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quarta-feira, 8 de julho de 2009


Depois de dois dias a banana-pão crua e laranjas...

OS SACRIFÍCIOS QUE VALEM
UM BITOQUE ÀS TRÊS DA MANHÃ

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Passava das três horas da madrugada quando cheguei ao Uíge e fui o segundo a estacionar no parque do Hotel Salala. Ao ver as horas, rapidamente fiz as contas e concluí que tinha arrancado de N'Zeto exactamente 44 horas antes, depois de ter tomado o pequeno almoço na modesta esplanada situada na ponta sul da vila, mesmo no entroncamento para o aeródromo. Ao longo destas 44 horas, quantas vezes me arrependi de não ter preparado um farnel para o caminho? Acreditem que foram muitas. Sempre que me arrepiava a comer uma laranja azeda, de tão verde ainda, ou a mastigar uma banana-pão crua, pensava numa sanduíche de fiambre como aquela que trinquei deliciosamente antes de sair de N'Zeto. Mas agora que já tinha chegado ao Uíge, estava na hora de receber a recompensa. Pedro Cristina, o responsável pela caravana, prometera que fosse a que hora fosse que chegassemos ao Uíge, estaria à nossa espera um verdadeiro jantar. E não mentiu! Na recepção, a jovem que me entregou a chave do quarto anunciou, como se fosse a coisa mais normal, que "a sala de jantar abre dentro de momentos". Ainda bem que não estava aberta, porque não sei se teria resistido a ir directo para lá ao invés, como fiz, de subir até ao quarto e tomar um duche, só descendo já a cheirar a lavado (e a Terre de Hermès, que o olfacto também estava a pedir alimento...) e com a sensação de estar mais leve, ainda que não propriamente por ter emagrecido. Quatro horas antes, na paragem que fizémos na vila de Toto, um pedaço de frango acabado de sair do churrasco estimulara o apetite, mas não chegara para retirar a fome acumulada em dois dias. Quando o empregado do restaurante do hotel me disse que "para além do que está ainda no bufete, estamos a preparar neste momento bitoques", nem queria acreditar. Passava das três da manhã e esperar mais uns minutos para poder comer um belo bife com batatas fritas acabados de fritar era um sacrifício que valia a pena. Nem toquei nas travessas do bufete e esperei pacientemente, mas aqueles minutos pareceram-me uma eternidade...

À saída de Quimaria acabaram-se as tréguas. Os sulcos profundos que rasgavam o caminho logo após a povoação impediam a passagem das pickups. A solução foi passar pela berma, o mais encostados que podíamos de um bananal, guiados pelas indicações de uma brigada de voluntários locais, que acompanhou esta caravana durante alguns quilómetros, caminhando à frente das viaturas ou, sempre que o piso permitia rolar mais rapidamente, sentados sobre a caixa de carga.


Pior do que ficar uma pickup atolada em lama era ficarem duas, ou até três plantadas no mesmo sítio. Aconteceu algumas vezes, as suficientes para que todos os participantes nesta expedição tivessem terminado a viagem graduados num nível elevado em termos de práticas de resgate de veículos atascados. E também um pouco mais experientes na condução fora da estrada, embora neste aspecto o nível de preparação dos condutores fosse muito diversificado; a verdade é que nem sempre a culpa foi da lama...


Abrir caminho no mato, a golpes de catana e de enxada, foi um ritual que se tornou tão frequente quanto indispensável no longo itinerário de N'Zeto para o Uíge. Sem a preciosa ajuda das populações que fomos encontrando pelo caminho não teríamos conseguido superar inúmeros obstáculos. No próximo ano, pá, enxada e cintas de reboque vão ser equipamento obrigatório das Nissan Hardbody preparadas para o Raid T.T. Kwanza Sul. Adivinhe lá porquê...

sábado, 4 de julho de 2009


Um amanhecer imprevisto no mato
ACORDAR NUM CEMITÉRIO!

