uma declaração, ao menos uma só, que indicasse uma verba nesta alínea, como se fosse normal “receber dinheiro por fora”. Até é, mas disso também toda a gente se esquece, a menos que seja para acusar os outros. Naquela meia-hora que passei fechado no gabinete do Chefe da esquadra só falámos. De justiça, do tempo incerto, que ora abria o sol, ora parecia que o céu ia desabar-nos na cabeça, da fábrica de cerveja quase em frente, que uns espanhóis tinham comprado pouco tempo antes, e das bebedeiras que os homens de São Tomé apanham tão frequentemente, sobretudo depois da hora do almoço, nas povoações mais longe da cidade. Mais com Vinho de Palma, que basta fazer sangrar uma palmeira e depois deixar fermentar essa seiva até ficar docinha, do que com cerveja, que tem de pagar-se e nem toda a gente tem dinheiro para isso. Não foi preciso muito tempo para o Chefe admitir que havia coisas bem mais graves do que andar a guiar de tronco nu e todo molhado. Só lhe dei dois apertos de mão. Mais vigoroso o da despedida. E fi-lo compreender a insensatez da acusação que pendia sobre mim. Felizmente, o Chefe Bernardo Ramos era compreensivo. Como compreensivos foram os policias de Conda, que nos abriram caminho até às piscinas e fizeram vista grossa à interdição de tomar banho de cueca, porque foi mesmo assim que um dos meus companheiros desta viagem entrou para dentro do tanque...


Como o sol estava quente, os policias recolheram-se na sombra e "não repararam" no banhista que violou o regulamento e meteu-se dentro de água... em cuecas. Bem, sempre não estava nu, que isso devia ser mais difícil de não reparar...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009


