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quarta-feira, 15 de junho de 2011




Há melhor do que isso?
ROSTOS DE ALEGRIA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Tinha saído de Luanda rumo ao interior, tomando a estrada de Catete. A nova circular em redor da capital, bem como alguns atalhos, facilitaram a saída, mas o sol já ia bem alto nesta manhã quando me desviei para uma larga picada e tomei rumo ao Golungo Alto. Foi em Maria Teresa. Do lugar, não guardo sequer recordações, mas o nome nunca esqueci. Lembrou-me logo a minha Mãe, que tinha uma velha amiga chamada Maria Teresa. A minha Mãe morreu sem que alguma vez tivesse visitado África. O meu Pai também. Mas enquanto que a minha Mãe era uma apreciadora da velha cultura francófona europeia e morria de amores por Paris, Lyon — ou não fosse a capital da Cuisine Française de que tanto gostava — Florença e Veneza, tenho a certeza de que o meu Pai teria gostado tanto como eu de conhecer todos os lugares por onde tenho andado. E Angola é um dos países de África que melhor conheço. Entro na picada a pensar neles. E a pensar que nunca lhes contarei esta viagem. Absorvido nestes pensamentos, nem que dei conta dos quilómetros a passar, rolando a bom ritmo nesta estrada de terra, larga e de bom piso, que equipas de trabalhadores chineses preparavam já para receber um tapete de asfalto. Provavelmente, agora já se chega ao Golungo Alto em alcatrão e ainda mais depressa do que neste dia, já lá vai um ano, mais coisa, menos coisa.
Então, depois de sair da estrada de Luanda, só voltei a avistar asfalto quando entrei na rua principal de Golungo Alto. Eram horas de almoço e não havia sequer uma mesa vaga na sala do antigo restaurante da praça central, num recanto do jardim público. Nem precisava. A jornada ainda nem estava a meio e parar para almoçar seria correr o risco de terminá-la pela noite dentro, desperdiçando uma oportunidade preciosa de contemplar estas paisagens, a caminho de terras de Malange.
Contentei-me com uma sanduíche de carne, daquelas que antigamente se serviam nas tascas de província, em que a carne não cabia sequer no pão. Uns anos antes, em Angola esta sanduíche seria um autentico banquete. Mas agora não, essa escassez tão dura e tão longa que acompanhou décadas de guerra já não passa de uma memória, que ninguém quer recordar.
Por isso, desta manhã de viagem, guardo alguns rostos de alegria que me fizeram encostar na berma e conversar. Essas sim, são recordações mais fortes do que a paisagem, até porque nem sempre pude apreciá-la devidamente, pois o trânsito na picada era constante, deixando o caminho submerso numa densa núvem de poeira.
Primeiro, foi uma família, bem africana: uma mulher ainda na casa dos 40, a filha mais velha, com talvez metade de idade, e os três filhos desta, um deles ainda bebé, que dormia amarrado às suas costas com uma capulana colorida, enquanto a Mãe enchia vasilhas de água numa fonte à beira da estrada. Quando perguntei à mais velha se ela é que era a Maria Teresa riu-se tanto que contagiou toda a família. Os dois miúdos, que brincavam na lama, quiseram espreitar a máquina fotográfica e ficaram encantados com a sugestão de lhes fazer uma fotografia. Como quase sempre, o retrato de famíla saíu muito solene, mas eles adoraram!
Mais adiante, junto de uma aldeia, assim que parei fiquei rodeado de crianças. Eram bem alegres e não paravam de correr. Desafiei-as para uma corrida, que registei com a câmara, para eles depois verem. Parecia um filme, comentou uma delas...
Finalmente, mesmo à entrada do Golungo Alto, ao parar para deixar passar a caravana do 5º Raid T.T. Kwanza Sul, rapidamente tinha uma multidão de crianças à minha volta. E assim que viram a máquina, pediram em cor para “filmar”: “Pai, filma eu!” — diziam. E eu filmei. Ou melhor, fotografei, porque era disso que se tratava e não propriamente de fazer um filme, como as máquinas fotográficas de última geração conseguem também fazer. A sessão foi interminável. Mas divertida. Muito mesmo. E todos aqueles rostos alegres ganham vida quando volto a olhar para estas fotografias. O meu Pai teria gostado de vê-las. Para a minha Mãe, arranjava outro motivo de conversa...





