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sexta-feira, 4 de setembro de 2009


A Minha Peregrinação a Muxima
UM APERTO NO CORAÇÃO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Se todas as peregrinações aos santuários religiosos têm de ter uma dose de sofrimento, a minha visita a Muxima foi perfeita, até porque menos dolorosa que as outras que me ocorrem na memória. Antes de tomar o caminho para aquele que é considerado o maior e mais importante santuário dedicado ao culto mariano da África Austral, parei à saída da vila de Catete, na bifurcação com a estrada para Cabala. O dia estava mesmo a terminar e parei para ver o sol desaparecer por entre os enormes embondeiros que se estendem a perder de vista, gravando de novo mais uma daquelas imagens lindas que povoam a memória de quem alguma vez andou por estas paragens de Angola. Um belo pôr do sol, como são quase todos, quando o sol parece uma grande bola de fogo alaranjada que tinge o céu de vermelho, ao reflectir os últimos raios de sol nas nuvens. Mas neste caso, não era um belo e banal pôr do sol, porque a este cenário que podemos apreciar em qualquer lugar, juntavam-se os embondeiros, que não há senão junto à costa ocidental africana, entre esses dois desertos que tantas vezes já atravessei, o do Sahara e o de Namibe. Olhei para esses embondeiros até a escuridão lhes apagar os contornos e tornarem-se apenas uma mancha negra, meio sinistra, com os ramos a recortar o céu como as árvores do território da bruxa má das histórias de crianças — que servem para lhes exemplificar a figura do mal, como a que começa a assustar a minha filha mais pequena. A mim, não é isso que me assusta, que já conheci tantas bruxas más que já não há maçã que me envenene. Arrepia-me sim é olhar esses embondeiros na penumbra e ver os seus frutos pendurados nos ramos, como se fosse ratazanas presas pela cauda.
Estava na hora de partir. Mas não por ter passado da visão romântica dos momentos ao pôr do sol para esta tão sinistra, que chegou com o crepúsculo. Para além de já serem horas, o que me fez voltar à estrada foi ter começado a ser devorado, cruelmente devorado, por um enxame de mosquitos, provavelmente insectos infiéis, que não se fizeram rogados quando encontraram um crente como eu. Seria o sofrimento a pagar por mais esta peregrinação? Bem, nunca fui ao ponto de atravessar a Cova da Iria de joelhos, nem de fustigar-me nas costas ou pregar-me numa cruz como fazem nas Filipinas, mas recordo velhas peregrinações que tiveram o seu quê de sofrimento. Sim, que a visita de estudo ao Santuário de Fátima, em 1974, quando ainda estava na quarta classe, marcou-me profundamente, sobretudo pelas palmadas que apanhei quando cheguei a casa, por ter-me portado mal. Para além disso, no ano passado o acaso levou-me a Lourdes, França, onde também o acaso me impôs um desagradável jejum. E por falar em Lurdes, foi a fé que me fez conhecer uma, já lá vão alguns anos, quando num cruzeiro pelo Mediterrâneo, após dois dias de escala em Civita Vechia, o porto mais próximo de Roma, onde todos os caminhos me levaram ao Vaticano, nos cruzámos pela primeira vez ao desembarcar para ir visitar um antro de pecado e vício, que dá pelo nome de Principado do Mónaco; quando nos conhecemos tive aquele sentimento de ter visto uma aparição e a verdade é que esse foi um encontro de fé — tanto mais que ela por momentos acreditou que eu era mesmo o capelão do paquete e estava quase a confessar-se quando um tripulante que andava apaixonadíssimo se empenhou em desfazer aquela piedosa mentira; bem pelo menos o rapaz ficou feliz, embora não lhe tenham servido de nada as orações… Eu, pela minha parte, acabei, uns dois anos mais tarde, por acompanhá-la à igreja, ao seu casamento, o dela, não o meu, que mal sabia me estava guardado na mesa dos solteiros, com reserva para os seis anos seguintes. Ali parado, como que embalado pelo suave pôr do sol, adormeci nestes pensamentos — é tão estranho como por vezes nos vêm à cabeça memórias tão díspares e como as ligamos entre si… — e só os mosquitos me acordaram para a realidade. Arranquei ainda a sonhar, ouvindo dentro de mim aquela velha canção que o Duo Ouro Negro popularizou, no tempo em que quando me portava mal só apanhava palmadas e que, mais recentemente, Waldemar Bastos me encantou, numa interpretação ao vivo, em Amesterdão. É a “Muxima”, um verdadeiro hino, feito a partir de um poema de Carlos Aniceto Vieira Dias, que este poeta angolano escreveu em quimbundo e que assim sempre foi cantado, ainda que o Duo Ouro Negro traduzisse parte do refrão, para mais fácil compreensão do seu significado. Nunca o fixei exactamente, até porque, confesso, tardei em tornar-me apreciador, mas recordo-me que falava da própria lenda da Muxima, enquanto lugar sagrado, onde o mal não entra. Não entra?
Arranquei a entoar para mim próprio “Muxima ue ue, muxima ue ue, muxima” e os quilómetros passaram a correr. Sem dar por isso, já estava a atravessar a Cabala, onde se atravessa o rio Cuanza por uma longa ponte flutuante, que dá acesso ao estradão de terra que segue até Muxima. Nome tão estranho para uma povoação. Segui caminho a pensar nisso, a imaginar qual dos significados tinha estado na origem desta nada honrosa designação. Para os hebraicos — qabbalah — Cabala remete para a mística, para o esoterísmo, para uma tradição dessa natureza que está ocultada num sentido secreto da Bíblia. E se isso é intrigante, o certo é que para os franceses esta palavra — cabale — quer dizer simplesmente intriga. Nem mais! E para os angolanos? O significado de cabala em quimbundo não é menos simpático: sovina. Antes Muxima, que em quimbundo quer dizer coração.
