segunda-feira, 28 de março de 2011



Recordações numa viagem de autocarro...
FINAL DE TARDE
NO TRÂNSITO DE LUANDA


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

A tarde ia longa quando regressámos do Mussulo e desembarcámos no pontão entre os dois clubes náuticos, instalados num local que há não muitos anos era um lugar remoto nos arredores de Luanda, a sul, mas que agora está perfeitamente integrado na cidade. A mancha urbana de Luanda cresceu assustadoramente e o trânsito também. Tornou-se um lugar comum as pessoas referirem-se ao trânsito de Luanda como o inferno na terra, algo verdadeiramente dantesco, como não se encontra pior em lugar nenhum. Na verdade, para mim o trânsito sempre foi lento em Luanda...
Nos anos 80, quando ainda não havia assim tantos veículos a circular, já eram frequentes os engarrafamentos como consequência das estreitas medidas de controlo e segurança que então vigoravam: havia postos de controlo militares por toda a cidade e parar em todos eles para mostrar documentos e explicar de onde vínhamos e para onde íamos tornava extenuante a mais curta deslocação; durante o dia estes controlos eram sempre uma incógnita, pois nem sempre funcionavam, mas como nessa altura havia um recolher obrigatório durante a noite, quem saía depois do sol desaparecer não só precisava de ter um salvo-conduto que o autorizasse a circular fora de horas, como precisava ainda de ter muita paciência, já que era nesse período que o controlo apertava. Ninguém escapava a parar! Lembro-me que só na marginal, desde o largo junto à entrada do Porto de Luanda até à ponte para a ilha, havia inúmeros postos de controlo, que embora todos à vista uns dos outros, nem por isso se dispensava a paragem em todos eles.
A primeira vez que circulei pela capital angolana liberto desse apertado controlo foi no início de 1992, quando se vivia o ponto mais alto das tréguas estabelecidas pelos célebres Acordos de Bicesse; esses meses de paz quebraram muitas das restrições à circulação pelo país e isso sentiu-se logo no tráfego, que aumentou substancialmente, sobretudo em Luanda. Todavia, ainda estávamos longe, muito longe mesmo, dos engarrafamentos que encontrámos uma década depois, já com a paz ditada não por tréguas duvidosas, mas pelo termo definitivo da guerra civil que devastou Angola durante mais de um quarto de século.
Salvo três excepções, duas delas ditadas por atrasos insuportáveis nos voos à saída de Lisboa, cheguei sempre a Luanda sensivelmente à hora do crepúsculo e, como em qualquer grande cidade, esse é um dos momentos em que o trânsito é mais intenso. Em Luanda, agora diz-se que todas as horas são horas de ponta, mas é ao cair do dia que as longas filas compactas mais se adensam a cada cruzamento, num emaranhado de veículos que se prolonga pela noite dentro, até aliviarem já depois da hora do jantar. Os reis da cidade são os “candongueiros”, como chamam às furgonetas azuis que asseguram o grosso dos transportes públicos. Reparo que se tornaram também no alvo preferencial dos policias de trânsito, mas a acção destes últimos sobre os primeiros não chega sequer a ter um efeito dissuasor, como em Lisboa aconteceu com os radares fixos instalados nalgumas vias rápidas. Enquanto um “candongueiro” é parado por alguma irregularidade, ou simplesmente para verificar a respectiva documentação — por exemplo, a obrigatoriedade de todos os veículos disporem de seguro é uma das medidas menos respeitadas, talvez por ser ainda recente... — dezenas, para não dizermos centenas, passam ao lado, como que imunes a tudo e mais alguma coisa. Estes pequenos autocarros, que em Luanda já começam a ter concorrência de autocarros a sério, são geralmente furgões Toyota Hiace, comprados usados algures na Europa, quando teoricamente atingem o prazo de vida útil, rejuvenescendo por toda a África como