quarta-feira, 27 de abril de 2011



Encontro marcado para o pequeno almoço

O DESTINO FICA A 30 KM DE LUANDA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Os mais fatalistas dizem que não há como fugir dele e os místicos asseguram que o caminho está traçado. Os aventureiros nem se preocupam com isso, enquanto que os românticos preferem marcar encontro com ele. Com o destino, porque é disso que estamos a falar. Tal como as mulheres que Martinho da Vila canta, também há todo o tipo de destinos. Uns mais directos, outros sinuosos; para se alcançar uns tomam-se atalhos, ou por vezes escolhemos o caminho mais longo, mas o certo é que sempre, na vida, chegamos a um destino.
Na manhã em que saí de Luanda para dar início ao 5º Raid T.T. Kwanza Sul, tinha encontro marcado com o destino! E devo dizer que poucas vezes senti tanta vontade de chegar, quanto antes, ao destino. Acordado a meio da noite, saí para a rua ainda era escuro e deixei a capital angolana quando estava a amanhecer. Teria preferido levantar um pouco mais tarde e não sair sem antes ter tomado o pequeno almoço. Para mais, seria um excelente pequeno almoço, pois encontrava-me instalado no Hotel Trópico, que hoje é referência pela mesa farta, esquecidos que estão os tempos em que até num dos melhores hoteis de Luanda a comida era racionada. Porém, os organizadores desta viagem anual por terras de Angola sempre “castigaram” os expedicionários com uma partida discreta, o mais tardar ao nascer do dia, e sempre em jejum. O trânsito de Luanda e fugir dele antes das horas de maior fluxo, são a preocupação dos responsáveis pelo raide, justificando por isso o sacrifício que é imposto aos que tomam parte da caravana, que mercê disso, na manhã em que a aventura começa, já sabem que vão partir em jejum e que tardará umas horas — nunca ninguém sabe exactamente quantas… … até que possam matar a fome.
Na quarta edição, conduzimos até à barra do Dande, mais a norte da capital, até podermos tomar o pequeno almoço, que não estava sequer preparado e tardou em ser servido, pondo imensa pressão nos organizadores e participantes, pois havia longos quilómetros para cumprir. Desta feita, a distância para vencer logo na primeira jornada era igualmente longa ¬— desde Luanda até Calandula, a vila nas imediações da quedas da água que outrora eram conhecidas por Quedas Duque de Bragança. Uma vez mais, também não havia tempo a perder. Nem para o pequeno almoço, até porque não havia como fugir dele, pois neste caso concreto mais do que qualquer outra coisa, havia um compromisso a respeitar: os responsáveis por um resort turístico recentemente inaugurado em Kikuxi, no concelho de Viana, tinham proposto oferecer o pequeno almoço aos cerca de seis dezenas de expedicionários, a troco, claro, de uma visita às instalações deste complexo hoteleiro, perdido no meio de planícies salpicadas por embondeiros, onde se chega percorrendo um caminho de terra, poeirento e esburacado. Esse resort é a Quinta do Destino.
Uma placa de madeira, afixada junto ao portão, também em madeira, dá aos boas vindas à Quinta do Destino. Entrando, o mato dá lugar a relva viçosa, num amplo jardim que se estende por cinco hectares cheio de árvores com copas generosas, para proporcionarem boas sombras. No meio desta propriedade vedada por uma rede metálica, que deixa bem vincada que este não é um destino para qualquer um, erguem-se 42 bungalows, pintados num tom rosa que se destaca no meio de tanto verde. Ao centro, fica o salão de refeições, onde toda a equipa nos recebeu com mesas recheadas, que rapidamente se esvaziaram. A máquina de café expresso, essa está instalada ao lado, no bar da enorme piscina, rodeada por espreguiçadeiras e chapéus de sol, num convite quase irresistível a não fazer nada e aceitar a preguiça como destino. Infelizmente, as pastilhas de café não chegaram para contentar todos os candidatos a uma chávena de expresso. Apenas para os primeiros que esticaram o dedo e pediram. Quando a equipa da Quinta do Destino se reuniu para uma foto de família, junto com os expedicionários, restávamos apenas nós. Os atrasados, para quem café é café. Não tem de ser expresso, mas apenas bom café puro. E esse, abundava em termos que poucos abriram.
Senti alguma desilusão no rosto dos nossos anfitriões, uma equipa jovem, que se fardou para uma manhã que imaginava especial, mas que afinal mal viu a cara daqueles que convidou. Mas os sorrisos logo se rasgaram quando pedi que se juntassem todos para registar aquele momento numa fotografia. E prometi que não só a enviava, como a divulgaria. A promessa tardou, mas agora está cumprida. Mais do que o pequeno almoço, o que gostei mesmo foi daqueles sorrisos. E também teria gostado de ficar a torrar um pouco ao sol e depois arrefecer na piscina, enquanto iam buscar mais pastilhas para me oferecerem um café expresso. Mas o destino continua a chamar por mim. E empurrava-me de volta à estrada, para mais uma viagem memorável, a conhecer novos lugares de Angola, combinando o enorme prazer da descoberta com o prazer de rever outros lugares, que já antes tinham ficado gravados na memória.

Sorrisos rasgados, a equipa da Quinta do Destino recebeu a caravana do 5º Raid T.T. Kwanza Sul de braços abertos e mesa recheada. Quando partimos, tinham motivos para se sentir contentes.

Os bungalows da Quinta do Destino, pintados em rosa forte, para contrastar com o verde intenso dos cinco hectares de jardim.



Naquela manhã, não foi o destino que nos levou até à Quinta do Destino. Foi o arranque do 5º Raid T.T. Kwanza Sul, que prosseguiu rumo a Calandula por caminhos nunca antes percorridos por esta caravana.