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Felizmente, raras vezes entrei num cemitério e a maior parte delas foi por motivos puramente turísticos, como aconteceu em Manila, nas Filipinas, onde há uns anos, de uma assentada visitei dois: o dos chineses, que parece um enorme condomínio fechado de moradias, pois os jazigos da ala das famílias mais ricas parecem autênticas moradias, cada qual mais extravagante que a outra, e o dos americanos, onde milhares de cruzes brancas se alinham na perfeição num imenso campo relvado que se estende por colinas que ondulam levemente até um enorme paredão onde estão inscritos, em letras pequenas, os nomes de todos os que morreram a combater pelos Aliados nas batalhas que flagelaram a ilha de Luzón durante a Segunda Guerra Mundial - e foram mesmo muitos, ou esta então colónia norte-americana não tivesse sido invadida de surpresa horas após o fatídico ataque a Pearl Harbour, tendo sido também o cenário onde se travaram os derradeiros combates com os japoneses, momentos antes da rendição ter sido assinada. Ainda há poucos meses, em mais uma visita a Buenos Aires, voltei a passear tranquilamente no cemitério da Recoleta, um jardim de pedra que está recheado de construções do estilo Art Deco que são dignas de ser admiradas. Mas, confesso, nunca me passou pela cabeça adormecer num cemitério, quanto mais acordar. É, aliás, o último lugar onde esperamos que um vivo possa acordar. Aconteceu-me no decurso desta longa expedição através de Angola, quando a noite chegou muito mais cedo que o final do percurso reservada à quinta etapa do Raid T.T. Kwanza Sul. Naquele momento, a minha Nissan Hardbody era o penúltimo veículo de uma coluna e sabia, pelas comunicações rádio trocadas entre todos, que a caravana estava fragmentada em três grupos. Ainda antes de anoitecer, tínhamos passado por uma pequena aldeia e estimávamos alcançar a todo o momento Quimaria, a povoação mais importante desta zona, no extremo ocidental da província do Uíge. Não chegámos a entrar nesse dia em Quimaria, pois quando pela enésima vez os carros da frente ficaram atolados em lama, o líder da caravana baixou os braços e deu instruções para desligarmos os motores e esperarmos onde nos encontrassemos até que o dia voltasse a nascer, para só retomarmos a marcha com luz diurna. A prometida cama confortável com lençóis lavados e um duche retemperador antes do merecido jantar no Uíge já eram ilusões perdidas. Perdidas e amaldiçoadas pelo jejum que se prolongava e pelas perspectivas de uma noite mal dormida, apertado nos bancos da pickup e a sentir-me ser devorado por enxames de mosquitos que pareciam ainda mais esfomeados que eu. Com o escurecer, o mato à nossa volta encheu-se de ruído, como se fosse um concerto mágico dado pela bicharada que nos rodeava. Ouvir esses sons fez esquecer a fome e embalou-me no sono, deixando-me dormir até que, ao amanhecer, voltei a escutar a mesma sinfonia, acordando no meio deste semi-silencio, minutos antes do rádio se fazer ouvir, quando um dos companheiros avisou, maliciosamente, toda a gente que já eram cinco da manhã. Ao levantar a cabeça, assim que espreitei pela janela tive uma visão que, por instantes, me fez pensar que ainda estava a dormir e o que via eram as imagens de um sonho a passar-me pela mente. Mas não, era tudo verdade: aquela clareira onde tinha estacionado umas horas antes, quando o chefe anunciou que a jornada estava terminada, era mesmo um cemitério! Acordei onde normalmente todos desfrutam do sono eterno e devo dizer que me senti muito bem. Se por ali havia almas penadas, não quiseram nada comigo. Até os mosquitos acabaram por abandonar-me, concedendo-me tréguas. Claro que não foi um despertar normal, mas no meio daquele calor e humidade, não dispensei o pequeno luxo de tomar um belo banho, com direito a lavar o cabelo com champô, gastando menos uma garrafa de litro e meio de água. Saí dali mais limpo que ninguém. Pelo menos o corpo...
Dois quilómetros e duas horas depois, entrámos triunfantemente em Quimaria, onde estacionámos em frente da casa do administrador do município, no meio de uma multidão que aplaudiu ruidosamente os forasteiros. O caminho para o Uíge ainda era longo, muito longo mesmo para que acreditassemos que ainda chegaríamos lá antes de terminar este segundo dia de marcha. Desta vez, ninguém arriscou mais apostas, até porque se anunciavam muitos atoleiros pela frente.