transporte de passageiros, normalmente em percursos urbanos e interurbanos. A lotação média de nove lugares — existem versões de origem com quatro filas de bancos e 12 lugares — dá lugar a uma regra em que a palavra de ordem é “cabem todos e ainda mais um”. Daí que quando se envolvem em acidentes, estes furgões azuis — pintados num tom “azul cueca” que se identifica à distância, com o tejadilho branco — são particularmente letais. Dizem-me que uma das piores coisas que pode acontecer a alguém é envolver-se num acidente com um “candongueiro”. Imagino que seja o mesmo que ter um acidente com um táxi em Portugal; mesmo que não tenhamos a mínima culpa e que isso seja absolutamente evidente, não demorará a que o local da ocorrência esteja repleto de outros táxis cujos condutores assistiram a tudo e são unânimes em considerar-nos culpados. Bem, talvez em Luanda as coisas possam ser um bocadinho piores, pois não duvido que as discussões sejam mais acaloradas, nem que outros factores sejam tido em conta. Será igualmente praticamente em toda a África se um europeu tiver um acidente com um condutor local...
Tranquilamente sentado a bordo de um pequeno autocarro, um Toyota de três dezenas de lugares cujo modelo tem um nome bem engraçado ¬— é um Toyota Optima... — e um condutor ainda mais, atravesso descontraído e demoradamente grande parte da cidade, até me apear a meio da Rua da Missão, à porta do Hotel Trópico, que prevalece como uma das unidades hoteleiras de referência em Luanda, com um buffet impressionante, tão rico e diversificado que é uma ameaça perigosa para os bons “garfos”. Nos tempos difíceis, mesmo ainda no início dos anos 90, recordo-me que o Trópico era um “porto seguro”, mas estava longe de ser referência pela comida: o buffet era caríssimo e de uma pobreza franciscana. Pagava-se à entrada e uma vez, depois de desembolsar os “cinco contos”, encontrei todas as travessas e rechauds vazios. Quando reclamei, responderam-me que o problema era meu, que devia ter chegado mais cedo. E, claro, não podiam devolver o dinheiro. Não foi a refeição mais cara da minha vida, de modo algum, mas talvez a que teve a pior relação qualidade/preço e custo/benefício, pois limitei-me a rapar o fundo às travessas. E lembro-me que até nisso não estive sozinho, pois havia outros esfomeados como eu, que também chegaram tarde. No dia seguinte, à cautela, apresentei-me no Trópico antes da abertura do restaurante e fiquei ainda mais impressionado com o que vi quando as portas se abriram. Parecia o que um dia vi ao passar à porta do Casino Estoril às 15h00 em ponto, quando mais uma jornada de jogo estava a abrir e uma pequena multidão de viciados se apressou a correr para a sala das máquinas, como se estivem a perder uma fortuna. Ter ficado parado a olhar para a invasão do buffet do Trópico deixou-me outra vez limitado aos restos; a única diferença é que ainda estavam quentes.
Desta vez, todavia, a abundância é tal que já nem se formam filas em redor dos rechauds dos pratos quentes e das extensas mesas carregadas com travessas de “frios”, entradas, saladas e sobremesas. Na véspera, quando tinha chegado a Luanda, o meu grupo fora o último a servir-se deste buffet e parecia que éramos os primeiros. Nesta noite, íamos jantar fora e o autocarro esperou à porta enquanto fomos tomar um duche rápido — limpando o corpo do sal de um dia de praia — e aprontarmo-nos para ir “comer fora”. Quando voltámos a sair, a caminho da ilha de Luanda, o trânsito acalmara, totalmente. Demorámos apenas uns minutos, sempre a rolar. E ao desembarcar, só pensava como é absurdo considerar infernal o trânsito de Luanda. Se o compararmos com o trânsito de cidades como Manila, Bangkok ou Pequim, que nunca dormem. Quem se incomoda a circular pela capital angolana, não aguentaria atravessar uma destas capitais asiáticas...