A Minha Peregrinação a Muxima
UM APERTO NO CORAÇÃO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Se todas as peregrinações aos santuários religiosos têm de ter uma dose de sofrimento, a minha visita a Muxima foi perfeita, até porque menos dolorosa que as outras que me ocorrem na memória. Antes de tomar o caminho para aquele que é considerado o maior e mais importante santuário dedicado ao culto mariano da África Austral, parei à saída da vila de Catete, na bifurcação com a estrada para Cabala. O dia estava mesmo a terminar e parei para ver o sol desaparecer por entre os enormes embondeiros que se estendem a perder de vista, gravando de novo mais uma daquelas imagens lindas que povoam a memória de quem alguma vez andou por estas paragens de Angola. Um belo pôr do sol, como são quase todos, quando o sol parece uma grande bola de fogo alaranjada que tinge o céu de vermelho, ao reflectir os últimos raios de sol nas nuvens. Mas neste caso, não era um belo e banal pôr do sol, porque a este cenário que podemos apreciar em qualquer lugar, juntavam-se os embondeiros, que não há senão junto à costa ocidental africana, entre esses dois desertos que tantas vezes já atravessei, o do Sahara e o de Namibe. Olhei para esses embondeiros até a escuridão lhes apagar os contornos e tornarem-se apenas uma mancha negra, meio sinistra, com os ramos a recortar o céu como as árvores do território da bruxa má das histórias de crianças — que servem para lhes exemplificar a figura do mal, como a que começa a assustar a minha filha mais pequena. A mim, não é isso que me assusta, que já conheci tantas bruxas más que já não há maçã que me envenene. Arrepia-me sim é olhar esses embondeiros na penumbra e ver os seus frutos pendurados nos ramos, como se fosse ratazanas presas pela cauda.
Estava na hora de partir. Mas não por ter passado da visão romântica dos momentos ao pôr do sol para esta tão sinistra, que chegou com o crepúsculo. Para além de já serem horas, o que me fez voltar à estrada foi ter começado a ser devorado, cruelmente devorado, por um enxame de mosquitos, provavelmente insectos infiéis, que não se fizeram rogados quando encontraram um crente como eu. Seria o sofrimento a pagar por mais esta peregrinação? Bem, nunca fui ao ponto de atravessar a Cova da Iria de joelhos, nem de fustigar-me nas costas ou pregar-me numa cruz como fazem nas Filipinas, mas recordo velhas peregrinações que tiveram o seu quê de sofrimento. Sim, que a visita de estudo ao Santuário de Fátima, em 1974, quando ainda estava na quarta classe, marcou-me profundamente, sobretudo pelas palmadas que apanhei quando cheguei a casa, por ter-me portado mal. Para além disso, no ano passado o acaso levou-me a Lourdes, França, onde também o acaso me impôs um desagradável jejum. E por falar em Lurdes, foi a fé que me fez conhecer uma, já lá vão alguns anos, quando num cruzeiro pelo Mediterrâneo, após dois dias de escala em Civita Vechia, o porto mais próximo de Roma, onde todos os caminhos me levaram ao Vaticano, nos cruzámos pela primeira vez ao desembarcar para ir visitar um antro de pecado e vício, que dá pelo nome de Principado do Mónaco; quando nos conhecemos tive aquele sentimento de ter visto uma aparição e a verdade é que esse foi um encontro de fé — tanto mais que ela por momentos acreditou que eu era mesmo o capelão do paquete e estava quase a confessar-se quando um tripulante que andava apaixonadíssimo se empenhou em desfazer aquela piedosa mentira; bem pelo menos o rapaz ficou feliz, embora não lhe tenham servido de nada as orações… Eu, pela minha parte, acabei, uns dois anos mais tarde, por acompanhá-la à igreja, ao seu casamento, o dela, não o meu, que mal sabia me estava guardado na mesa dos solteiros, com reserva para os seis