Há muitos, muitos anos que não chegava a Quimaria uma caravana de veículos tão numerosa, nem com tantos estrangeiros. Não foi o regresso dos portugueses a estas paragens perdidas nos sertões angolanos, em terras do Uíge, mas apenas uma passagem que, provavelmente, será recordada por muito tempo.



Com as crianças de Quimaria. Eram tantas que só algumas couberam na foto.

quinta-feira, 2 de julho de 2009


Enfrentar os lamaçais da pista N'Zeto/Uíge
TRABALHOS FORÇADOS
NOS LAMAÇAIS DO NORTE DE ANGOLA


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

A quinta etapa do Raid T.T. Kwanza Sul ficará para sempre na memória dos todos os que integraram esta caravana. Previa-se que fosse uma jornada dura, mesmo a mais difícil das 13 que compreenderam esta longa expedição através do norte de Angola. Mas nunca ninguém imaginou que fossem necessários dois dias inteiros e quase outras tantas noites para se alcançar o destino. Tudo porque choveu mais e durante muito mais tempo do que era suposto nesta altura do ano (final de Maio e início de Junho), inundando os caminhos, que nas zonas de vegetação mais densa e fechada tardaram em secar, tornando-se em verdadeiros atoleiros de lama, onde as 18 viaturas desta expedição ficaram presas repetidamente; tantas vezes que se perdeu a conta ao número de atascansos, que mobilizaram esforços contínuos, fazendo com que nos tivessemos sentido em trabalhos forçados. Literalmente!


Volvidos cerca de vinte quilómetros, a excelente pista de terra, larga e de bom piso, tornou-se num estreito corredor entre vegetação cerrada. Nestas condições, os primeiros 90 quilómetros foram cumpridos em meia-dúzia de horas, que desde logo mostraram ser impossível completar todo o itinerário — estimado em menos de 350 km — nas 12 horas previstas. Nesta altura, o pior ainda estava para vir...


Uma a uma, as pickups avançaram cuidadosamente pelos trilhos lamacentos. Muitas acabaram a ser rebocadas, num ritual que se repetiu vezes sem conta durante dois dias plenos de aventura. Foram jornadas desgastantes, mas que ninguém alguma vez esquecerá. Nestes lamaçais perdidos no norte de Angola, senti-me a reviver episódios semelhantes passados tantos anos antes em diversas das expedições do célebre Camel Trophy em que tomei parte: na amazónia, em 1992, foi assim durante dias seguidos, tal como um ano mais tarde nas selvas do sultanado de Sabah, no norte da ilha do Bornéu.


Em cima e abaixo, algumas imagens do troço mais difícil de todo o percurso. Os atascansos foram tantos que numa hora apenas se avançaram 300 metros. A tarde ía a meio e nessa altura faziam-se apostas entre a caravana quanto à hora de chegada ao Uíge. Os mais optimistas arriscavam a meia-noite, enquanto que muitos apostaram que ninguém chegaria antes das três horas da madrugada. Se alguém tivesse previsto essa hora um dia mais tarde, teria ganho, mas ninguém acreditou que o percurso se alongasse por dois dias inteiros e quase duas noites.




Durante longos quilómetros, a pista alternou passagens encharcadas como esta com troços lamacentos e mesmo terreno seco, nos pontos em que a vegetação abria e o sol facilmente secava a água das chuvas tardias que surpreenderam os participantes no 4º Raid T.T. Kanza Sul.