A caminho do centro de Luanda, numa das vias rápidas com várias faixas de rodagem que facilitam o acesso desde o sul. O trânsito ainda não se fazia sentir...

... mas não tardou a que os engarrafamentos começassem a ganhar expressão.

As carrinhas dos "candongueiros" dominam o trânsito à hora de ponta e são infernais em Luanda. Mesmo nas circunstâncias em que não têm prioridade, mais vale ceder-lhe passagem.


Já bem no centro, o tráfego alivia. E o sol ainda não desapareceu no horizonte. Quem se queixa de Luanda é porque nunca andou em Bangkok, em Manila ou até em Pequim...

Pela hora do jantar, percorremos a marginal a caminho da ilha de Luanda. O trânsito já reduziu e a capital começa a ganhar uma aparência calma.

quarta-feira, 2 de março de 2011



Revista Todo Terreno conta a história toda…

DEZ DIAS EM VINTE PÁGINAS

Em cinco edições do Raid T.T. Kwanza Sul, participei em quatro, percorrendo talvez uns 15 mil quilómetros por todas as províncias de Angola, menos duas: o Cuando-Cubango e o Cunene, bem no sul, são as regiões que me resta visitar, embora não sejam terras totalmente estranhas, pois contornei-as diversas vezes ao percorrer a faixa de Caprivi, na Namíbia, e nalgumas incursões pela Zâmbia, anos atrás. Em 2010, ao tomar parte do 5º Raid T.T. Kwanza Sul, tive oportunidade de conhecer as províncias visitadas na segunda edição, a que faltei, nomeamente o Bié, para além de ter acrescentado as Lundas, Norte e Sul, bem como o Moxico e Malange. Hoje, já não tenho a mínima dúvida de que esta expedição em todo-o-terreno, organizada conjuntamente pelo município português de Almada e pelo governo angolano, através das autoridades da província do Kwanza Sul, representa, de longe, o mais importante e completo evento alguma vez realizado nas últimas décadas para dar a conhecer a realidade actual de Angola. Desde 2005, quando teve lugar o primeiro raide, até agora, as mudanças que fomos encontrando foram tantas e tão profundas que em inúmeros casos seríamos até capazes de jurar que estavamos enganados, que não se tratava dos mesmos lugares. Por exemplo, em 2007, quando a caravana chegou pela primeira vez à cidade do Cuíto, encontrou bem visíveis as marcas das batalhas dramáticas que fustigaram a capital do Bié, mas no ano passado, ao revisitá-la, praticamente ja não se encontram vestígios desses tempos difíceis. Talvez até por isso, e para não esquecermos a memória dessa tragédia, a caravana visitou o cemitério construído num morro sobranceiro à cidade, para enterrar as dezenas de milhares de vítimas tombadas nos combates que destruiram o Cuíto. Outro exemplo das transformações impressionantes a que assistimos em Angola são as picadas na zona do Waku Kungo — o antigo Colonato da Cela —, que em 2005 nos fizeram mergulhar em densas núvens de poeira, quando ligámos esta vila à cidade do Bailundo, são hoje estradas de asfalto, largas e de excelente piso, onde o veículo mais adequado para circular é um automóvel de turismo e não as Nissan PickUp Hardbody que desde sempre mobilizaram esta caravana. Muito mais importante do que tudo isso, hoje, mais do que em qualquer outra altura, sente-se a paz em todos os lugares por onde passamos em Angola, país onde grande parte da população adulta nasceu e cresceu em guerra e que só há nove anos descobriu o que era viver em paz. Uma descoberta que, essa sim, requereu tempo, muito mais tempo do que tem sido necessário para recuperar edifícios e abrir novas estradas. Mas talvez até por essa descoberta ter sido demorada, ao encantarem-se com a paz actual, os angolanos tornaram o seu país num dos mais seguros para quem viaje em África nestes tempos. E com todas as estruturas de apoio ao turismo que têm vindo a ser desenvolvidas por todo o lado, Angola começa a reunir as condições para que em breve possa tornar-se numa potência turística, no quadro africano. E os raides em todo-o-terreno serão, com certeza, um dos melhores cartazes que Angola pode usar para captar turistas. Não será já amanhã. Mas será em breve, com toda a certeza!
A minha presença nestes raides sempre se ficou a dever a um objectivo: publicar uma grande reportagem sobre o evento e tudo o que o rodeia na revista Todo Terreno. Uma vez mais, o compromisso foi cumprido. A edição nº 149 da Todo Terreno consagra 20 páginas à expedição que nos levou até às Lundas, as terras onde o solo brilha de riqueza. Boa leitura!

Alexandre Correia


segunda-feira, 27 de setembro de 2010



Raid T.T. Kwanza-Sul

AVENTURA COMEÇOU

COM UM BANHO NO MUSSULO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Definitivamente, a tradição já não é o que era. E ainda bem! Todos os anos, quem ia a Angola para tomar parte do Raid T.T. Kwanza-Sul chegava a Luanda ao cair da noite e na madrugada seguinte, ainda antes do amanhecer, já estava a pé para integrar a caravana e começar a devorar quilómetros sobre quilómetros à descoberta — ou à redescoberta, pois muitos dos que se deslocam desde Portugal viveram parte das suas vidas em Angola — deste enorme país da África Austral que em 2002 pôs termo a décadas de uma guerra terrível e que hoje faz da paz uma bandeira. Iniciativa conjunta do Governo da Província do Kwanza-Sul e da Câmara Municipal de Almada, no âmbito de um protocolo de cooperação que começou pela geminação desta cidade em frente a Lisboa com Porto Amboim, no sul de Angola, mas que acabou por estender-se a todos os municípios desta província, o Raid T.T. Kwanza-Sul desde a primeira edição, em 2005, que justifica bem todas as horas roubadas ao sono e até, por vezes, alguns sacrifícios ao conforto. Embora nunca ninguém se tivesse verdadeiramente queixado, o certo é que era praticamente unânime o sentimento de alguma perda por o programa ser, ano após ano, de tal modo intenso e preenchido que jamais sobrou tempo para permitir uma visita à capital angolana. Sempre arrancámos algumas horas após termos aterrado e quase sempre partimos de regresso a Portugal assim que terminámos o percurso, reconhecendo as bagagens à chegada ao aeroporto de Lisboa por serem, invariavelmente, as malas mais sujas que desfilavam pela esteira rolante.