A vila de Muxima nasceu nos primórdios da colonização portuguesa do interior de Angola. Foi aí que se implantou um presídio em 1599, o segundo entre os vários estabelecidos junto ao rio Cuanza, depois do de Massangano. E como era tradição, ao mesmo tempo que no cimo de um morro foi construída uma fortaleza, por baixo, num amplo terreiro junto à margem esquerda do Cuanza, ergueu-se uma igreja, devotada a Nossa Senhora da Conceição. Curiosamente, talvez a proximidade entre a Cabala e Muxima também possa ter um significado oculto, pois há mesmo quem defenda que a origem deste santuário é uma cabala. Essa foi a minha conclusão quando, entre centenas e centenas de textos que abundam sobre o tema nas páginas da internet, grande parte escandalosamente copiadas umas das outras, até porque coincidem sempre nos mesmos erros, houve uma que me captou a atenção, precisamente por defender esta tese de conspiração. Não resisto a transcrever um trecho, que sustenta que “os colonizadores terão edificado o templo católico sobre o local sagrado dos povos locais, como forma de mostrar o seu poder e submetê-los psicologicamente”, salientando o mesmo autor, anónimo, que “a dominação dos deuses de um povo tem sido uma técnica de submissão dos povos usada por várias potências imperialistas ao longo da história da humanidade”. Ao ponderar sobre uma visão assim tão sombria, mal cheguei a Muxima decidi pôr de lado o religioso e atirar-me ao profano. Pior, fui mesmo direito ao pecado, entregando-me aos prazeres da carne. Uma grelhada mista, acompanhada por Cucas fresquinhas e muita conversa, que rapidamente fizeram esquecer que cabeça poderá estar por trás de semelhantes pensamentos? Bem, é a mesma cabeça que também diz, a propósito desta região, que “é uma zona de forte tradição de magia e bruxaria, pelo que o "surgimento milagroso da capela" terá sido uma demonstração de poder de Maria sobre as outras poderosas da área”. Para que estas revelações não me atormentassem o sono, decidi afogá-las em mais Cucas fresquinhas, até porque este texto, digamos que esotérico, concluí com uma afirmação que me deixou gelado: “Não raramente pessoas há que vão à Muxima para entregar-lhe a vida de alguém.” Cruzes, canhoto!
Como visitei a Muxima em Junho, antecipei-me à grande peregrinação anual, que se tornou tradição em 1833 e que este ano ficou marcada para os dias 4 a 6 de Setembro. Assim, ao invés de encontrar mais de 150 mil pessoas na vila, entre fieis e infieis, crentes e descrentes, vendedores e compradores, policias e ladrões, que tornam o lugar tão pequeno que fazem de Muxima um autêntico coração apertado, tinha o santuário quase só para mim. Mais importante do que isso, não precisei de acampar, ou simplesmente dormir ao relento, ali no adro da igreja, porque o novo hotel estava cheio de quartos disponíveis. Cada quarto era um contentor, que veio da China expressamente para permitir abrir em Muxima um hotel instantâneo. Um contentor com todos os requintes, ainda que segundo a tradição chinesa, as coisas fossem todas “mais ou menos”. Por exemplo, o ar condicionado parecia o motor de um congelador e antes morrer de calor que de frio, mas desligá-lo foi um problema. Depois de carregar insistentemente nos botões do comando, descobri que não tinha pilhas. Nem as havia na recepção. Nem nos outros contentores. O pior é que o aparelho também não tinha um interruptor que permitisse desligá-lo manualmente. Mas mau mesmo foi quando descobri que não estava ligado a uma tomada eléctrica, mas sim directamente à instalação do próprio contentor. Era impossível desligá-lo, mas a recepção tinha edredons, bem quentinhos. Antes de deitar-me, até para refrescar os pensamentos e afastar definitivamente aquelas teorias da cabala, pensei tomar um duche morninho. Bem, pensar não custa, mas assim que toquei na torneira do lavatório e fiquei com ela na mão, desconfiei do duche. A torneira da água quente era apenas decorativa, mas a da água fria era autêntica. E a água mesmo fria. Para me castigar, tomei dois duches: um ao deitar, outro ao levantar. Até porque queria apresentar-me limpinho à “Mamã Muxima”, como carinhosamente muitos angolanos chamam a Nossa Senhora da Conceição.
Depois do “mata-bicho”, outra expressão tão angolana — para designar um bom pequeno-almoço, naquele sentido de farto… — avancei finalmente até à igreja. Estava cheia de mulheres. Quase não havia homens. Nesta manhã, nem o padre Mário Torres, um mexicano que é o Reitor do santuário, estava por ali. Nem parecia estar a fazer falta, tal a devoção com que as mulheres enchiam o interior do templo, entregando-se com um fervor intenso, até um pouco arrepiante, a orações e mais orações, muitas de braços abertos, que não escondiam ser sinal de tantos pedidos. Voltei a lembrar-me das teorias intrigantes daquele texto que tinha lido e perguntei a mim próprio se não estaria mesmo certo este desconhecido que escreveu que as pessoas vão à Muxima “na esperança de que esta resolva os seus problemas de saúde que a ciência não tenha conseguido debelar, outros vão pedir que ela lhes traga dinheiro e os livre da pobreza em que vivem”. É provável que peçam tudo isto e muito mais. Mas não é isso que as leva a chegar a este lugar ermo, que é sede do concelho da Quiçama, também ele um santuário, mas da vida selvagem, embora a precisar de uns milagres para ser reabilitado. O que leva ali tanta gente é a fé, essa coisa tão estranha, que nos alimenta a alma e nos dá força. Ali sentado no muro do adro da igreja, a olhar o rio a correr devagarinho, pensei nisso, na fé. E senti um aperto no coração. A mamã Muxima também me ouviu. Agora já podia partir, para atravessar as terras da Quiçama...