Nos trilhos enlameados e rasgados por sulcos profundos abertos pelo rodado dos camiões, as pickups só conseguiam passar pisando as bermas, mas a mínima escorregadela, tantas vezes tão inevitável quanto incontrolável, resultava num despiste. Felizmente, em tantos incidentes como o que a imagem documenta, só por uma vez não se resolveu ao fim de uns minutos de esforço colectivo. Foi quando o veículo de apoio mecânico, que seguia no fim da caravana, derrapou até tombar sobre um dos lados, imobilizando-se uns metros mais abaixo do trilho, com as rodas no ar. Para o recuperar foram precisos três dias de intenso trabalho e a caravana não esperou. O mais incrível é que a Nissan Patrol PickUp da TDA — o distribuidor da Nissan em Angola — não sofreu quaisquer danos, pois quando se despistou foi amparada pelo mato e acabou assente numa "cama" de vegetação espessa e lama.


O Toyota Land Cruiser da TV Zimbo — dotado de uma antena para transmitir imagens via satélite — foi uma das maiores vítimas das passagens enlameadas deste percurso. A preparação do veículo desta estação de televisão angolana observou inúmeros pormenores, mas ignorou um dos mais importantes quando se trata de rodar em trilhos de terra e estrada mal conservadas ou mesmo sem pavimento: os pneus! "Calçado" com os pneus próprios para estrada com que foi adquirido em Portugal, aventurou-se nos sertões angolanos com muito sacrifício...


Nem todos os atascansos foram penosos de resolver. Houve inúmeras situações em que bastou um empurrão para que as pickups deslizassem sobre a lama até que as rodas voltarem a pisar terreno firme e ganharem tracção para continuar a progressão.


A Nissan Hardbody da revista Todo Terreno tombada para fora da pista. Aconteceu por três vezes no difícil percurso que levou a caravana a demorar 44 horas a percorrer menos de 350 quilómetros desde N'Zeto, na costa do norte de Angola, ao Uíge, capital da província com o mesmo nome, no interior.

sábado, 27 de junho de 2009


Camionistas sofrem nas picadas de Angola
AVARIAS & COMPANHIA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Estas são imagens do quotidiano, quando andamos pelos sertões de Angola e frequentamos os caminhos mais duros e difíceis de percorrer. Quando mais aventuroso for o destino, piores são os camiões que por lá circulam, pois poucos condutores estão dispostos a correr o risco de sofrer uma avaria - basta um simples furo para estragar a viagem - algures do fim do mundo, que é como quem diz nessas paragens isoladas das demolidoras picadas angolanas. No longo caminho de N'Zeto ao Uíge, enquanto rolámos pelos trilhos estreitos e esburacados que fazem ligação com povoações como Bessa Monteiro, Quimaria e Toto, nunca nos cruzámos, nem sequer avistámos, um camião que tivesse menos de uns 30 anos. Talvez por isso, encontrámos imobilizados com problemas grande parte dos camiões que registámos neste itinerário, enquanto cumpriamos a quinta etapa do Raid T.T. Kwanza Sul 2009. A situação pior foi a de um Berliet verdinho alface que ficou enterrado até ao chassis num lamaçal à saída de uma passagem a vau: quando passámos, já lá estavam há dois dias a tentar desenterrar o camião e só então perceberam que enquanto não retirassem toda a carga - largas toneladas de laranjas, provenientes de uma das grandes fazendas desta reigão - para reduzir o peso, todos os esforços seriam em vão. No lado inverso, podemos referir o pequeno camião Mercedes-Benz vermelho que vimos encostado devido ao furo numa roda traseira, que foi tão prontamente substituída que as passageiras que nem sequer tiveram de descer da caixa de carga, permanecendo lá em cima, agarradas aos taipais, a espreitar o trabalho dos companheiros de viagem, que trocaram a roda.

O diferencial traseiro cedeu no meio do caminho para o mercado. As bananas arriscam-se a ficar maduras antes do camião ser reparado.


Outro Steyr com problemas de transmissão. Ficou imobilizado a bloquear a pista uns quilómetros mais atrás e tal como o anterior, também vinha carregado de bananas. Tão carregado que foram precisos 20 homens para o empurrar até desimpedir o caminho.



Apesar da fama de indestrutíveis, os famosos Berliet nem por isso estão imunes a avarias. Este acusou um aquecimento acima do normal e antes que acontecesse o pior, o condutor parou no meio do trilho, abriu a tampa do motor e esperou pacientemente que a temperatura baixasse.