segunda-feira, 28 de março de 2011



Recordações numa viagem de autocarro...
FINAL DE TARDE
NO TRÂNSITO DE LUANDA


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

A tarde ia longa quando regressámos do Mussulo e desembarcámos no pontão entre os dois clubes náuticos, instalados num local que há não muitos anos era um lugar remoto nos arredores de Luanda, a sul, mas que agora está perfeitamente integrado na cidade. A mancha urbana de Luanda cresceu assustadoramente e o trânsito também. Tornou-se um lugar comum as pessoas referirem-se ao trânsito de Luanda como o inferno na terra, algo verdadeiramente dantesco, como não se encontra pior em lugar nenhum. Na verdade, para mim o trânsito sempre foi lento em Luanda...
Nos anos 80, quando ainda não havia assim tantos veículos a circular, já eram frequentes os engarrafamentos como consequência das estreitas medidas de controlo e segurança que então vigoravam: havia postos de controlo militares por toda a cidade e parar em todos eles para mostrar documentos e explicar de onde vínhamos e para onde íamos tornava extenuante a mais curta deslocação; durante o dia estes controlos eram sempre uma incógnita, pois nem sempre funcionavam, mas como nessa altura havia um recolher obrigatório durante a noite, quem saía depois do sol desaparecer não só precisava de ter um salvo-conduto que o autorizasse a circular fora de horas, como precisava ainda de ter muita paciência, já que era nesse período que o controlo apertava. Ninguém escapava a parar! Lembro-me que só na marginal, desde o largo junto à entrada do Porto de Luanda até à ponte para a ilha, havia inúmeros postos de controlo, que embora todos à vista uns dos outros, nem por isso se dispensava a paragem em todos eles.
A primeira vez que circulei pela capital angolana liberto desse apertado controlo foi no início de 1992, quando se vivia o ponto mais alto das tréguas estabelecidas pelos célebres Acordos de Bicesse; esses meses de paz quebraram muitas das restrições à circulação pelo país e isso sentiu-se logo no tráfego, que aumentou substancialmente, sobretudo em Luanda. Todavia, ainda estávamos longe, muito longe mesmo, dos engarrafamentos que encontrámos uma década depois, já com a paz ditada não por tréguas duvidosas, mas pelo termo definitivo da guerra civil que devastou Angola durante mais de um quarto de século.
Salvo três excepções, duas delas ditadas por atrasos insuportáveis nos voos à saída de Lisboa, cheguei sempre a Luanda sensivelmente à hora do crepúsculo e, como em qualquer grande cidade, esse é um dos momentos em que o trânsito é mais intenso. Em Luanda, agora diz-se que todas as horas são horas de ponta, mas é ao cair do dia que as longas filas compactas mais se adensam a cada cruzamento, num emaranhado de veículos que se prolonga pela noite dentro, até aliviarem já depois da hora do jantar. Os reis da cidade são os “candongueiros”, como chamam às furgonetas azuis que asseguram o grosso dos transportes públicos. Reparo que se tornaram também no alvo preferencial dos policias de trânsito, mas a acção destes últimos sobre os primeiros não chega sequer a ter um efeito dissuasor, como em Lisboa aconteceu com os radares fixos instalados nalgumas vias rápidas. Enquanto um “candongueiro” é parado por alguma irregularidade, ou simplesmente para verificar a respectiva documentação — por exemplo, a obrigatoriedade de todos os veículos disporem de seguro é uma das medidas menos respeitadas, talvez por ser ainda recente... — dezenas, para não dizermos centenas, passam ao lado, como que imunes a tudo e mais alguma coisa. Estes pequenos autocarros, que em Luanda já começam a ter concorrência de autocarros a sério, são geralmente furgões Toyota Hiace, comprados usados algures na Europa, quando teoricamente atingem o prazo de vida útil, rejuvenescendo por toda a África como transporte de passageiros, normalmente em percursos urbanos e interurbanos. A lotação média de nove lugares — existem versões de origem com quatro filas de bancos e 12 lugares — dá lugar a uma regra em que a palavra de ordem é “cabem todos e ainda mais um”. Daí que quando se envolvem em acidentes, estes furgões azuis — pintados num tom “azul cueca” que se identifica à distância, com o tejadilho branco — são particularmente letais. Dizem-me que uma das piores coisas que pode acontecer a alguém é envolver-se num acidente com um “candongueiro”. Imagino que seja o mesmo que ter um acidente com um táxi em Portugal; mesmo que não tenhamos a mínima culpa e que isso seja absolutamente evidente, não demorará a que o local da ocorrência esteja repleto de outros táxis cujos condutores assistiram a tudo e são unânimes em considerar-nos culpados. Bem, talvez em Luanda as coisas possam ser um bocadinho piores, pois não duvido que as discussões sejam mais acaloradas, nem que outros factores sejam tido em conta. Será igualmente praticamente em toda a África se um europeu tiver um acidente com um condutor local...
Tranquilamente sentado a bordo de um pequeno autocarro, um Toyota de três dezenas de lugares cujo modelo tem um nome bem engraçado ¬— é um Toyota Optima... — e um condutor ainda mais, atravesso descontraído e demoradamente grande parte da cidade, até me apear a meio da Rua da Missão, à porta do Hotel Trópico, que prevalece como uma das unidades hoteleiras de referência em Luanda, com um buffet impressionante, tão rico e diversificado que é uma ameaça perigosa para os bons “garfos”. Nos tempos difíceis, mesmo ainda no início dos anos 90, recordo-me que o Trópico era um “porto seguro”, mas estava longe de ser referência pela comida: o buffet era caríssimo e de uma pobreza franciscana. Pagava-se à entrada e uma vez, depois de desembolsar os “cinco contos”, encontrei todas as travessas e rechauds vazios. Quando reclamei, responderam-me que o problema era meu, que devia ter chegado mais cedo. E, claro, não podiam devolver o dinheiro. Não foi a refeição mais cara da minha vida, de modo algum, mas talvez a que teve a pior relação qualidade/preço e custo/benefício, pois limitei-me a rapar o fundo às travessas. E lembro-me que até nisso não estive sozinho, pois havia outros esfomeados como eu, que também chegaram tarde. No dia seguinte, à cautela, apresentei-me no Trópico antes da abertura do restaurante e fiquei ainda mais impressionado com o que vi quando as portas se abriram. Parecia o que um dia vi ao passar à porta do Casino Estoril às 15h00 em ponto, quando mais uma jornada de jogo estava a abrir e uma pequena multidão de viciados se apressou a correr para a sala das máquinas, como se estivem a perder uma fortuna. Ter ficado parado a olhar para a invasão do buffet do Trópico deixou-me outra vez limitado aos restos; a única diferença é que ainda estavam quentes.
Desta vez, todavia, a abundância é tal que já nem se formam filas em redor dos rechauds dos pratos quentes e das extensas mesas carregadas com travessas de “frios”, entradas, saladas e sobremesas. Na véspera, quando tinha chegado a Luanda, o meu grupo fora o último a servir-se deste buffet e parecia que éramos os primeiros. Nesta noite, íamos jantar fora e o autocarro esperou à porta enquanto fomos tomar um duche rápido — limpando o corpo do sal de um dia de praia — e aprontarmo-nos para ir “comer fora”. Quando voltámos a sair, a caminho da ilha de Luanda, o trânsito acalmara, totalmente. Demorámos apenas uns minutos, sempre a rolar. E ao desembarcar, só pensava como é absurdo considerar infernal o trânsito de Luanda. Se o compararmos com o trânsito de cidades como Manila, Bangkok ou Pequim, que nunca dormem. Quem se incomoda a circular pela capital angolana, não aguentaria atravessar uma destas capitais asiáticas...


A caminho do centro de Luanda, numa das vias rápidas com várias faixas de rodagem que facilitam o acesso desde o sul. O trânsito ainda não se fazia sentir...

... mas não tardou a que os engarrafamentos começassem a ganhar expressão.

As carrinhas dos "candongueiros" dominam o trânsito à hora de ponta e são infernais em Luanda. Mesmo nas circunstâncias em que não têm prioridade, mais vale ceder-lhe passagem.


Já bem no centro, o tráfego alivia. E o sol ainda não desapareceu no horizonte. Quem se queixa de Luanda é porque nunca andou em Bangkok, em Manila ou até em Pequim...