Pois este ano, a tradição passou à história e o programa proposto para o 5º Raid T.T. Kwanza-Sul, que mobilizou uma caravana de quase duas dúzias de Nissan PickUp Hardbody e cerca de sete dezenas de expedicionários — que, como sempre, se dividiam em igualdade entre angolanos e estrangeiros, maioritariamente portugueses — arrancou com uma jornada de puro lazer em Luanda, antes de nos levar a enfrentar mais de quatro milhares de quilómetros até às Lundas, as duas províncias diamantíferas, bem no norte.

Assim, desta vez, a preocupação na primeira noite em Angola não foi despertar às quatro e meia da madrugada para irmos carregar as Nissan e deixar a capital ainda antes do trânsito matinal, mas sim acordar antes de encerrar o serviço de pequeno-almoço no Hotel Trópico, que continua a ser uma das referências — e não somente pelo pequeno-almoço, embora esta refeição impressione pela diversidade e qualidade do que oferece — ao nível da hotelaria neste país.

Na noite anterior, o jantar terminou com o “briefing” de Pedro Cristina, o líder da caravana, onde se anunciou que o traje para a primeira jornada era o... fato de banho. A ideia era arrancar do Trópico pelas dez da manhã, descer a Rua da Missão até à Maianga e continuar durante pelo menos um par de horas a percorrer as principais artérias de Luanda, como se fossemos fazer um “safari-fotográfico” urbano. Todavia, o autocarro disponibilizado para esta excursão atrasou-se mais do que esse par de horas, pelo que a visita matinal à capital quase não passou de uma boa intenção, já que desde o meio-dia que estava preparado um almoço — um belo almoço, diga-se de passagem... — num dos resorts do Mussulo, a “quase-ilha” — como dizem os franceses — a sul de Luanda.

O passeio ficou-se pelo itinerário directo ao embarcadouro, onde também as lanchas que nos levaram até ao Mussulo tardaram a chegar, acentuando ainda mais o atraso.

Oito minutos depois de nos sentarmos a bordo, quando desembarcámos no Mussulo, boa parte dos expedicionários tomou logo lugar à mesa. Mas como o almoço já estava requentado, mais meia hora de atraso não faria a menor diferença. Por mim, o apelo de um banho nas águas do Mussulo, contemplando Luanda do outro lado do braço de mar, foi mais forte que o apetite!

Em mais de duas décadas de viagens até Angola, era a primeira vez que estava no Mussulo e não podia desperdiçar a oportunidade de sentir por mim o quanto é delicioso um banho nesta península, há muito convertida na estância de veraneio da elite luandense. Apesar de, como quase sempre que fui à praia em Angola, este episódio ter ocorrido na época do “Cacimbo”, correspondente ao Inverno Austral, quando os termómetros não chegam aos 30 graus e ninguém vai para a praia, porque “faz frio”, para mim, bem como para mais alguns corajosos deste grupo, aquele banho foi imperdível e só não nos demorámos mais porque não pudemos. O almoço já se tinha convertido num lanche e arriscavamo-nos a nem o provar quando nos sentámos à mesa, ainda com o corpo a escorrer água salgada. Agora, que o nosso Verão, no hemisfério norte, está terminado, dou comigo a pensar como é irónico ter desperdiçado todo o Verão aqui em Portugal, para ir à praia no Inverno Austral, em Angola...




Bidões de combustível, para alimentar os geradores das residências de veraneio da elite luandense, e grades de cerveja, para saciar a sede, são duas das mercadorias que mais são transportadas pelas lanchas que fazem a ligação entre Luanda e o Mussulo.

Do pontão junto ao clube náutico, o Mussulo avista-se ao longe, com os coqueiros a recortar a linha do horizonte.