Um simples pneu furado por significar alguns dias de atraso na viagem. Não foi o caso deste incidente, pois este pequeno camião Mercedes-Benz dispunha de roda sobressalente e em condições de ser usada. A troca foi tão rápida que as senhoras nem se apearam da caixa de carga...

quinta-feira, 25 de junho de 2009


Revista Todo Terreno
GRANDE REPORTAGEM DA VIAGEM
A CABINDA E NORTE DE ANGOLA


A edição nº 145 da Revista Todo Terreno, que foi para as bancas no dia 25 de Junho, consagra a capa ao Raid T.T. Kwanza Sul 2009, ilustrada com uma imagem que bem podia ter sido registada num dos famosos "Camel Trophy". Na verdade, esta foto foi tirada no caminho que levou a caravana desde N'Zeto ao Uige - as antigas vila e cidade de Ambrizete e Carmona - e que demorou quase quatro vezes mais tempo a percorrer do que estava previsto: foram 44 horas, contra as 12 estimadas, que dizem bem da dureza e dificuldades do percurso. Na imagem desta capa, em primeiro plano vê-se o Nissan Patrol da tripla Leal Machado, Miguel Anacoreta Correia e João Loureiro; mais atrás segue o Toyota Land Cruiser da TV Zimbo, canal privado angolano que acompanhou toda a expedição com um veículo transformado em estúdio móvel, a partir do qual todas as noites difundia o relato e imagens da jornada, entrando em directo na emissão da estação, por via de satélite.
Voltando à Revista Todo Terreno, por trás desta capa descobre-se uma grande reportagem que se estende por 22 páginas, e mais de uma centena de fotografias.

quarta-feira, 24 de junho de 2009


A estrada para M'Banza Congo
RECTAS INTERMINÁVEIS

E MONTES ENCANTADOS

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]
Há sítios onde chegar é uma recompensa. Outros, o prémio é sobretudo o caminho até lá chegarmos. A estrada para M'Banza Congo, subindo em direcção ao norte de Angola desde o entroncamento da Casa da Telha, é mais o segundo do que o primeiro caso. À excepção de alguns troços onde os vestígios da antiga estrada de alcatrão ainda se fazem sentir dolorosamente nas suspensões dos veículos e nos ossos de quem lá vai dentro, o percurso é rolante, por uma estrada de terra com rectas intermináveis através dos planaltos, rodeada de paisagens que nos fazem esquecer o tempo que a viagem demora. Por vezes, as imagens que admiramos confundem-nos, despertando a imaginação para figuras que só são visíveis "naquele momento", criando ilusões que se desfazem uns metros mais adiante. Esta foi uma das estradas que o percurso do 4º Raid T.T. Kwanza Sul percorreu por duas vezes, ora num sentido, ora no outro, mas sempre com a mesma luz suave da tarde.

A caminho de M'Banza Congo. Os montes que parecem uma mulher deitada

Quinze minutos de fama. Daniel Vika (o quarto a contar da direita), fotógrafo com alma de poeta, regressou a casa liderando a caravana e vestiu a aldeia toda com t-shirts do Raid T.T. Kwanza Sul


M'Banza Congo. A entrada na capital da província do Zaire

M'Banza Congo. Sempre em frente para a cidade


M'Banza Congo. As Nissan Hardbody invadiram a rua principal

O cemitério dos Reis do Congo e as ruínas da Sé Catedral. M'Banza Congo transpira história e inspira amores tórridos. Recomendo a Pensão Mata-Sol, onde todos são bem vindos e, sobretudo, bem protegidos por um "corpulento" segurança

Recordações fortes do antigo Reino do Congo
A CATEDRAL MAIS ANTIGA A SUL
DO SAHARA E OS LENÇÓIS LAVADOS
NA PENSÃO MATA-SOL

[Texto e fotos: Alexandre Correia]