anos seguintes. Ali parado, como que embalado pelo suave pôr do sol, adormeci nestes pensamentos — é tão estranho como por vezes nos vêm à cabeça memórias tão díspares e como as ligamos entre si… — e só os mosquitos me acordaram para a realidade. Arranquei ainda a sonhar, ouvindo dentro de mim aquela velha canção que o Duo Ouro Negro popularizou, no tempo em que quando me portava mal só apanhava palmadas e que, mais recentemente, Waldemar Bastos me encantou, numa interpretação ao vivo, em Amesterdão. É a “Muxima”, um verdadeiro hino, feito a partir de um poema de Carlos Aniceto Vieira Dias, que este poeta angolano escreveu em quimbundo e que assim sempre foi cantado, ainda que o Duo Ouro Negro traduzisse parte do refrão, para mais fácil compreensão do seu significado. Nunca o fixei exactamente, até porque, confesso, tardei em tornar-me apreciador, mas recordo-me que falava da própria lenda da Muxima, enquanto lugar sagrado, onde o mal não entra. Não entra?
Arranquei a entoar para mim próprio “Muxima ue ue, muxima ue ue, muxima” e os quilómetros passaram a correr. Sem dar por isso, já estava a atravessar a Cabala, onde se atravessa o rio Cuanza por uma longa ponte flutuante, que dá acesso ao estradão de terra que segue até Muxima. Nome tão estranho para uma povoação. Segui caminho a pensar nisso, a imaginar qual dos significados tinha estado na origem desta nada honrosa designação. Para os hebraicos — qabbalah — Cabala remete para a mística, para o esoterísmo, para uma tradição dessa natureza que está ocultada num sentido secreto da Bíblia. E se isso é intrigante, o certo é que para os franceses esta palavra — cabale — quer dizer simplesmente intriga. Nem mais! E para os angolanos? O significado de cabala em quimbundo não é menos simpático: sovina. Antes Muxima, que em quimbundo quer dizer coração.
A vila de Muxima nasceu nos primórdios da colonização portuguesa do interior de Angola. Foi aí que se implantou um presídio em 1599, o segundo entre os vários estabelecidos junto ao rio Cuanza, depois do de Massangano. E como era tradição, ao mesmo tempo que no cimo de um morro foi construída uma fortaleza, por baixo, num amplo terreiro junto à margem esquerda do Cuanza, ergueu-se uma igreja, devotada a Nossa Senhora da Conceição. Curiosamente, talvez a proximidade entre a Cabala e Muxima também possa ter um significado oculto, pois há mesmo quem defenda que a origem deste santuário é uma cabala. Essa foi a minha conclusão quando, entre centenas e centenas de textos que abundam sobre o tema nas páginas da internet, grande parte escandalosamente copiadas umas das outras, até porque coincidem sempre nos mesmos erros, houve uma que me captou a atenção, precisamente por defender esta tese de conspiração. Não resisto a transcrever um trecho, que sustenta que “os colonizadores terão edificado o templo católico sobre o local sagrado dos povos locais, como forma de mostrar o seu poder e submetê-los psicologicamente”, salientando o mesmo autor, anónimo, que “a dominação dos deuses de um povo tem sido uma técnica de submissão dos povos usada por várias potências imperialistas ao longo da história da humanidade”. Ao ponderar sobre uma visão assim tão sombria, mal cheguei a Muxima decidi pôr de lado o religioso e atirar-me ao profano. Pior, fui mesmo direito ao pecado, entregando-me aos prazeres da carne. Uma grelhada mista, acompanhada por Cucas fresquinhas e muita conversa, que rapidamente fizeram esquecer que cabeça poderá estar por trás de semelhantes pensamentos? Bem, é a mesma cabeça que também diz, a propósito desta região, que “é uma zona de forte tradição de magia e bruxaria, pelo que o "surgimento milagroso da capela" terá sido uma demonstração de poder de Maria sobre as outras poderosas da área”. Para que estas revelações não me atormentassem o sono, decidi afogá-las em mais Cucas fresquinhas, até porque este texto, digamos que esotérico, concluí com uma afirmação que me deixou gelado: “Não raramente pessoas há que vão à Muxima para entregar-lhe a vida de alguém.” Cruzes, canhoto!