Não havia mais banhistas na praia. Em plena estação do "Cacimbo", como em Angola chamam ao Inverno Austral, uma temperatura de 27 graus celsius não é suficiente para despertar a vontade de um banho no mar.

A espera foi longa, mas depois de embarcarmos na lancha, em apenas oito minutos atravessámos o braço de mar que separa Luanda da "quase-ilha" do Mussulo.

Parece uma praia nas Caraíbas. Não faltam sequer os coqueiros a delimitar o areal da mata. É esta a imagem que temos ao chegar ao Mussulo, a península junto de Luanda, frente à área de expansão da capital angolana.

A tarde já estava no fim quando saí da praia para ir almoçar. Ao fim de mais de duas décadas, pela primeira vez tive oportunidade de ir a banhos ao Mussulo. Isso valeu mais do que qualquer almoço, até porque almoço quase todos os dias, há 46 anos...

domingo, 11 de abril de 2010


Um paraíso perdido no sul de Angola…
ONDE NEM AS VACAS
RESISTEM A IR À PRAIA


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Assim que o sol desperta, nem é preciso que o calor aperte para os portugueses começarem a invadir as praias. Num país onde jamais estamos a mais de 200 quilómetros em linha recta de uma praia qualquer — e há mais de 800 km delas, para todos os gostos —, mais do que uma atracção irresistível, ir à praia é, realmente, um prazer quase que banal. Tantas praias, tão agradáveis e tão acessíveis faz de Portugal um óptimo destino de veraneio, embora as águas frias do Atlântico possam refrear esse entusiasmo às epidermes mais sensíveis. A quantidade de belas praias que rodeiam Lisboa faz da capital portuguesa e da sua área metropolitana uma zona residencial privilegiada, quando comparada com a esmagadora maioria das outras capitais europeias. Mas, se o que procuramos numa ida à praia é sossego, apenas nos dias de Inverno e de mau tempo teremos a certeza de que o encontraremos nas fantásticas praias à volta de Lisboa, pois quando o sol brilha forte, até os dias de trabalho são convidativos para preguiçar na praia, quanto mais aqueles em que não se trabalha. Esses dias, como este domingo soalheiro e bem quente, onde à hora do almoço o termómetro subiu aos 30 graus centígrados em Lisboa, são obrigatórios para uma ida à praia.
Como eu nunca gostei que me obrigassem a nada, só até à adolescência me era indiferente se encontrava a praia deserta ou apinhada de gente. Ir à praia era o importante e nada mais contava. Depois, outras coisas passaram a contar e fui-me afastando das praias portuguesas sobretudo quando passei a viajar pelo mundo fora e a descobrir praias onde não se vê ninguém, nem sequer uma pégada no areal, algumas até que muito poucos olhos contemplaram, para já nem falar daquelas onde a água refresca, mas não congela. Não que isso seja o mais importante, porque como nunca fui friorento, nunca desejei ardentemente aquelas praias banhadas por águas quentes. Aliás, algumas experiências que já tive em praias dessas foram horríveis, como nos Emirados Árabes Unidos, onde só pelas três horas da madrugada a água do mar atingia uma temperatura tépida, capaz de provocar uma sensação refrescante no corpo…
Viajar frequentemente permitiu-me começar a sentir um prazer quase perverso: ir à praia algures do outro lado do mundo, enquanto em Lisboa faz um frio de rachar. Nem imaginam os pensamentos maliciosos que ao longo dos anos me têm ocorrido quando, a molhar os pés na água de uma praia qualquer, mas garantidamente sem ninguém por perto, ou quase ninguém, recordo que nesse momento em Lisboa chove imenso e faz frio. Quanto mais chuva e mais frio, mais rico me sinto por desfrutar esses momentos na praia. E então se em Lisboa for a hora de ponta, este prazer de estar na praia torna-se mesmo pecaminoso, pois ponho-me a imaginar como estará o trânsito: caótico, impossível ou desesperante. E eu ali, com os pés cheios de areia, só a escutar o mar a desfazer-se contra a praia. Que maldade!
Esse hábito de ir à praia quando toda a gente não vai surgiu-me das viagens. Das viagens a Angola, quando mesmo no tempo do cacimbo, os 24 graus que arrefeciam quem vivia em Luanda a mim, pelo contrário, aqueciam-me imenso e não resistia a ir para a praia. Apanhava boleia da carrinha que levava as tripulações da TAP Air Portugal e lá ía para a ilha de Luanda, para a praia da contra-costa, estendendo a toalha quase na ponta, diante das ruínas do célebre Barracuda — mais tarde reabilitado e, depois, novamente desaparecido. Os meus amigos de Luanda achavam-me meio esquisito e perguntavam repetidamente se eu não tinha frio. Não, não tinha.
Com o passar dos anos, fui descobrindo novos lugares com praias admiráveis para ir molhar os pés, para mergulhar de cabeça, quando em Lisboa sair à rua sem um casaco quente seria loucura. Malásia, Filipinas, Tailândia, São Tomé e Príncipe, Brasil, Chile, até Marrocos, Mauritânia e mesmo o Senegal e a Gâmbia, são alguns dos países onde pude deliciar-me com estas sensações.
Mas nunca esqueci as praias de Angola. Especialmente quando isso deixou de significar apenas as praias de Luanda e arredores, tão boas quanto as de Lisboa, mas afectadas pelo mesmo problema: são demasiado frequentadas por banhistas.
No dia que para os portugueses ficou assinalado, definitivamente, com o ínicio antecipado da época balnear de 2010, contrariando o ditado que reza que “em Abril, águas mil!...” — e talvez para compensar Março passado, que foi um dos meses mais chuvosos das últimas três décadas em Portugal — eu começei também a contagem decrescente para mais uma viagem a Angola. E não pude deixar de recordar-me da última praia onde estive, o ano passado, na viagem anterior por terras angolanas.
Chama-se Carimbe e situa-se logo a sul da foz do rio Queve, entre Porto Amboim e Sumbe. Trata-se de um paraíso perdido no sul de Angola, onde até as vacas vão à praia, para aí adormecerem todas as noites, como que embaladas pelo ritual do sol a descer vagarosamente até se esconder sob o Atlântico, tingindo o céu de um laranja forte que demora a escurecer. E quando a noite finalmente caí, nem se ouve um mugido. Apenas o sussurro da rebentação…