São Salvador do Congo - era assim que se chamava a capital do antigo Reino do Congo, que desde o final do século XV estabeleceu uma relação invulgar e muito especial com a coroa portuguesa. Depois de uma primeira visita de Diogo Cão, em 1482, muitas outras se seguiram e os próprios monarcas congoleses viajaram até Portugal, que passou a exercer uma importante influência neste reino africano, desde logo convertido ao cristianismo. Nessa época, o Reino do Congo dominava uma vasta área da África Austral, delimitada a norte pelo actual Gabão e a sul pelo norte de Angola. Da imponência que conheceu nesse tempo restam as memórias transcritas pelos historiadores e as ruínas da velha Sé Catedral, considerada o templo católico mais antigo entre todos os que foram construídos a sul do deserto do Sahara; foi erguida em 1491 e só o telhado não sobreviveu à passagem dos séculos, pois as suas grossas paredes de pedra ainda continuam de pé e aparentam uma impressionante solidez. Mesmo ao lado, estende-se o cemitério real, onde apenas têm lugar as campas dos sucessivos Reis do Congo, todos eles com nomes portugueses - reflexo dessa profunda influência que, aliás, acabou por absorver parte do seu território no de Angola, quando no final do século XIX tivemos de definir fronteiras coloniais. Hoje, esta cidade chama-se M'Banza Congo e embora não seja verdadeiramente a mais importante da província angolana do Zaire - perdendo esse estatuto para Soyo, na foz do rio Zaire - é a capital provincial. Bem no norte de Angola, a somente 60 quilómetros da fronteira com a República Democrática do Congo, M'Banza Congo vive muito do comércio estimulado pela proximidade do país vizinho, sobretudo numa altura em que se acentuam as diferenças: tudo escasseia do lado da RDC, ao contrário do que sucede do lado angolano, onde não faltam os bens essenciais, nem muitos outros que são perfeitamente dispensáveis. Esta escala, no intervalo entre a terceira e quarta etapas do 4º Raid T.T. Kwanza Sul, deixou marcas fortes, que talvez nunca venha a esquecer. Ali pude sentir o peso da história e do passado já tão distante do Reino do Congo, mas o mais marcante foi a pernoita nesta cidade. Depois do agradável jantar numa esplanada no centro, fui conduzido por um guia de moto até ao alojamento que me estava reservado, numa pensão quase nos subúrbios onde bastou consultar a tabela de preços para perceber qual o tipo de clientela que normalmente frequentava o estabelecimento, bastante discreto, no que diz a salvaguardar a identidade dos hóspedes face aos curiosos: uma hora de amor custaria-me 1500 Kwanzas, mas se demorasse mais tempo seria penalizado com um adicional de 2500 Kwanzas pela segunda hora. Para dar uma ideia do valor em euros, basta cortar os zeros à direita, mas convém acrescentar que estes números não compreendem senão o alojamento; a companhia é paga à parte e, a bem da verdade, não era fornecida no local. Dado o carácter desta unidade, os preservativos eram por conta da casa e devo dizer que, a julgar pela quantidade que me dispensaram, anteviam uma noite ardente. O problema é que eu somente queria tomar um belo banho e cair na cama para um sono pesado, mas a casa de banho estava num estado tal que nem me atrevi a entrar e desisti de ali ficar quando o gerente, muito simpático e deveras atencioso, expressou a sua empatia comigo ao confiar-me o conjunto de lençóis mais limpos que tinha, escondidos num armário do seu escritório. Arrepiei-me todo quando ele me segredou que aqueles lençóis só tinham sido usados uma vez e deixei-o desconsolado quando parti, disposto a dormir dentro da pickup. Mas, estava escrito que isso só iria acontecer mais tarde, porque nesta noite acabei por ir parar à "magnífica" Pensão Mata-Sol, noutra extrema de M'Banza Congo, onde o gerente também guardava a roupa da cama e os atoalhados no seu escritório, mas tinha pilhas deles a tresandar a detergente, para que não houvesse dúvidas em como ali se privilegiava o asseio. Ali também uma hora de "descanso" era cobrada a 1500 Kwanzas, mas a noite toda eram só 5000 Kwanzas e ainda tive direito a um cheiroso sabonete Lux, para sentir-me uma estrela de cinema enquanto me esfregasse no banho.