Subir até à fortaleza é um ritual obrigatório a todos os que visitam Muxima. Para muitos, vencer essa ladeira íngreme é um sacrifício, mas nada na vida se tem sem sacrifício, pensarão. Outros, sobem apenas para contemplar a paisagem. O que não quer dizer que não passem pelo mesmo sacrifício.


O interior da igreja já estava cheio, só de mulheres, entregues a um estranho frenesim de orações, tal a intensidade dos seus gestos, enquanto rezavam à "Mamã Muxima". E de repente, quando o tom aumentou, fecharam a porta. Para as suas preces não fugirem...

Pormenor da fachada da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Muxima. O culto católico chegou ali em 1599, quando foi criado o presídio da Muxima, mas a igreja de pedra e cal esperou quase meio século para ser construída. Quem diria que hoje é considerado o mais importante santuário de culto mariano na África Austral?

Encostado a um mamoeiro, junto ao muro que separa o amplo adro do santuário da Muxima das águas do rio Cuanza. Estava ali a pedir um milagre. A pedir que a "Mamã Muxima" salve o santuário que a envolve: o Parque Nacional da Quiçama.


Dinheiro, saúde, trabalho, amor, justiça, talvez até vingança? Tudo é pedido à "Mamã Muxima". Mas o que faz com que alguém se desloque a este lugar perdido entre duas curvas do rio Cuanza, a cerca de centena e meia de quilómetros de Luanda, tem um só nome. Chama-se fé!