Pela hora do jantar, percorremos a marginal a caminho da ilha de Luanda. O trânsito já reduziu e a capital começa a ganhar uma aparência calma.

quarta-feira, 2 de março de 2011



Revista Todo Terreno conta a história toda…

DEZ DIAS EM VINTE PÁGINAS

Em cinco edições do Raid T.T. Kwanza Sul, participei em quatro, percorrendo talvez uns 15 mil quilómetros por todas as províncias de Angola, menos duas: o Cuando-Cubango e o Cunene, bem no sul, são as regiões que me resta visitar, embora não sejam terras totalmente estranhas, pois contornei-as diversas vezes ao percorrer a faixa de Caprivi, na Namíbia, e nalgumas incursões pela Zâmbia, anos atrás. Em 2010, ao tomar parte do 5º Raid T.T. Kwanza Sul, tive oportunidade de conhecer as províncias visitadas na segunda edição, a que faltei, nomeamente o Bié, para além de ter acrescentado as Lundas, Norte e Sul, bem como o Moxico e Malange. Hoje, já não tenho a mínima dúvida de que esta expedição em todo-o-terreno, organizada conjuntamente pelo município português de Almada e pelo governo angolano, através das autoridades da província do Kwanza Sul, representa, de longe, o mais importante e completo evento alguma vez realizado nas últimas décadas para dar a conhecer a realidade actual de Angola. Desde 2005, quando teve lugar o primeiro raide, até agora, as mudanças que fomos encontrando foram tantas e tão profundas que em inúmeros casos seríamos até capazes de jurar que estavamos enganados, que não se tratava dos mesmos lugares. Por exemplo, em 2007, quando a caravana chegou pela primeira vez à cidade do Cuíto, encontrou bem visíveis as marcas das batalhas dramáticas que fustigaram a capital do Bié, mas no ano passado, ao revisitá-la, praticamente ja não se encontram vestígios desses tempos difíceis. Talvez até por isso, e para não esquecermos a memória dessa tragédia, a caravana visitou o cemitério construído num morro sobranceiro à cidade, para enterrar as dezenas de milhares de vítimas tombadas nos combates que destruiram o Cuíto. Outro exemplo das transformações impressionantes a que assistimos em Angola são as picadas na zona do Waku Kungo — o antigo Colonato da Cela —, que em 2005 nos fizeram mergulhar em densas núvens de poeira, quando ligámos esta vila à cidade do Bailundo, são hoje estradas de asfalto, largas e de excelente piso, onde o veículo mais adequado para circular é um automóvel de turismo e não as Nissan PickUp Hardbody que desde sempre mobilizaram esta caravana. Muito mais importante do que tudo isso, hoje, mais do que em qualquer outra altura, sente-se a paz em todos os lugares por onde passamos em Angola, país onde grande parte da população adulta nasceu e cresceu em guerra e que só há nove anos descobriu o que era viver em paz. Uma descoberta que, essa sim, requereu tempo, muito mais tempo do que tem sido necessário para recuperar edifícios e abrir novas estradas. Mas talvez até por essa descoberta ter sido demorada, ao encantarem-se com a paz actual, os angolanos tornaram o seu país num dos mais seguros para quem viaje em África nestes tempos. E com todas as estruturas de apoio ao turismo que têm vindo a ser desenvolvidas por todo o lado, Angola começa a reunir as condições para que em breve possa tornar-se numa potência turística, no quadro africano. E os raides em todo-o-terreno serão, com certeza, um dos melhores cartazes que Angola pode usar para captar turistas. Não será já amanhã. Mas será em breve, com toda a certeza!
A minha presença nestes raides sempre se ficou a dever a um objectivo: publicar uma grande reportagem sobre o evento e tudo o que o rodeia na revista Todo Terreno. Uma vez mais, o compromisso foi cumprido. A edição nº 149 da Todo Terreno consagra 20 páginas à expedição que nos levou até às Lundas, as terras onde o solo brilha de riqueza. Boa leitura!

Alexandre Correia


segunda-feira, 27 de setembro de 2010



Raid T.T. Kwanza-Sul

AVENTURA COMEÇOU

COM UM BANHO NO MUSSULO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Definitivamente, a tradição já não é o que era. E ainda bem! Todos os anos, quem ia a Angola para tomar parte do Raid T.T. Kwanza-Sul chegava a Luanda ao cair da noite e na madrugada seguinte, ainda antes do amanhecer, já estava a pé para integrar a caravana e começar a devorar quilómetros sobre quilómetros à descoberta — ou à redescoberta, pois muitos dos que se deslocam desde Portugal viveram parte das suas vidas em Angola — deste enorme país da África Austral que em 2002 pôs termo a décadas de uma guerra terrível e que hoje faz da paz uma bandeira. Iniciativa conjunta do Governo da Província do Kwanza-Sul e da Câmara Municipal de Almada, no âmbito de um protocolo de cooperação que começou pela geminação desta cidade em frente a Lisboa com Porto Amboim, no sul de Angola, mas que acabou por estender-se a todos os municípios desta província, o Raid T.T. Kwanza-Sul desde a primeira edição, em 2005, que justifica bem todas as horas roubadas ao sono e até, por vezes, alguns sacrifícios ao conforto. Embora nunca ninguém se tivesse verdadeiramente queixado, o certo é que era praticamente unânime o sentimento de alguma perda por o programa ser, ano após ano, de tal modo intenso e preenchido que jamais sobrou tempo para permitir uma visita à capital angolana. Sempre arrancámos algumas horas após termos aterrado e quase sempre partimos de regresso a Portugal assim que terminámos o percurso, reconhecendo as bagagens à chegada ao aeroporto de Lisboa por serem, invariavelmente, as malas mais sujas que desfilavam pela esteira rolante.

Pois este ano, a tradição passou à história e o programa proposto para o 5º Raid T.T. Kwanza-Sul, que mobilizou uma caravana de quase duas dúzias de Nissan PickUp Hardbody e cerca de sete dezenas de expedicionários — que, como sempre, se dividiam em igualdade entre angolanos e estrangeiros, maioritariamente portugueses — arrancou com uma jornada de puro lazer em Luanda, antes de nos levar a enfrentar mais de quatro milhares de quilómetros até às Lundas, as duas províncias diamantíferas, bem no norte.

Assim, desta vez, a preocupação na primeira noite em Angola não foi despertar às quatro e meia da madrugada para irmos carregar as Nissan e deixar a capital ainda antes do trânsito matinal, mas sim acordar antes de encerrar o serviço de pequeno-almoço no Hotel Trópico, que continua a ser uma das referências — e não somente pelo pequeno-almoço, embora esta refeição impressione pela diversidade e qualidade do que oferece — ao nível da hotelaria neste país.