terça-feira, 23 de junho de 2009


O "Posto" da Casa da Telha
ÁREA DE SERVIÇO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

O entroncamento da Casa da Telha, onde o trânsito vindo de N'Zeto se divide para Soyo ou para M'Banza Congo, é uma Área de Serviço muito especial. Não tem um posto de abastecimento de combustíveis convencional, mas não faltam bancas para vender gasolina e gasóleo, mas também óleo para lubrificar o motor e um sem número de acessórios. Tal como não faltam as cantinas para dar sossego ao estômago, desde que não sejam sensíveis estômagos europeus, como os de boa parte dos participantes no 4º Raid T.T. Kwanza Sul. Quem quiser levar a comida para fazer mais tarde lá em casa, pode até comprar um belo e grande peixe seco, que depois de demolhado é um petisco! A paragem do autocarro é sempre um momento de grande agitação, entre os que partem, os que chegam e os que apenas passam por ali. Cruzámos a estrada num desses momentos.



O movimento é enorme em Casa da Telha

Se o almoço assentar mal, a farmácia é logo ao lado...



... mas um peixinho, ou peixão, nunca fez mal a ninguém!

segunda-feira, 25 de maio de 2009


Ponte aérea para Cabinda.


Excursão a Cabinda
PASSEIO ENTRE AS FRONTEIRAS DOS CONGOS

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Depois da enorme etapa desde Luanda ao Soyo, seguiram-se três dias de puro descanso para todos os participantes no Raid T.T. Kwanza Sul 2009, passados em Cabinda. Não era para ter sido assim, pois até ao último momento a organização desenvolveu todos os esforços para disponibilizar uma barcaça que pudesse transportar as Nissan Pickup Hardbody entre as duas cidades, mas assim que se perdeu a esperança de fazermos um pequeno “cruzeiro” desde o estuário do rio Zaire até à costa atlântica de Cabinda, imediatamente avançou o “plano B”: uma ponte aérea que mobilizou três aviões de nove a doze lugares, que em apenas quinze minutos estabeleceram a ligação de Soyo a Cabinda. Esta solução de recurso implicou mudar significativamente o programa, pois as Hardbody foram substituídas por um “magnífico” Tata de 54 lugares sentados — mais uma vintena em pé — cujo raio de acção estava, naturalmente, condicionado às estradas asfaltadas. Por outras palavras, durante três dias disse adeus ao todo-o-terreno e senti-me um perfeito excursionista, acompanhando o grupo de um lado para o outro do território de Cabinda, num passeio que decorreu, literalmente, entre as fronteiras com os dois Congos — a República do Congo, com capital em Brazaville, e a República Democrática do Congo, ex-Zaire, com capital em Kinshasa, uma em frente à outra, separadas apenas pelas águas do rio Zaire.
O programa da primeira destas três jornadas devia ser consagrado à navegação e ao embarque e desembarque das viaturas, operações que requeriam seguir as marés, mas em cima da hora não foi possível encontrar uma forma de preencher o tempo extra. Ganhei assim uma inesperada tarde livre, que só não foi passada na piscina do Hotel Por do Sol porque quando pensei nisso já não cabia dentro de água, tantos que eram os banhistas que aproveitaram o Domingo para confraternizar ruidosamente na dita. Uma caminhada pela marginal, nas imediações do hotel, ocupou algum tempo. Escrever e rever as imagens registadas também. Mas continuava a sobrar muito tempo e não resisti a fazer uma visita à cozinha do hotel, onde a Chefe Marta ficou encantada com a minha proposta de enriquecer a ementa do jantar confeccionando eu próprio uns crepes de lagosta. Trata-se de um prato particularmente desejado por alguns veteranos do Raid T.T. Kwanza Sul, que já na expedição anterior, de Luanda ao Cunene, muito suspiraram por degustar crepes de lagosta. Para que esta experiência tivesse sido um sucesso, teria sido necessário dispor de uma frigideira própria para crepes ou, em alternativa, com revestimento anti-aderente, que permitisse virar