Como visitei a Muxima em Junho, antecipei-me à grande peregrinação anual, que se tornou tradição em 1833 e que este ano ficou marcada para os dias 4 a 6 de Setembro. Assim, ao invés de encontrar mais de 150 mil pessoas na vila, entre fieis e infieis, crentes e descrentes, vendedores e compradores, policias e ladrões, que tornam o lugar tão pequeno que fazem de Muxima um autêntico coração apertado, tinha o santuário quase só para mim. Mais importante do que isso, não precisei de acampar, ou simplesmente dormir ao relento, ali no adro da igreja, porque o novo hotel estava cheio de quartos disponíveis. Cada quarto era um contentor, que veio da China expressamente para permitir abrir em Muxima um hotel instantâneo. Um contentor com todos os requintes, ainda que segundo a tradição chinesa, as coisas fossem todas “mais ou menos”. Por exemplo, o ar condicionado parecia o motor de um congelador e antes morrer de calor que de frio, mas desligá-lo foi um problema. Depois de carregar insistentemente nos botões do comando, descobri que não tinha pilhas. Nem as havia na recepção. Nem nos outros contentores. O pior é que o aparelho também não tinha um interruptor que permitisse desligá-lo manualmente. Mas mau mesmo foi quando descobri que não estava ligado a uma tomada eléctrica, mas sim directamente à instalação do próprio contentor. Era impossível desligá-lo, mas a recepção tinha edredons, bem quentinhos. Antes de deitar-me, até para refrescar os pensamentos e afastar definitivamente aquelas teorias da cabala, pensei tomar um duche morninho. Bem, pensar não custa, mas assim que toquei na torneira do lavatório e fiquei com ela na mão, desconfiei do duche. A torneira da água quente era apenas decorativa, mas a da água fria era autêntica. E a água mesmo fria. Para me castigar, tomei dois duches: um ao deitar, outro ao levantar. Até porque queria apresentar-me limpinho à “Mamã Muxima”, como carinhosamente muitos angolanos chamam a Nossa Senhora da Conceição.
Depois do “mata-bicho”, outra expressão tão angolana — para designar um bom pequeno-almoço, naquele sentido de farto… — avancei finalmente até à igreja. Estava cheia de mulheres. Quase não havia homens. Nesta manhã, nem o padre Mário Torres, um mexicano que é o Reitor do santuário, estava por ali. Nem parecia estar a fazer falta, tal a devoção com que as mulheres enchiam o interior do templo, entregando-se com um fervor intenso, até um pouco arrepiante, a orações e mais orações, muitas de braços abertos, que não escondiam ser sinal de tantos pedidos. Voltei a lembrar-me das teorias intrigantes daquele texto que tinha lido e perguntei a mim próprio se não estaria mesmo certo este desconhecido que escreveu que as pessoas vão à Muxima “na esperança de que esta resolva os seus problemas de saúde que a ciência não tenha conseguido debelar, outros vão pedir que ela lhes traga dinheiro e os livre da pobreza em que vivem”. É provável que peçam tudo isto e muito mais. Mas não é isso que as leva a chegar a este lugar ermo, que é sede do concelho da Quiçama, também ele um santuário, mas da vida selvagem, embora a precisar de uns milagres para ser reabilitado. O que leva ali tanta gente é a fé, essa coisa tão estranha, que nos alimenta a alma e nos dá força. Ali sentado no muro do adro da igreja, a olhar o rio a correr devagarinho, pensei nisso, na fé. E senti um aperto no coração. A mamã Muxima também me ouviu. Agora já podia partir, para atravessar as terras da Quiçama...