Na noite anterior, o jantar terminou com o “briefing” de Pedro Cristina, o líder da caravana, onde se anunciou que o traje para a primeira jornada era o... fato de banho. A ideia era arrancar do Trópico pelas dez da manhã, descer a Rua da Missão até à Maianga e continuar durante pelo menos um par de horas a percorrer as principais artérias de Luanda, como se fossemos fazer um “safari-fotográfico” urbano. Todavia, o autocarro disponibilizado para esta excursão atrasou-se mais do que esse par de horas, pelo que a visita matinal à capital quase não passou de uma boa intenção, já que desde o meio-dia que estava preparado um almoço — um belo almoço, diga-se de passagem... — num dos resorts do Mussulo, a “quase-ilha” — como dizem os franceses — a sul de Luanda.

O passeio ficou-se pelo itinerário directo ao embarcadouro, onde também as lanchas que nos levaram até ao Mussulo tardaram a chegar, acentuando ainda mais o atraso.

Oito minutos depois de nos sentarmos a bordo, quando desembarcámos no Mussulo, boa parte dos expedicionários tomou logo lugar à mesa. Mas como o almoço já estava requentado, mais meia hora de atraso não faria a menor diferença. Por mim, o apelo de um banho nas águas do Mussulo, contemplando Luanda do outro lado do braço de mar, foi mais forte que o apetite!

Em mais de duas décadas de viagens até Angola, era a primeira vez que estava no Mussulo e não podia desperdiçar a oportunidade de sentir por mim o quanto é delicioso um banho nesta península, há muito convertida na estância de veraneio da elite luandense. Apesar de, como quase sempre que fui à praia em Angola, este episódio ter ocorrido na época do “Cacimbo”, correspondente ao Inverno Austral, quando os termómetros não chegam aos 30 graus e ninguém vai para a praia, porque “faz frio”, para mim, bem como para mais alguns corajosos deste grupo, aquele banho foi imperdível e só não nos demorámos mais porque não pudemos. O almoço já se tinha convertido num lanche e arriscavamo-nos a nem o provar quando nos sentámos à mesa, ainda com o corpo a escorrer água salgada. Agora, que o nosso Verão, no hemisfério norte, está terminado, dou comigo a pensar como é irónico ter desperdiçado todo o Verão aqui em Portugal, para ir à praia no Inverno Austral, em Angola...




Bidões de combustível, para alimentar os geradores das residências de veraneio da elite luandense, e grades de cerveja, para saciar a sede, são duas das mercadorias que mais são transportadas pelas lanchas que fazem a ligação entre Luanda e o Mussulo.

Do pontão junto ao clube náutico, o Mussulo avista-se ao longe, com os coqueiros a recortar a linha do horizonte.


Não havia mais banhistas na praia. Em plena estação do "Cacimbo", como em Angola chamam ao Inverno Austral, uma temperatura de 27 graus celsius não é suficiente para despertar a vontade de um banho no mar.

A espera foi longa, mas depois de embarcarmos na lancha, em apenas oito minutos atravessámos o braço de mar que separa Luanda da "quase-ilha" do Mussulo.

Parece uma praia nas Caraíbas. Não faltam sequer os coqueiros a delimitar o areal da mata. É esta a imagem que temos ao chegar ao Mussulo, a península junto de Luanda, frente à área de expansão da capital angolana.

A tarde já estava no fim quando saí da praia para ir almoçar. Ao fim de mais de duas décadas, pela primeira vez tive oportunidade de ir a banhos ao Mussulo. Isso valeu mais do que qualquer almoço, até porque almoço quase todos os dias, há 46 anos...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010



O que fazer com uma reforma de 140 euros?

PORQUE NÃO MUDAR
A VIDA DE UMA CRIANÇA?


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Quem diria que este blog seria capaz de despertar memórias com quase quatro décadas? Mas é verdade e quem o prova é M.R., que no início dos anos 70 passou uma longa temporada desterrado num lugar onde se sentiu no fim do mundo. Eu ainda estava a aprender a ler quando M.R. de lá saíu. Saíu e não mais voltou a ir a essas terras onde as distâncias ainda hoje continuam a não ser medidas em quilómetros, mas sim em horas; horas de condução por picadas que as chuvas sempre deixam impraticáveis, de tal modo que nem vale muito a pena repará-las, porque nas próximas chuvadas vão ficar outra vez tão degradadas que ninguém acreditará que, entretanto, terão sido arranjadas. M.R. não voltou, nem a lá ir, nem a esquecer esses tempos vividos em África, num sítio onde apenas havia um cemitério. E ainda há o mesmo cemitério. M.R. voltou sim foi à “metrópole”, como nessa altura se chamava ao que hoje se chama “Portugal continental” — para diferenciar esta parte das regiões autónomas dos Açores e da Madeira, então províncias insulares. Mas pelo que percebi, há uma parte de M.R. que nunca mais partiu de lá, tamanha é a saudade, tão forte é a curiosidade em saber desse lugar...
Esse lugar chama-se Quimaria e não é mais do que uma aldeia perdida nos confins da província do Uíge, no norte de Angola. Quando M.R. lá chegou, esse era apenas o nome do aquartelamento onde se instalou a tropa portuguesa. Para além dos militares, não havia vivalma por perto. Foi em lugares como este, dominados por colonos que detinham grandes fazendas, onde se cultivava café e muita fruta — sobretudo citrinos —, que ocorreram os primeiros combates daquela que se tornaria conhecida para a história como “Guerra Colonial” portuguesa, no iníco dos anos 60. Calhou a M.R. ser mobilizado para esse desterro. Volvidos quase 40 anos, M.R. reencontrou Quimaria neste blog, onde deixou um primeiro comentário, colocando algumas questões, cuja resposta suscitou mais perguntas, mais contactos, até que acabou por contar que nunca recebeu qualquer pensão por ter sido militar nessa guerra, mas é provável que venha a receber. E se conseguir isso, M.R. não quer ficar com o dinheiro. É certo que não será muito, pois estima que sejam cerca de 140 euros por ano. Não é muito, mas pode ser uma fortuna para quem não tem nada. É assim que M.R. pensa. A sua ideia é devolver esse dinheiro ao lugar onde o terá ganho, há tantos anos: Quimaria. M.R. gostaria de entregar essa verba, todos os anos, a uma criança de Quimaria. E perguntou-me o que achava desta ideia, bem como se conseguia estabelecer os canais para encontrar o destinatário do seu subsídio, nessa aldeia angolana, tão remota.
Prometi que ia pensar e que tudo faria para ajudá-lo a concretizar esse desejo. Na realidade, talvez até conseguisse arranjar um portador suficientemente honesto para lhe confiar 140 euros e encarregá-lo de ir a Quimaria oferecê-los a uma criança. Mas, a partir daí, nada me garante que esses 140 euros não fossem logo convertidos numas grades de cerveja, que o pai dessa criança iria beber até cair para o lado e esquecer-se que tem filhos para criar. Com sorte, a mãe havia de gastá-los a comprar arroz, feijão, umas galinhas ou mesmo um porco para engordar e mais tarde tirar a barriga de misérias. Não que haja fome por aquelas bandas, mas ninguém cresce saudável a comer apenas funge temperado com molho de dém-dém... Mas o banquete não duraria muito tempo. Aqui, em Portugal, esses 140 euros nunca chegariam para sustentar um ano escolar a uma criança, mas lá, em Quimaria, onde já não existe nenhum quartel militar, mas onde foi construída uma escola primária, essa verba chegaria para comprar material escolar para muitas crianças, durante um ano inteiro. Sempre seria mais justo aplicar os 140 euros numa turma inteira, do que aplicá-los numa única criança. Mesmo que talvez fossem melhor investidos numa só criança, que tivesse potencial para “ir longe e ser alguém na vida”, como se diz. Talvez. Mas isso não seria justo para as outras crianças. A menos que os 140 euros se multiplicassem. Vou também pensar nisso...