Quando o dia está quase a partir, as pirogas dos pescadores descem o Queve até à lagoa junto a Carimba. Na aldeia que dá nome à praia, ao jantar nunca falta peixe fresco do rio.

A neblina, húmida e salgada, chega do mar ao fim da tarde e toma conta do areal de Carimba pela noite dentro. Por vezes, não levanta senão já o sol vai alto.

Mais um dia que chega ao fim. Em poucos segundos o sol vai desaparecer sob o Atlântico. É o sinal para o gado que é recolhido numa cerca bem no meio da praia se deitar na areia e adormecer...

Quando chega a noite, a praia de Carimba adormece embalada pelo pôr do sol e pelo sussuro da rebentação das ondas no extenso areal.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010



O que fazer com uma reforma de 140 euros?

PORQUE NÃO MUDAR
A VIDA DE UMA CRIANÇA?


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Quem diria que este blog seria capaz de despertar memórias com quase quatro décadas? Mas é verdade e quem o prova é M.R., que no início dos anos 70 passou uma longa temporada desterrado num lugar onde se sentiu no fim do mundo. Eu ainda estava a aprender a ler quando M.R. de lá saíu. Saíu e não mais voltou a ir a essas terras onde as distâncias ainda hoje continuam a não ser medidas em quilómetros, mas sim em horas; horas de condução por picadas que as chuvas sempre deixam impraticáveis, de tal modo que nem vale muito a pena repará-las, porque nas próximas chuvadas vão ficar outra vez tão degradadas que ninguém acreditará que, entretanto, terão sido arranjadas. M.R. não voltou, nem a lá ir, nem a esquecer esses tempos vividos em África, num sítio onde apenas havia um cemitério. E ainda há o mesmo cemitério. M.R. voltou sim foi à “metrópole”, como nessa altura se chamava ao que hoje se chama “Portugal continental” — para diferenciar esta parte das regiões autónomas dos Açores e da Madeira, então províncias insulares. Mas pelo que percebi, há uma parte de M.R. que nunca mais partiu de lá, tamanha é a saudade, tão forte é a curiosidade em saber desse lugar...
Esse lugar chama-se Quimaria e não é mais do que uma aldeia perdida nos confins da província do Uíge, no norte de Angola. Quando M.R. lá chegou, esse era apenas o nome do aquartelamento onde se instalou a tropa portuguesa. Para além dos militares, não havia vivalma por perto. Foi em lugares como este, dominados por colonos que detinham grandes fazendas, onde se cultivava café e muita fruta — sobretudo citrinos —, que ocorreram os primeiros combates daquela que se tornaria conhecida para a história como “Guerra Colonial” portuguesa, no iníco dos anos 60. Calhou a M.R. ser mobilizado para esse desterro. Volvidos quase 40 anos, M.R. reencontrou Quimaria neste blog, onde deixou um primeiro comentário, colocando algumas questões, cuja resposta suscitou mais perguntas, mais contactos, até que acabou por contar que nunca recebeu qualquer pensão por ter sido militar nessa guerra, mas é provável que venha a receber. E se conseguir isso, M.R. não quer ficar com o dinheiro. É certo que não será muito, pois estima que sejam cerca de 140 euros por ano. Não é muito, mas pode ser uma fortuna para quem não tem nada. É assim que M.R. pensa. A sua ideia é devolver esse dinheiro ao lugar onde o terá ganho, há tantos anos: Quimaria. M.R. gostaria de entregar essa verba, todos os anos, a uma criança de Quimaria. E perguntou-me o que achava desta ideia, bem como se conseguia estabelecer os canais para encontrar o destinatário do seu subsídio, nessa aldeia angolana, tão remota.