Subir até à fortaleza é um ritual obrigatório a todos os que visitam Muxima. Para muitos, vencer essa ladeira íngreme é um sacrifício, mas nada na vida se tem sem sacrifício, pensarão. Outros, sobem apenas para contemplar a paisagem. O que não quer dizer que não passem pelo mesmo sacrifício.


O interior da igreja já estava cheio, só de mulheres, entregues a um estranho frenesim de orações, tal a intensidade dos seus gestos, enquanto rezavam à "Mamã Muxima". E de repente, quando o tom aumentou, fecharam a porta. Para as suas preces não fugirem...

Pormenor da fachada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Muxima. O culto católico chegou ali em 1599, quando foi criado o presídio da Muxima, mas a igreja de pedra e cal esperou quase meio século para ser construída. Quem diria que hoje é considerado o mais importante santuário de culto mariano na África Austral?

Encostado a um mamoeiro, junto ao muro que separa o amplo adro do santuário da Muxima das águas do rio Cuanza. Estava ali a pedir um milagre. A pedir que a "Mamã Muxima" salve o santuário que a envolve: o Parque Nacional da Quiçama.


Dinheiro, saúde, trabalho, amor, justiça, talvez até vingança? Tudo é pedido à "Mamã Muxima". Mas o que faz com que alguém se desloque a este lugar perdido entre duas curvas do rio Cuanza, a cerca de centena e meia de quilómetros de Luanda, tem um só nome. Chama-se fé!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009


“Venham que o Pai vai fazer uma foto!”...
RETRATO DE UMA FAMÍLIA NUMEROSA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Quando parei a pickup na berma da estrada, não havia ninguém à vista. Diante da casa, com duas portas reforçadas por um gradeamento de ferro, mas apenas uma janela sem qualquer protecção especial, havia apenas uma bicicleta, que repousava assente no descanso sob a roda traseira. Desliguei o motor e abri a janela para fazer uma fotografia à caravana que passava. Eram mais de uma dúzia de pickups, todas iguais, excepto na decoração que ostentavam. Uma a uma, iam mergulhando nas enormes poças que faziam a picada parecer um rio e cada vez que aceleravam, como que para fugir de um provável atoleiro, levantavam uma cortina de água lamacenta. E então, tornavam-se mesmo todas iguais, como se aquela água acastanhada as tivesse pintado.
O ruído a caravana atraíu alguém, que espreitou pela porta aberta e logo desapareceu na escuridão do interior. Instantes depois, voltou. Era um miúdo para aí com uns dez anos. Atrás dele veio outro e se não fosse a ligeira diferença de altura, diria que eram gémeos. Apareceu um terceiro, um pouco mais velho, e logo a seguir veio um adulto. Era o pai deles. Enquanto fotografava as pickups, ficaram ali a olhar-me, seguindo atentamente o que eu fazia, mas sem nada dizer. Quando as viaturas começaram a desaparecer ao longe, desapareceu também esse silêncio. Cumprimentei-os e responderam logo em coro: “Bom dia sim!” Perguntei se eram todos familiares. Disseram que sim. Então, ofereci-me para fazer um retrato à família. Nem precisei de ouvir a resposta para perceber que sim. Bastou ver os sorrisos que se rasgaram.
Agora já não precisava de permanecer resguardado no interior da minha pickup, porque já não corria o risco de ficar todo salpicado de lama. Os outros veículos já tinham desaparecido. Saí e apontei a máquina fotográfica aos quatro. Enquanto lhes fazia um primeiro retrato, o adulto gritou para dentro de casa: “Venham que o Pai vai fazer uma fotografia!”
Ele era o Pai deles, mas o meu cabelo levemente grisalho e a barba prateada fê-lo tratar-me carinhosamente por Pai. Por respeito e por aparentar ser o mais velho. Enquanto não chegava mais ninguém, avisou-me logo que a família dele era grande. Disse-lhe que não devia ser maior que a minha. Garantiu-me que sim, que era, “de certeza”. Deixei-o insistir que tinha uma grande família, convicto de que arrumaria a questão a meu favor quando o esclarecesse quanto à dimensão da minha família. Começam então a chegar algumas crianças. Uma vem com um bébé ao colo e se os alinhasse por alturas, a sua sombra desenhava uma escada. A diferença entre alguns não devia ser mais de um ano, pensei eu. Pela minha avaliação, achei que já tinha ganho e foi a minha vez de abrir o sorriso, antes de dizer-lhe: “Sabe, só irmãos nós somos doze... Metade rapazes, metade raparigas” — acrescentei, com a sensação de os ter impressionado. E ganho, claro.
Mas não ganhei. Continuavam a chegar crianças, que se iam dispondo alinhadas lado a lado, por trás da bicicleta. Quando me parece que estão todos, conto-os e declaro um empate. Empate, aliás, duplo, pois vejo tantos meninos como meninas. O homem sorriu ainda mais. Estava visivelmente divertido. Só nessa altura me respondeu: “Nós também somos catorze, se contar só com os filhos...” — e fez um sinal para trás de si. Então, timidamente, aparece a espreitar por trás dos outros, numa ponta do grupo, mais uma miúda. Tem, talvez, uns cinco anos, carregando também ela um bébé às costas, amarrado a uma capulana, como se andassem a brincar aos pais e às mães. Eram os dois que faltavam. Quando parti, tive a sensação de que estavam mais do que divertidos por terem ganho este braço de ferro. Senti que, acima de tudo, estavam orgulhosos por serem uma família tão grande.