Ao olhar para tantas crianças custa ter de escolher uma delas para investir um subsídio. Mais vale repartí-lo entre todas e aplicar o dinheiro em, por exemplo, material escolar, que com jeitinho chega para um ano inteiro.


Ao grupo da imagem acima podíamos chamar as "Mães de Quimaria"; ao contrário das de Bragança, que foram capa da revista norte-americana Time há alguns anos, quando se associaram para fechar um "antro de pecado" frequentado pelos seus maridos infiéis, estas são mesmo mães, até porque crianças é o que menos falta. Aliás, algumas mães quase que se confundem com as crianças, tão jovens que são...


Mandioca a secar em tabuleiros de canas. Nestas paragens, como em quase toda a África negra, a mandioca é um dos pilares fundamentais da alimentação. Para os lados de Quimaria não vimos sinais de fome, o que não quer dizer que a população ande bem alimentada. E são as crianças aquelas que mais sofrem da má nutrição.


Mata densa junto ao caminho de Quimaria para Toto. Serpenteando por entre colinas e vales, este troço do caminho continua como nos anos 70: cheios de buracos, alguns tão fundos que parecem suficientes para engolir um jipe.


Mais um dia que chega ao fim em Quimaria. Neste dia, como em tantos outros, o sol desapareceu sob um céu salpicado de nuvens, que ficou alaranjado até escurecer.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Nem que seja porque é Natal...

É TEMPO DE SORRIR!

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Não se sorri por decreto. Tem de se ter motivo para isso! Pode ser porque houve um reencontro feliz, como o de uma família que se volta a juntar para pôr termo a uma ausência, ou simplesmente um encontro inesperado que parecia um sonho nunca acreditado entre um jovem e o seu ídolo da televisão. Pode até ser uma asneira, que nos divertiu ao invés de nos deixar zangados, ou até mesmo uma piada, daquelas em que o difícil é não sorrir. Mas também acontece... É verdade que há momentos em que não é fácil sorrir; são aqueles em que não conseguimos deixar de pensar nas coisas más da vida, e há tantas na vida de tanta gente. De toda a gente. Porém, é precisamente nesses momentos que devemos fazer um esforço para sorrir, nem que seja para trazermos à memória as coisas boas que já nos aconteceram; por muito poucas que tenham sido, não haverá ninguém que nunca tenha tido nada de bom na sua vida. Recuperar essas boas recordações é como que sonhar acordado, mas não só nos livramos de pesadelos, como acabamos por sorrir, mesmo quando já pensamos que nada nos fará sorrir...

É uma família feliz. Podem crer que sim, todos estes sorrisos não se esgotaram no momento da pose para a fotografia!...

Alexandre, um conhecido apresentador da televisão angolana, foi descoberto por um fã, que não resistiu a tirar um retrato. Um sorri satisfeito pela sua popularidade, outro por ter dado um abraço ao seu ídolo, que foi devidamente registado para a posteridade.

De tanto enfiar o chapéu pela cabeça abaixo, acabou por rasgar-se. Mas nem por isso o sorriso se perdeu.

A anedota era boa, mas nem todos temos o mesmo sentido de humor...

domingo, 6 de dezembro de 2009


Um olhar vago, outro tímido
A VELHA E A BEBÉ


[Texto e Foto: Alexandre Correia]

À beira da estrada, uns quilómetros mais abaixo de Sumbe, no mercado improsivado junto da ponte sobre o rio Quicombo, aquela velha que vendia bananas já amarelecidas despertou-me a atenção: estava ali, sentada no chão de terra, como se não houvesse mais ninguém por perto para além dela própria e da sua neta. O olhar vago, que não escondia tristeza, não explicava essa indiferença. Quando me aproximei e perguntei se as bananas eram boas para comer cruas, baixou os olhos e respondeu com um murmúrio tão baixinho que tive de ajoelhar-me também no chão para a conseguir escutar. Disse que não, que eram para cozinhar. A neta, assustada, já se tinha refugiado no colo da velha, escondendo a cara no ombro da avó. A bebé também não tinha um olhar feliz, mas não era triste como o da velha. Nem indiferente. Era apenas tímido, pois denunciou a sua curiosidade ao espreitar-me pelo canto do olho. Mas tal como a velha, quando os meus olhos se cruzaram com os da bebé, ela não resistiu e escondeu-se de novo, encaixando a cara entre o ombro e o pescoço da avó. Para logo a seguir voltar a espreitar sorrateiramente... Só largou a protecção do colo da velha quando eu me afastei. E então voltou a brincar sozinha no chão, enquanto a velha permanecia imóvel, com aquele olhar distante e triste, que eu nunca mais esqueci.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009