Prometi que ia pensar e que tudo faria para ajudá-lo a concretizar esse desejo. Na realidade, talvez até conseguisse arranjar um portador suficientemente honesto para lhe confiar 140 euros e encarregá-lo de ir a Quimaria oferecê-los a uma criança. Mas, a partir daí, nada me garante que esses 140 euros não fossem logo convertidos numas grades de cerveja, que o pai dessa criança iria beber até cair para o lado e esquecer-se que tem filhos para criar. Com sorte, a mãe havia de gastá-los a comprar arroz, feijão, umas galinhas ou mesmo um porco para engordar e mais tarde tirar a barriga de misérias. Não que haja fome por aquelas bandas, mas ninguém cresce saudável a comer apenas funge temperado com molho de dém-dém... Mas o banquete não duraria muito tempo. Aqui, em Portugal, esses 140 euros nunca chegariam para sustentar um ano escolar a uma criança, mas lá, em Quimaria, onde já não existe nenhum quartel militar, mas onde foi construída uma escola primária, essa verba chegaria para comprar material escolar para muitas crianças, durante um ano inteiro. Sempre seria mais justo aplicar os 140 euros numa turma inteira, do que aplicá-los numa única criança. Mesmo que talvez fossem melhor investidos numa só criança, que tivesse potencial para “ir longe e ser alguém na vida”, como se diz. Talvez. Mas isso não seria justo para as outras crianças. A menos que os 140 euros se multiplicassem. Vou também pensar nisso...


Ao olhar para tantas crianças custa ter de escolher uma delas para investir um subsídio. Mais vale repartí-lo entre todas e aplicar o dinheiro em, por exemplo, material escolar, que com jeitinho chega para um ano inteiro.


Ao grupo da imagem acima podíamos chamar as "Mães de Quimaria"; ao contrário das de Bragança, que foram capa da revista norte-americana Time há alguns anos, quando se associaram para fechar um "antro de pecado" frequentado pelos seus maridos infiéis, estas são mesmo mães, até porque crianças é o que menos falta. Aliás, algumas mães quase que se confundem com as crianças, tão jovens que são...


Mandioca a secar em tabuleiros de canas. Nestas paragens, como em quase toda a África negra, a mandioca é um dos pilares fundamentais da alimentação. Para os lados de Quimaria não vimos sinais de fome, o que não quer dizer que a população ande bem alimentada. E são as crianças aquelas que mais sofrem da má nutrição.


Mata densa junto ao caminho de Quimaria para Toto. Serpenteando por entre colinas e vales, este troço do caminho continua como nos anos 70: cheios de buracos, alguns tão fundos que parecem suficientes para engolir um jipe.


Mais um dia que chega ao fim em Quimaria. Neste dia, como em tantos outros, o sol desapareceu sob um céu salpicado de nuvens, que ficou alaranjado até escurecer.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


O próximo é que vai ser...

ATÉ PARA O ANO!