Quando parei, ao lado da casa, para fotografar a caravana a passar naquela troço incrivelmente lamacento da picada, não havia ninguém por perto. Apenas uma bicicleta e uma porta aberta. Não tardou a estar diante de uma enorme família. Bem divertida. Ali, respirava-se felicidade!

Não paravam de aparecer crianças, que se iam alinhando ao lado dos pais, por trás de bicicleta. Nesta altura, contei-os todos e declarei um empate. Também somos 12 irmãos — disse-lhes triunfante...

Tinham-me pregado uma partida e estava na hora de divertirem-se com isso. O Pai fez um sinal e por trás do grupo apareceu uma menina com um bébé amarrado às costas. Agora não havia dúvidas e aceitei essa "derrota" com fair-play.

Dezasseis sorrisos. Todos da mesma família. E ainda pensava eu que tinha uma grande família...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009


O Presídio de Massangano
A CAPITAL QUE A HISTÓRIA ESQUECEU

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Há um tesouro histórico perdido a cerca de duas horas de condução desde Luanda, seguindo pela estrada para Catete e Dondo. Quem não o conhecer, dificilmente o descobrirá, pois para lá chegar terá de desviar da estrada principal uns 15 quilómetros antes de entrar na vila de Dondo, tomando uma estrada secundária que arranca pelo lado direito, mas que não só não tem nenhuma placa a identificá-la, como nem sequer é suficientemente perceptível por quem circula na via principal. Desenrolando-se ora pelo cimo de pequenos cabeços, ora nos vales, num constante sobe e desce, esta estrada é por si só um belo passeio, em que o descrever de cada curva desvenda novas perspectivas de uma paisagem que não cansa o olhar e onde os embondeiros são uma presença constante, a perder de vista. Quase sempre apenas com a largura de um veículo e em piso de terra, embora por vezes surjam ainda velhos troços de asfalto que conseguiram resistir ao desgaste do tempo e ao esquecimento, esta estrada, que não tem saída, é como que guardiã de um segredo bem guardado, que apenas é transmitido a alguns afortunados. Esse sítio tão precioso — especialmente para os amantes da história — chama-se Massangano e os participantes no 4º Raid T.T. Kwanza Sul, onde me incluí, foram alguns dos sortudos que puderam visitá-lo, chegando lá guiados por outros que o são muito mais, nem que seja pelo facto de terem conhecido este local histórico noutra altura, nalguns casos há muitas décadas, quando aquela vintena de quilómetros ainda era uma estrada de asfalto... Massangano situa-se numa pequena elevação de terreno que se evidencia na ampla planície onde correm os rios Cuanza e Lucala, entre a margem direita do primeiro e esquerda do segundo, ligeiramente a montante do ponto em que se juntam. Embora não seja senão um cerro, é o ponto mais alto da região, tornando-se num local estratégico para controlar toda a movimentação nas terras em redor e a navegação nos dois rios. Este aspecto não passou despercebido a Paulo Dias de Novais, quando em 1579 começou a subir o rio Cuanza, na liderança da primeira grande expedição pelo interior do Reino de Angola que visou estender a colonização portuguesa destas terras para além da faixa costeira. Assim, foi mesmo aí que o primeiro Capitão-Mor e Governador de Angola fundou o primeiro de uma série de presídios — postos da administração colonial, que deram origem a povoações e fortalezas — junto aos grandes rios. Em Maio de 1585, apenas dois anos após ter mandado construir o presídio de Massangano, foi aí que Paulo Dias de Novais morreu, tendo sido sepultado diante da igreja que tinha dedicado a Nossa Senhora da Vitória. A morte do Governador não foi, porém, a morte de Massangano, que continuou a desenvolver o seu papel determinante para implantar a soberania portuguesa no coração da terra dos Ngola, tornando-se numa importante povoação. Por isso mesmo, quando os holandeses assaltaram Luanda e tomaram conta da cidade, foi para Massangano que Salvador Correia — que era então o Governador de Angola — fugiu, refugiando-se neste lugar com toda a administração portuguesa. Durante sete anos, num período que foi de Agosto de 1641 a Agosto de 1648, Massangano foi oficialmente a capital portuguesa de Angola, tendo-se desenvolvido ainda mais. Porém, com a reconquista de Luanda e a definitiva expulsão dos holandeses, a 18 de Agosto de 1648, a capital voltou para onde ainda hoje está, enquanto que a pequena cidade criada nesse cerro entre o Cuanza e o Lucala voltou à sua modesta condição de um ponto de implantação colonial, com uma forte componente militar. Com o passar dos séculos, a importância estratégica de Massangano sob o ponto de vista militar nunca se perdeu, mas a chegada da paz a Angola até isso fez tornar-se irrelevante. Actualmente, este local, sem dúvida que um dos mais importantes da história de Angola e da sua colonização, não passa de uma discreta aldeia ribeirinha, com escassa população, uma esquadra policial quase sem guarnição, um posto de saúde que só abre quando há consultas médicas e a casa da administração local. Tudo o resto, salvo a igreja, situada numa das extremas da povoação, são ruínas. Ruínas imponentes, como a da Casa da Câmara, ou do Tribunal — que tinha a cadeia em anexo, como que para tudo ficar resolvido no mesmo sítio... —, cujas grossas e altas paredes de pedra souberam resistir ao passar dos séculos. A fortaleza, encostada a uma pequena falésia que desce para o Cuanza, entre a velha Casa da Câmara e a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, já foi desocupada e esvaziada, restando apenas as grossas paredes, que também acusam a falta de manutenção. Até a igreja precisa urgentemente de um novo tecto, que ameaça desabar e deixa já o céu a descoberto nalguns pontos. No entanto, não é por isso que o povo deixa de a encher regularmente, sempre que o padre celebra missa. Dos primórdios de Massagano, esta foi a única herança que jamais se perdeu, ou um dos objectivos dos pioneiros não tivesse sido a cristianização dos povos angolanos...



Passado e presente frente a frente. Em primeiro plano, as ruínas da antiga Casa da Câmara; por trás, o edifício cor de rosa é onde actualmente está instalada a administração local. A esquadra da policia fica ao lado.


O túmulo de Paulo Dias de Novais, diante da igreja que o primeiro Capitão-Mor e Governador de Angola mandou construir, numa extrema da povoação.

O telhado ameaça desabar, mas a velha Igreja de Nossa Senhora da Vitória continua aberta ao culto e enche-se de gente nos dias em que o padre vem dizer a missa. Esta é a única rotina que nunca mudou desde que nasceu Massangano.

