Ajuda que vale a pena
UMA ESCOLA PARA CONSTRUIR O FUTURO
[Texto e Fotos: Alexandre Correia]
Em quase três décadas de viagens, tropecei inúmeras vezes em programas organizados que tinham, pelo meio, ou em si mesmo, acções anunciadas como sendo de “ajuda humanitária”. A expressão é relativamente recente, embora o princípio seja idêntico ao que antigamente se fazia sem atribuir nenhum nome especial, ou até mesmo sem disso se fazer grande alarde.
Nunca gostei particularmente de me ver envolvido neste tipo de acções, pelo que sempre me senti um tanto incomodado cada vez que tomava parte num programa que incluía “ajuda humanitária”. E o mais engraçado, embora não tenha realmente graça nenhuma, é que ao abster-me de participar nestas acções, acabei sempre por ser olhado de lado, com desconfiança. Era sempre o único que não vibrava de entusiasmo por entrar numa escola de miúdos meio esfarrapados para oferecer caixinhas de lápis de cor e caderninhos todos bonitos, ou por parar no centro de uma aldeia, algures numa das muitas regiões pobres do mundo, para distribuir não interessa o quê, até porque muito raramente me apercebi de que alguém tivesse feito um levantamento prévio das necessidades das comunidades sobre as quais incidia a “ajuda humanitária”. Normalmente, a sensação que tenho é que se compraram uns tantos artigos baratos, que não fazem falta a ninguém, carregaram-se quilos e mais quilos de brindes publicitários que também já ninguém queria e não servem para nada, por vezes junta-se uma colecção de roupas e sapatos velhos, que deviam ter ido para o lixo, mas que todos guardaram à espera da oportunidade para poder oferecer “a quem precisa”, como costumo ouvir dizer, com aquele ar piedoso de quem julga que está a praticar o bem. Cresci a ouvir dizer que a caridade é anónima e quanto mais assisto a estas manifestações, mais concordo que sim, que quem realmente quer ajudar alguém, simplesmente ajuda. Não o anuncia, nem o publicita.
Nunca me esqueci de ouvir um tipo a contar, depois de ter regressado de uma “missão humanitária”, que tinha andado a ensinar os pretos a comer de garfo e faca. Contava isto em rodas de amigos e toda a gente se ria imenso. Nunca achei piada. Se ele tivesse ido à tropa, cumprir o Serviço Militar, que ainda era obrigatório quando fiz 21 anos, em 1985, podia ter feito o mesmo a imenso tipos, todos da minha idade e tão brancos como eu... Outro tipo que conhecia guardava uma noite por semana para trabalhar como voluntário numa ONG e andava um par de horas a distribuir sanduiches e pacotes de leite aos miseráveis que dormem na rua, em Lisboa, só porque ficava muito bem no seu currículo e, melhor do que isso, as mulheres ficavam sempre muito bem impressionadas com ele. Generoso, hem!... Tive uma amiga — que um dia deixou de merecer sê-lo — que era tão dada a depressões que passava a vida a dizer que queria tirar um ano para ir trabalhar como voluntária num projecto qualquer em África, a ajudar os coitadinhos e a aliviar a consciência, em busca de paz. Pelo que conhecia dela — e sobretudo pelo que mais tarde descobri... — ainda bem que os coitadinhos dos pobrezinhos nunca contaram com a sua disponibilidade, pois quem precisava de ajuda era mesmo ela e eles não iam ter paz. E são tantos os exemplos, maus exemplos, que me ocorrem, que se os fosse contar todos era uma história interminável. Mas se a regra é invocar-se de forma pouco escrupulosa e pouco séria a expressão “ajuda humanitária”, reconheço que não há regra sem excepção. Em tantos anos, só me ocorrem duas excepções, que eu testemunhei. Uma passou-se recentemente, em Angola, outra aconteceu há bastante tempo, também em África, mas bem perto da Europa...