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Despedirmo-nos com um "até para o ano!" não tem, necessariamente, de ser um sinal de distanciamento. Sobretudo quando o dizemos três horas de virar a última folha do calendário. Para a esmagadora maioria das pessoas, é o momento do ano. É o momento mais esperado do ano. Amanhã é que vai ser! Tudo vai mudar! — tentam convencer-se, quase sempre sem convicção nenhuma. Hoje, quando me despedia dos almoços de 2009 com um esplêndido Cozido à Portuguesa — por incrível, é a maior e melhor sucedida das especialidades de um restaurante angolano que há na rua do meu escritório, secundado por uma feijoada...à brasileira — na dança por entre as travessas do bufete, não consegui deixar de escutar o comentário de uma senhora à sua amiga, bem elucidativo da fé que quase todos temos no futuro: "O que me vale é que este ano está mesmo a terminar" — dizia ela, prosseguindo — "Amanhã começo uma dieta. Estou com os níveis de colestrol altíssimos e tenho de perder cinco quilos. Esta semana é a segunda vez que venho aqui ao Cozido...". Eu só fui uma e não faço dieta nenhuma, mas sei tão bem como ela que enquanto as dietas só começarem amanhã, nunca perderá esses cinco quilos, porque amanhã será sempre isso mesmo: amanhã. Com os anos, não é bem amanhã. É para o ano. Temos um pouco mais de tempo, mais margem de manobra. Podemos vir mais umas vezes ao Cozido e até repetir o prato, carregá-lo com aqueles enchidos tão saborosos quanto venenosos, porque para o ano acabou-se, vamos fazer dieta. Ou vamos trabalhar mais, vamos deixar de mentir — abrindo apenas uma honorável excepção para as situações misericordiosas, porque não há regra sem excepção — vamos deixar de fumar, vamos tornar-nos tão puros como os três pastorinhos de Fátima, que até tinham um cão, um caniche vagabundo, que só há pouco tempo se descobriu que era o célebre e tão enigmático quarto segredo de Fátima. Vamos isso tudo... para o ano. E como tudo isso só vamos fazer para o ano, podemos até aproveitar para adiantar mais algumas promessas, porque não custa nada dizer que para o ano é que vair ser! Programamos para o ano aquela mudança em que tanto pensamos, mas não temos coragem de fazer, prometemos mudar de vida, para o ano. E o sucesso? Para o ano é que vai ser, porque este não valeu nada — desculpamo-nos com tanta frequência. É um alívio saber que haverá sempre um "para o ano". Porque até lá, vale tudo e mais alguma coisa. E nenhuma coisa vale alguma coisa, porque a sério, vai ser para o ano! Mas, claro, todos sabemos que se quisermos realmente fazer dieta, mudar a nossa vida, parar de fumar, acabar de estudar, arranjar outro emprego, não interessa o quê, não podemos esperar até para o ano. Temos de decidir agora. Não para o ano. Mesmo que só faltem três horas para isso acontecer! Mas para isso, temos também de ter coragem e força, muita força. É mais fácil dizer que temos medo, que não temos força. Bem mais fácil...

terça-feira, 22 de dezembro de 2009


Nem que seja porque é Natal...

É TEMPO DE SORRIR!

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Não se sorri por decreto. Tem de se ter motivo para isso! Pode ser porque houve um reencontro feliz, como o de uma família que se volta a juntar para pôr termo a uma ausência, ou simplesmente um encontro inesperado que parecia um sonho nunca acreditado entre um jovem e o seu ídolo da televisão. Pode até ser uma asneira, que nos divertiu ao invés de nos deixar zangados, ou até mesmo uma piada, daquelas em que o difícil é não sorrir. Mas também acontece... É verdade que há momentos em que não é fácil sorrir; são aqueles em que não conseguimos deixar de pensar nas coisas más da vida, e há tantas na vida de tanta gente. De toda a gente. Porém, é precisamente nesses momentos que devemos fazer um esforço para sorrir, nem que seja para trazermos à memória as coisas boas que já nos aconteceram; por muito poucas que tenham sido, não haverá ninguém que nunca tenha tido nada de bom na sua vida. Recuperar essas boas recordações é como que sonhar acordado, mas não só nos livramos de pesadelos, como acabamos por sorrir, mesmo quando já pensamos que nada nos fará sorrir...

É uma família feliz. Podem crer que sim, todos estes sorrisos não se esgotaram no momento da pose para a fotografia!...

Alexandre, um conhecido apresentador da televisão angolana, foi descoberto por um fã, que não resistiu a tirar um retrato. Um sorri satisfeito pela sua popularidade, outro por ter dado um abraço ao seu ídolo, que foi devidamente registado para a posteridade.

De tanto enfiar o chapéu pela cabeça abaixo, acabou por rasgar-se. Mas nem por isso o sorriso se perdeu.

A anedota era boa, mas nem todos temos o mesmo sentido de humor...