Com excepção de alguns turistas, que surgem ocasionalmente, ninguém vai a Massangano, senão os que lá vivem. E são poucos. Dentro da povoação, até o caminho foi conquistado pelo mato; só a marca dos rodados dos jipes é mais forte.


À porta da fortaleza, a placa que assinala a homenagem aos heróis de Massangano, realizada precisamente 300 anos depois de Luanda ter voltado à soberania portuguesa. Foi em 1648 e desde então este lugar encantador à beira do rio Cuanza não voltou a ter a mesma importância...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009


Porque hoje é Dia Mundial da Fotografia
RETRATO DE QUINZE SORRISOS ANGOLANOS

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Cada dia do ano é dia de qualquer coisa. Ao 19 de Agosto calha ser o Dia Mundial da Fotografia, celebrando internacionalmente uma das coisas que os últimos anos mais vulgarizaram e popularizaram, desde que a fotografia digital se banalizou. Longe vão os tempos em que as fotos eram a preto e branco, gravadas numa placa de vidro. Depois passou a ser uma película que, por sua vez, somente se coloriu nos idos anos 60 do século passado, embora tivesse, pelos custos, demorado cerca de duas décadas a conquistar o público. Hoje, já nem sequer é preciso ter uma câmara para registar fotografias; a generalidade dos telefones celulares já incorpora a função de máquina fotográfica e os modelos mais sofisticados conseguem até assegurar uma qualidade impressionante. E com a fotografia digital, não só chegaram as fotos instantâneas, que estão prontas a ser apreciadas assim que disparamos, como nasceram os fotógrafos instantâneos, que são capazes de tudo, nomeadamente de copiar as imagens que os encantaram e que, normalmente à custa de sucessivas tentativas, conseguem às vezes exibir belas fotografias, daquelas que fazem disparar a vaidade ao seu autor e a inveja aos que as contemplam. Mas, tal como não é o acto de escrever que faz de alguém um escritor, também não é por se tirar fotografias que nos tornamos fotógrafos. Até podemos viver disso, apresentando-nos, com toda a legitimidade, como "profissionais", mas é preciso recordar que a única diferença entre um profissional e um amador é, precisamente, que o primeiro faz dessa actividade o seu modo de vida, enquanto que o segundo a desempenha meramente por prazer. Há bons e maus profissionais em todas as áreas, como em muitas há igualmente amadores cheios de talento e competência, que davam excelentes profissionais se quisessem apostar nisso para viver. Na fotografia, o retrato de pessoas sempre foi uma das áreas importantes. Antigamente, ia-se ao fotógrafo registar um retrato que imortalizasse uma ocasião especial, como um aniversário ou um nascimento, mas já para um baptizado ou casamento era hábito contratar-se o fotógrafo. Agora, mesmo quando se contrata um fotógrafo, toda a gente fotografa por tudo e por nada. E toda a gente faz retratos a toda a gente. Sobretudo a gente que não conhece de lado nenhum. Nunca o fiz, mas senti bem nada pele o incómodo disso quando, em 1998, fui a estrela de uma sessão fotográfica de um grupo de turistas asiáticos, com quem me cruzei nos átrios do enorme Centro Cultural de Belém, a dois passos do meu escritório em Lisboa. Não os obriguei a apagar as fotografias, nem sequer me zanguei com eles. Mas tive uma oportunidade rara de sentir quanto invasivo é fotografarem-nos sem que o desejemos. Alguns fotógrafos dizem que assim conseguem obter retratos muito espontâneos e naturais; concordo que sim, mas isso não me me permite aceitar fazê-lo. Até porque a experiência diz-me que os retratos são muito mais autênticos e reveladores quando previamente acordados. As quinze imagens que aqui deixo, retratam várias gerações de mulheres angolanas, desde algumas que já há muito serão avós, pela certa, até outras que ainda só são as suas netas. Em comum, todas estas fotografias têm dois aspectos: foram feitas a pedido das próprias e captaram sorrisos. Uns mais rasgados, outros mais tímidos, mas todos eles genuínos. E há ainda outro ponto em comum, o olhar a descoberto, sem óculos escuros para esconder o que lhes vai na alma. Nem todos os olhares são alegres...