Foi numa expedição a Marrocos, em meados dos anos 90, que vivi um desses momentos que considerei uma excepção: fomos oferecer um motor para puxar água a uma aldeia remota nas franjas do Sahara, encostada à fronteira com a Argélia, numa zona tão isolada que nem sequer as costumeiras caravanas de jipes carregadas de turistas sequiosos de aventura costumavam lá passar. Passavam sim, mas ao longe e quando os miúdos corriam atrás dos jipes, descalços sobre as pedras, agitando as mãos num gesto que tanto era um sinal de cumprimento, a dizer adeus, como de ajuda, a pedir uma esmola, os jipes aceleravam ainda mais e desapareciam sob uma densa nuvem de poeira. Por muito que corressem, os miúdos nunca conseguiam chegar à pista a tempo de ainda alcançarem um jipe. Nesse dia, porém, o que aconteceu foi diferente. Quando os miúdos se aperceberam da caravana já todos os jipes vinham ao seu encontro. Estacionámos no centro da aldeia e imediatamente fomos rodeados por dezenas de crianças, alegres e ruidosas. Em poucos minutos, toda a gente da aldeia estava junto de nós. Até algumas cabras e burros passeavam-se entre a multidão, como se estivessem igualmente curiosos de saber o que ia passar-se. Connosco vinha um camião e foi de lá que retirámos o motor de puxar água, que em minutos foi instalado num poço que ali havia, no meio da aldeia, à sombra de duas enormes palmeiras. Depois de termos posto gasolina no pequeno depósito do motor, puxámos um cabo meia-dúzia de vezes e de repente fez-se um silêncio profundo: assim que se ouviram os primeiros roncos do motor a funcionar, toda a gente se calou. E depois desataram numa algazarra. Aquele era, sem dúvida, um momento de grande alegria! Três homens, que se comportavam como se fossem os líderes locais, aprenderam num instante tudo o que era fundamental saberem para que o motor durasse longo tempo, nomeadamente a manutenção e modo de funcionamento da máquina. Quando a mangueira mergulhou no poço, tão fundo que do alto não conseguíamos distinguir a água, já se tinha criado um fila de mulheres e crianças carregadas com vasilhas de plástico, que aguardavam pacientemente que a água começasse a jorrar da ponta da mangueira. Esse foi outro momento inesquecível. A expressão alegre de toda a gente, os olhares felizes. Sem discursos, sem lápides para descerrar, sem mais nada, despedi-mo-nos e partimos de novo pela pista pedregosa e poeirenta. E desta vez os miúdos não vieram atrás, numa correria desenfreada. Ficaram ali, à volta do poço, fascinados com aquela máquina vermelha, barulhenta, que chupava a água do poço. Pelo menos enquanto o motor funcionasse, não teriam de queimar as energias agarrados à alavanca da velha bomba manual, num repetitivo vai-vem de minutos para fazer cuspir pequenas golfadas de água do poço.
Nesse dia, em Marrocos, algures entre Erfoud e Zagora, junto à fronteira com a Argélia, mudei a minha opinião e achei que tinha valido a pena aquele pequeno esforço para oferecermos um motor de puxar água, que contribuiu para uma efectiva melhoria das condições de vida daquela comunidade. E porque nos limitámos a oferecer o motor. Discretamente.
A outra excepção foi em Junho de 2009, no sul de Angola. Integrava a caravana de uma expedição todo-o-terreno, o Raid T.T. Kwanza Sul e na manhã do último dia do programa os promotores do evento levaram-nos a ver as obras de construção de uma escola primária, uma das três escolas projectadas e custeadas pelo município português de Almada, ao abrigo de um acordo de geminação que começou pela associação à pequena cidade costeira de Porto Amboim e que acabou por alargar-se a toda a província do Kwanza Sul.
Implantada nos arredores da vila de Conda, não muito longe da cidade de Gabela, a escola que visitámos era ainda o esqueleto de um edifício térreo, com três amplas salas para aulas e um anexo com as restantes infra-estruturas. O local da construção é no meio do nada, entre uma aldeia e a vila de Conda, à beira de um cabeço, de onde se aprecia uma paisagem extraordinária. Lembrou-me uma escola primária que encontrei há alguns anos num local igualmente isolado e lindíssimo, na Amazónia venezuelana; tinha na fachada, pintada em grandes letras, uma frase atribuída a Simon Bolívar, que nunca mais me saiu da cabeça: “Un hombre sin estudios és un ser incompleto”. E ao visitar as obras da nova escola de Conda, dei comigo a pensar que se há coisas em que vale sempre a pena investir é na construção de escolas. Nisso e na vacinação de crianças, que um médico, velho amigo, que já desapareceu, me dizia ter a certeza de que era a única coisa verdadeiramente útil que tinha feito em longos anos de trabalho em missões humanitárias, que o levaram diversas vezes ao epicentro de alguns dos maiores conflitos recentes, como o Afeganistão, ainda no tempo da guerra com os russos, mas também já sob o domínio dos talibãs, o Ruanda durante a crise dos Grandes Lagos, a Libéria e a Serra Leoa durante os piores momentos das guerras civis que assolaram estes países, entre tantos outros cenários, sempre dos mais duros para trabalhar.