A espera interminável pela chegada de...
A COMITIVA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Mergulhado numa densa nuvem de pó, que dava uma imagem difusa da paisagem e, pior do que isso, escondia os buracos do caminho, guiava há mais de uma hora pela picada quando reparei que desde que saíra do asfalto, na cidade de Gabela, ainda só tinha avançado cerca de 15 quilómetros. Ao ritmo a que a caravana seguia, seria impossível chegarmos a Quilenda à hora prevista. Desta vez, porém, ninguém tinha culpa do atraso. Ou todos tinhamos, simplesmente porque à hora do almoço a fome pesou mais do que horário programado. O almoço, numa churrasqueira à entrada de Gabela, embora tivesse sido encomendado com semanas de antecedência e sucessivamente confirmado nos dias anteriores, parecia ter sido improvisado no momento em que o restaurante foi invadido por mais de quatro dezenas de pessoas — os participantes no 4º Raid T.T. Kwanza Sul — que traziam fome a dobrar e encontraram comida para apenas metade. Ficou logo bem claro que ninguém saíria dali sem ter comido a refeição a que tinha direito, mas nem os relógios páram nem os frangos assam instantaneamente, pelo que a hora e meia desta paragem foi escandalosamente ultrapassada. Quando eu finalmente me pude servir, já uma boa parte dos meus companheiros estavam a postos para seguir viagem, mas a espera pelos mais atrasados — e talvez também a falta de um café — como que lhes provocou uma suave sonolência, tornada ainda mais agradável pelo calor do sol. Isso permitiu-me ter sido um dos últimos a chegar ao restaurante e o primeiro a partir, adiantando-me para tentar ganhar o tempo suficiente para conseguir parar na esplanada do centro da cidade, tomar um café expresso e voltar a partir devidamente colocado na cauda da caravana, sem que alguém desse pela minha falta e fizesse deter a marcha, como seria suposto que aconteceria até me encontrarem. O plano era perfeito, mas não contava com as obras de renovação dos espaços públicos da cidade, cujos trabalhos tinham precisamente acabado de chegar ao jardim da praça central, que foi isolado por tapumes e obrigou ao encerramento temporário da esplanada e do bar. Era irónico não conseguir tomar um café numa terra toda ela rodeada por abundantes cafezais, mas foi isso que aconteceu. E graças a este plano frustrado, acabei por ser um dos primeiros a avançar para a picada que liga Gabela a Quilenda, provavelmente um dos caminhos de terra com mais buracos por quilómetro entre todos os que já percorri em inúmeras destas aventuras. Só a Nissan Hardbody do líder da expedição seguia à frente da minha, pelo que não era por falta de habilidade ao volante nem de experiência em todo-o-terreno que não íamos mais depressa; era porque não dava mesmo para ir mais depressa. A visita a esta vila, perdida a meio caminho entre Gabela e Porto Amboim, não era uma visita qualquer e sabíamos que estava à nossa espera uma multidão, encabeçada por todas as autoridades e as chamadas “forças vivas” da terra. Até tinha vindo gente das aldeias vizinhas só para receber e aplaudir a comitiva, como diziam entre si. O encontro entre uns e outros estava previsto ter lugar na rua principal, onde fica a velha escola primária — numa das esquinas —, o jardim público com a sede do Clube local, mesmo ao lado, o edifício da sede do município, em frente, e a igreja, na ponta oposta, diante do jardim. Quilenda era o único município da provincia do Kwanza Sul que nunca tinha testemunhado a passagem da caravana desta expedição. E por um triz a visita não foi adiada, pois duas semanas antes de termos saído de Luanda a estrada estava intransitável, arrasada pelas chuvas. Reabriu ao trânsito apenas uns dias antes e somente no troço entre Gabela e Quilenda. E como a ideia era que a caravana daí seguisse até Porto Amboim, para depois descer a estrada costeira até Sumbe, onde nessa noite — com o tradicional banquete oferecido pelo Governador do Kwanza Sul — terminava a quarta edição do raide, ainda se pensou deixar isso para outra oportunidade. Porém, adiar a visita seria frustrar as expectativas daqueles que nos esperavam há quatro anos. E compreendi isso perfeitamente quando lá cheguei... Assim que as duas primeiras pickups entraram em Quilenda, passando defronte do posto da policia, à entrada de uma rua que se alarga e é divida ao centro por um canteiro com árvores — seguindo uma disposição típica do período colonial — imediatamente percebi a agitação. Um bando de rapazes desatou a correr rua acima, em direcção ao centro, anunciando a toda a gente que “a comitiva está a chegar”. Bastou segui-los para perceber onde é que tinha de ir: até ao cimo da rua, a uma rotunda delimitada por pedras que não escondiam ter sido caiadas de branco há muito pouco tempo — como aliás as pedras que contornavam todos os canteiros no meio das ruas. Parecia que estava ali a população toda, dividida em três grupos bem distintos. Os membros da administração do munícipio e as individualidades importantes da vila, desde o padre aos professores, passando pelo chefe da policia, aguardavam-nos no cimo das escadas de acesso às instalações da autarquia; em baixo, junto ao muro, estavam os representantes do poder tradicional, os sobas, à vontade uma trintena deles, todos vestidos com uma farda de cor de areia e alinhados como se estivessem numa formatura militar. E até parecia que estavam. Em frente destes dois grupos, bem no meio da rua, estava o povo todo. Muita gente mesmo. Mais mulheres do que homens, imensas com bebés presos às costas, amarrados com capulanas coloridas, e bastantes crianças, que transbordavam de curiosidade e de excitação. E até denunciavam algum medo. Grande parte desta gente não tinha memória de alguma vez uma comitiva assim ter visitado Quilenda. E o orgulho das autoridades não podia ser maior, pois consideravam a nossa visita como uma “comitiva oficial”, ou não se tratasse de um raide promovido sob a égide de duas entidades oficiais — o Governo da Província do Kwanza Sul e a Câmara Municipal de Almada. Foi nessa altura que senti como era realmente importante para aquele gente receber-nos na sua terra perdida. O que para nós era um frete, uma deslocação que ninguém tinha começado