
Revista Todo Terreno conta a história toda…
DEZ DIAS EM VINTE PÁGINAS
Em cinco edições do Raid T.T. Kwanza Sul, participei em quatro, percorrendo talvez uns 15 mil quilómetros por todas as províncias de Angola, menos duas: o Cuando-Cubango e o Cunene, bem no sul, são as regiões que me resta visitar, embora não sejam terras totalmente estranhas, pois contornei-as diversas vezes ao percorrer a faixa de Caprivi, na Namíbia, e nalgumas incursões pela Zâmbia, anos atrás. Em 2010, ao tomar parte do 5º Raid T.T. Kwanza Sul, tive oportunidade de conhecer as províncias visitadas na segunda edição, a que faltei, nomeamente o Bié, para além de ter acrescentado as Lundas, Norte e Sul, bem como o Moxico e Malange. Hoje, já não tenho a mínima dúvida de que esta expedição em todo-o-terreno, organizada conjuntamente pelo município português de Almada e pelo governo angolano, através das autoridades da província do Kwanza Sul, representa, de longe, o mais importante e completo evento alguma vez realizado nas últimas décadas para dar a conhecer a realidade actual de Angola. Desde 2005, quando teve lugar o primeiro raide, até agora, as mudanças que fomos encontrando foram tantas e tão profundas que em inúmeros casos seríamos até capazes de jurar que estavamos enganados, que não se tratava dos mesmos lugares. Por exemplo, em 2007, quando a caravana chegou pela primeira vez à cidade do Cuíto, encontrou bem visíveis as marcas das batalhas dramáticas que fustigaram a capital do Bié, mas no ano passado, ao revisitá-la, praticamente ja não se encontram vestígios desses tempos difíceis. Talvez até por isso, e para não esquecermos a memória dessa tragédia, a caravana visitou o cemitério construído num morro sobranceiro à cidade, para enterrar as dezenas de milhares de vítimas tombadas nos combates que destruiram o Cuíto. Outro exemplo das transformações impressionantes a que assistimos em Angola são as picadas na zona do Waku Kungo — o antigo Colonato da Cela —, que em 2005 nos fizeram mergulhar em densas núvens de poeira, quando ligámos esta vila à cidade do Bailundo, são hoje estradas de asfalto, largas e de excelente piso, onde o veículo mais adequado para circular é um automóvel de turismo e não as Nissan PickUp Hardbody que desde sempre mobilizaram esta caravana. Muito mais importante do que tudo isso, hoje, mais do que em qualquer outra altura, sente-se a paz em todos os lugares por onde passamos em Angola, país onde grande parte da população adulta nasceu e cresceu em guerra e que só há nove anos descobriu o que era viver em paz. Uma descoberta que, essa sim, requereu tempo, muito mais tempo do que tem sido necessário para recuperar edifícios e abrir novas estradas. Mas talvez até por essa descoberta ter sido demorada, ao encantarem-se com a paz actual, os angolanos tornaram o seu país num dos mais seguros para quem viaje em África nestes tempos. E com todas as estruturas de apoio ao turismo que têm vindo a ser desenvolvidas por todo o lado, Angola começa a reunir as condições para que em breve possa tornar-se numa potência turística, no quadro africano. E os raides em todo-o-terreno serão, com certeza, um dos melhores cartazes que Angola pode usar para captar turistas. Não será já amanhã. Mas será em breve, com toda a certeza!
A minha presença nestes raides sempre se ficou a dever a um objectivo: publicar uma grande reportagem sobre o evento e tudo o que o rodeia na revista Todo Terreno. Uma vez mais, o compromisso foi cumprido. A edição nº 149 da Todo Terreno consagra 20 páginas à expedição que nos levou até às Lundas, as terras onde o solo brilha de riqueza. Boa leitura!
Alexandre Correia