Ali, entre os muros de tijolo nu da nova escola, lembrei-me também das Filipinas, onde encontrei escolas nos locais mais recônditos, em plena selva. Em 1898, quando a Coroa espanhola vendeu aos Estados Unidos da América o arquipélago das Filipinas — alienando esta colónia do Pacífico pela soma de um milhão de USD — os americanos tomaram posse de 7107 ilhas, um terço das quais habitadas, onde ninguém se entendia. Simplesmente porque cada comunidade tinha a sua própria língua. E quase ninguém falava espanhol, porque durante o tempo de domínio espanhol as poucas escolas estavam reservadas aos próprios espanhóis e a uma reduzida elite filipina. Em 1946, quando os EUA concederam a independência às Filipinas, a realidade era completamente diferente: já havia uma língua que unia todos os filipinos. Era o inglês. E como é que os norte-americanos conseguiram em 48 anos aquilo que os espanhóis não conseguiram em mais de três séculos? Abriram escolas. Milhares de escolas. Uma em cada aldeia. E levaram professores. E decretaram que as crianças eram obrigadas a frequentar a escola primária.
Numa altura em que se debate a importância do português enquanto língua, bem como a memória de Portugal nos países que outrora integravam o imenso Império Colonial Português, são exemplos como este, da pequena escola perdida no cimo de um cabeço junto à vila de Conda, nas profundezas de Angola, que nos mostram a solução. A solução mais válida de todas para que o português mantenha a sua importância no quadro das grandes línguas faladas no mundo. E volto a lembrar-me da frase de Simon Bolívar, escrita na fechada da escola que encontrei na floresta amazónica: um homem sem estudos é um ser incompleto. Sem dúvida. E nenhum país se constrói nem se desenvolve com analfabetos. O futuro, de Angola, de Portugal, de qualquer país, constrói-se nas escolas.
Momentos depois da breve inspecção às obras, dirigi-mo-nos ao centro da vila de Conda, onde todos os membros desta caravana foram recebidos como os beneméritos da nova escola, a quem as autoridades e a população locais dispensou uma pequena homenagem, que decretou feriado na terra durante aí uma meia hora. O tempo necessário para uma sessão de cumprimentos aos sobas e administradores municipais, seguidas por algumas palavras de circunstância, que não se alongaram. O sistema de som que permitiu amplificar a voz dos que discursaram, foi o mesmo que logo a seguir aos aplausos populares afrouxarem começou a emitir música. E em segundos dançava-se na rua principal de Conda. Naquele dia, havia motivo para festejar a meio da manhã...
Depois de visitadas as obras da nova escola, fizémos uma entrada triunfal em Conda, onde as forças vivas da terra e inúmeros representantes da sociedade civil — num discurso formal é assim que designamos a assistência popular — aguardavam pacientemente a chegada da comitiva, para um breve acto simbólico. Foi bonito ver que aqueles que receberam ajuda ficaram gratos por isso.
Para não tapar ninguém, fui o último a participar na sessão de cumprimentos, trocando dezenas de apertos de mão com os Sobas do município de Conda, mas também com o Padre e seus ajudantes, com os dirigentes da Administração local e os representantes das Autoridades. No final, apanhei o microfone a jeito não resisti a um breve improviso. Nunca se deve deixar um microfone à mão...
Uma vénia de respeito diante das senhoras, que os sobas são sempre homens de grande educação.
Terminados os breves discursos, ainda se ouviam os aplausos populares e já tocava música no sistema de som, transformando a rua principal de Conda num palco de dança, como se tivesse sido decretado feriado na vila por uma boa meia-hora!
...até na repartição o trabalho parou uns momentos, para os funcionários espreitarem a festa, encostados à janela.