com ânimo, mas sim pela obrigação de cumprir com o programa — pois o cansaço de longos dias a percorrer picadas esburacadas e poeirentas já era forte —, era encarado de modo completamente diferente por quem nos aguardava; era motivo de enorme orgulho, para além de uma grande excitação. Quando chegámos, vi expressões de contentamento nos olhares daquela gente toda. E logo esqueci o sacrifício que tinha sido percorrer aquela picada. Um sacrifício que, diga-se de passagem, ainda iria repetir quando terminassemos a visita. Mas aqueles sorrisos, o sentir que era assim tão importante termos ido lá, superou isso tudo. O frete deu lugar ao prazer de termos conseguido corresponder às expectativas. E uma das coisas boas da vida é conseguirmos isso: corresponder às expectativas. Antes de mais, às nossas. Mas também às de quem, como naquele dia sucedeu com o povo e as autoridades de Quilenda, se mobiliza por nós. Quantas vezes não nos acontece passarmos por isso com uma absoluta indiferença? Provavelmente, todos nós já provocámos decepções dessas. Neste caso, felizmente que fomos ao encontro dessas expectativas, pois a avaliar pela festa que estava preparada em nossa honra, se não aparecessemos teríamos ferido o orgulho daquela gente. Assim que estacionei, depois de descrever a rotunda, começaram logo a ouvir-se os batuques, sinal para o povo arrancar a festa. Esperavam dúzia e meia de pickups, com mais de quarenta pessoas, e apareceram só duas, com dois pares de ocupantes. Como não vinham mais carros atrás, a festa interrompeu-se. A nossa chegada era um falso alarme. A comitiva ainda vinha a caminho. Vinha sim e demorou uma boa meia hora, em que até nós os quatro ficámos impacientes — interrogando-nos se tinha acontecido alguma coisa ao grosso da coluna — quanto mais aquele povo todo, que já ali estava há umas horas... O pó, aquele maldito pó, era o culpado de tamanho atraso. O pó e os buracos infernais. As pickups chegaram em grupos de duas ou três, com alguns minutos de intervalo entre si, que eram o tempo necessário para deixar assentar a poeira. A tarde estava mesmo no final quando a festa recomeçou, repetindo um ritual que já era familiar aos veteranos desta expedição: intermináveis apresentações de cumprimentos, alguns discursos de boas vindas e de agradecimento pela vinda de uma comitiva, uma festa popular com música e danças, e outra festa, mais resguardada de olhares públicos, só para os membros da comitiva e para os anfitriões. Esta última, como normalmente, metia comes e bebes. Afinal, as boas celebrações têm lugar à mesa. Em 2005, no decurso do primeiro destes raides por Angola, quando chegámos à vila de Seles descobrimos que tinham organizado não um, mas sim dois jantares em nossa honra. E como não podíamos fazer a desfeita aos que nos convidavam, tivémos de ter estômago para comparecer aos dois repastos. Foi uma barrigada de galinha de cabidela e caldeirada de cabrito — logo por azar as ementas foram quase idênticas... — mas ninguém ficou ofendido, nem deu pela duplicidade de jantares. E para nós, foi como se tivessemos feito um intervalo entre o primeiro e o segundo pratos. Agora, porém, era diferente. Tinham preparado um lanche na residência da administradora de Quilenda e apesar do nosso atraso nos recomendar que partissemos quanto antes, repetindo o percurso até Gabela, não houve coragem para recusar o convite, tal era a satisfação por finalmente termos ido a esta vila. E como as palavras são como as cerejas — atrás de uma vem sempre outra... — o que tinhamos discretamente combinado que seria uma visita de médico, só o tempo necessário para corresponder ao formalismo da visita, acabou por tornar-se num encontro descontraído e demorado. Só nos apercebemos que as horas continuavam a passar quando começou a escurecer. Ao desperdirmo-nos, explicando a urgência de regressarmos à cidade de Sumbe, para o banquete com o Governador, o chefe da policia de Quilenda quis ser prestativo e imediatamente requisitou uma escolta para nos acompanhar até Gabela. Esqueceu-se foi de dar indicações ao motorista do jipe da policia para ir tão depressa quanto pudesse. E como não o fez, o condutor decidiu converter a sua missão num vagoroso desfile através da picada, rolando devagar, parando para passar cuidadosamente nos buracos mais fundos, abrandando ainda mais à passagem pelas localidades. Mais deseperante não podia ter sido. Ninguém tinha coragem de ultrapassar o carro da policia, que só desmobilizou nos limites do concelho. O resultado foi termos adiado o jantar para a hora da ceia, sentando-nos à mesa já muito perto da meia-noite. O raide, todavia, estava terminado e na manhã seguinte não precisávamos sequer de madrugar, pois só restava cumprir a ligação de regresso a Luanda. Portanto, ninguém se preocupou que o jantar durasse até às três da madrugada e houve mesmo quem tivesse resistido ao sono e continuasse pela noite dentro a dançar, acabando a festa ao amanhecer com um mergulho nas águas do Atlântico, mesmo em frente ao hotel.

Mergulhadas numa nuvem de poeira, as Nissan Hardbody do 4º Raid T.T.Kwanza Sul entraram em Quilenda bem mais tarde do que o previsto. O caminho desde Gabela até esta vila estava num estado tal que a média de andamento rondou os 15 km/h.

Quem chega de visita deve cumprimentar os visitados. E a regra do protocolo diz que os anfitriões devem receber os seus convidados à porta. Nenhuma destas regras foi desvirtuada na nossa visita a Quilenda.

E a tradição também diz que uma comitiva deve ser recebida com um discurso. Em Quilenda, a festa só parou para ouvir as "palavras de circunstância" ditas pelas autoridades locais em honra dos visitantes, assim como pela réplica por parte de uma das "autoridades" da caravana, que agradeceu publicamente a atenção que nos foi dispensada.

Assim que terminaram os discursos, fizeram-se ouvir de novo os batuques e o povo voltou a formar uma roda gigante, dançando alegremente diante da sede do município.

Até os bebés participaram na festa. Amarrados às costas das mães, fartaram-se de dançar!

A festa popular, na rua principal de Quilenda, terminou ao cair do dia. Mas a comitiva tinha ainda uma pequena celebração privada, na residência da administradora local...