os crepes para fritá-los dos dois lados sem se desfazerem. Boa parte do preparado dos crepes foi gasto inutilmente a experimentar frigideiras umas atrás das outras, até que a Marta me trouxe uma pequena frigideira — a única ante-aderente que o hotel dispunha — própria para estrelar ovos, que deu para fazer uns quinze crepes, que foram mais ou menos partilhados pelos 39 comensais. Se não tivesse provado o creme de lagosta com alguns dos crepes que se desfizeram, ainda na cozinha, tinha-me contentado com meia dose. Soube bem, mas soube a pouco. Portanto, tratei logo de agendar nova visita à cozinha, que resultou numa ementa completa, para o almoço do terceiro dia, antes de repetir a ponte aérea de regresso ao Soyo. Neste caso, recomendei à cozinheira que comprasse chocolate para cozinhar e com as cinco barras que me arranjou fiz três bolos de chocolate que deixaram alguns apreciadores a babar-se, mais uma grande tigela de mousse de chocolate, que não deu para muitos provarem. E como os crepes de lagosta tinham sido tão bem aceites, mas tão difíceis de confeccionar, repeti o creme, mas apliquei-o numa lasanha, em camadas alternadas com espinafres salteados e regados por natas frescas. Quem provou não hesitou em considerar esta lasanha como uma referencia, a repetir sempre que possível; mas não haja falsas esperanças, porque desfazer quatro gordas lagostas para guarnecer um creme onde cozeram as folhas de lasanha é quase que proibitivo. Em Lisboa, um “pratinho” destes não custaria menos de 50 euros por cabeça, doseado com parcimónia... Isto não foi tudo. Uma refeição completa exige também um prato de carne e fiz uma guisado de vaca, à boa maneira portuguesa, que deixou os meus companheiros de viagem muito agradavelmente surpreendidos. E ainda mais ficaram quando, no fim do almoço, descobriram onde eu tinha passado a manhã inteira e a fazer o quê.
Pelo meio destas visitas à cozinha, ainda tive tempo para seguir na excursão através de Cabina e pude mesmo pôr um pé no Congo, ao visitar o posto fronteiriço de Massabi. A uma trintena de quilómetros de Ponta Negra, a mais importante cidade portuária do antigo Congo Francês, a fronteira de Massabi é a mais movimentada das várias passagens entre Cabinda e os dois Congos, por onde circulam diariamente para cima de uma centena de camiões pesados e muitíssimo mais viaturas ligeiras. Tudo se negoceia de um lado e do outro da fronteira, ora nos mercados montados junto aos postos, ora pela mão dos vendedores ambulantes que circulam por ali. Pode-se comprar desde uma mobília de sala completa a peixe seco, de DVD’s com os últimos êxitos musicais — que nos asseguram ser originais e não cópias chinesas, como que para justificar os caracteres chineses que exibiam nas capas — a máquinas eléctricas de aparar a barba, como me propôs um vendedor com evidente sentido de oportunidade, passando por diversos estilos de vestuário, calçado, adereços, quinquilharias e mercearias. Um verdadeiro centro comercial a céu aberto, ou protegido por toscas barracas de madeira e toldos esburacados. Fora do programa das visitas ficou a excursão até à floresta do Maiombe, onde abundam árvores com mais de 50 metros de altura de espécies raras como o Pau-Preto, Ébano, Sândalo Africano, Pau-Raro e Pau-Ferro. E claro, o famoso Pau de Cabinda, que os conhecedores e outros mentirosos asseguram ter efeitos notáveis na performance sexual masculina, não faltando quem jure conhecer alguém que experimentou e nunca mais quis outra coisa.


Sobrevoando o Estuário do Rio Zaire.


Uma das avenidas principais de Cabinda.


Os Jardim dos Papas, na marginal de Cabinda.


O Padrão português em Simulanbuco.


Praia de Landana. Vários quilómetros de areal.


Massabi, no posto fronteiriço com a República do Congo.


Floresta densa. Cabinda é rica em petróleo e madeiras preciosas.


Regresso ao Soyo, por cima da República Democrática do Congo.