sábado, 4 de julho de 2009


Um amanhecer imprevisto no mato
ACORDAR NUM CEMITÉRIO!

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Felizmente, raras vezes entrei num cemitério e a maior parte delas foi por motivos puramente turísticos, como aconteceu em Manila, nas Filipinas, onde há uns anos, de uma assentada visitei dois: o dos chineses, que parece um enorme condomínio fechado de moradias, pois os jazigos da ala das famílias mais ricas parecem autênticas moradias, cada qual mais extravagante que a outra, e o dos americanos, onde milhares de cruzes brancas se alinham na perfeição num imenso campo relvado que se estende por colinas que ondulam levemente até um enorme paredão onde estão inscritos, em letras pequenas, os nomes de todos os que morreram a combater pelos Aliados nas batalhas que flagelaram a ilha de Luzón durante a Segunda Guerra Mundial - e foram mesmo muitos, ou esta então colónia norte-americana não tivesse sido invadida de surpresa horas após o fatídico ataque a Pearl Harbour, tendo sido também o cenário onde se travaram os derradeiros combates com os japoneses, momentos antes da rendição ter sido assinada. Ainda há poucos meses, em mais uma visita a Buenos Aires, voltei a passear tranquilamente no cemitério da Recoleta, um jardim de pedra que está recheado de construções do estilo Art Deco que são dignas de ser admiradas. Mas, confesso, nunca me passou pela cabeça adormecer num cemitério, quanto mais acordar. É, aliás, o último lugar onde esperamos que um vivo possa acordar. Aconteceu-me no decurso desta longa expedição através de Angola, quando a noite chegou muito mais cedo que o final do percurso reservada à quinta etapa do Raid T.T. Kwanza Sul. Naquele momento, a minha Nissan Hardbody era o penúltimo veículo de uma coluna e sabia, pelas comunicações rádio trocadas entre todos, que a caravana estava fragmentada em três grupos. Ainda antes de anoitecer, tínhamos passado por uma pequena aldeia e estimávamos alcançar a todo o momento Quimaria, a povoação mais importante desta zona, no extremo ocidental da província do Uíge. Não chegámos a entrar nesse dia em Quimaria, pois quando pela enésima vez os carros da frente ficaram atolados em lama, o líder da caravana baixou os braços e deu instruções para desligarmos os motores e esperarmos onde nos encontrassemos até que o dia voltasse a nascer, para só retomarmos a marcha com luz diurna. A prometida cama confortável com lençóis lavados e um duche retemperador antes do merecido jantar no Uíge já eram ilusões perdidas. Perdidas e amaldiçoadas pelo jejum que se prolongava e pelas perspectivas de uma noite mal dormida, apertado nos bancos da pickup e a sentir-me ser devorado por enxames de mosquitos que pareciam ainda mais esfomeados que eu. Com o escurecer, o mato à nossa volta encheu-se de ruído, como se fosse um concerto mágico dado pela bicharada que nos rodeava. Ouvir esses sons fez esquecer a fome e embalou-me no sono, deixando-me dormir até que, ao amanhecer, voltei a escutar a mesma sinfonia, acordando no meio deste semi-silencio, minutos antes do rádio se fazer ouvir, quando um dos companheiros avisou, maliciosamente, toda a gente que já eram cinco da manhã. Ao levantar a cabeça, assim que espreitei pela janela tive uma visão que, por instantes, me fez pensar que ainda estava a dormir e o que via eram as imagens de um sonho a passar-me pela mente. Mas não, era tudo verdade: aquela clareira onde tinha estacionado umas horas antes, quando o chefe anunciou que a jornada estava terminada, era mesmo um cemitério! Acordei onde normalmente todos desfrutam do sono eterno e devo dizer que me senti muito bem. Se por ali havia almas penadas, não quiseram nada comigo. Até os mosquitos acabaram por abandonar-me, concedendo-me tréguas. Claro que não foi um despertar normal, mas no meio daquele calor e humidade, não dispensei o pequeno luxo de tomar um belo banho, com direito a lavar o cabelo com champô, gastando menos uma garrafa de litro e meio de água. Saí dali mais limpo que ninguém. Pelo menos o corpo...
Dois quilómetros e duas horas depois, entrámos triunfantemente em Quimaria, onde estacionámos em frente da casa do administrador do município, no meio de uma multidão que aplaudiu ruidosamente os forasteiros. O caminho para o Uíge ainda era longo, muito longo mesmo para que acreditassemos que ainda chegaríamos lá antes de terminar este segundo dia de marcha. Desta vez, ninguém arriscou mais apostas, até porque se anunciavam muitos atoleiros pela frente.

Há muitos, muitos anos que não chegava a Quimaria uma caravana de veículos tão numerosa, nem com tantos estrangeiros. Não foi o regresso dos portugueses a estas paragens perdidas nos sertões angolanos, em terras do Uíge, mas apenas uma passagem que, provavelmente, será recordada por muito tempo.



Com as crianças de Quimaria. Eram tantas que só algumas couberam na foto.

30 comentários:

  1. Como todas as experiencias são sempre uma apredizagem, acordar num cemitério não deixa de ser orinal.

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  2. Enquanto para alguns isto seria um castigo, você parece gostar - e muito - dessas aventuras. Admiro você. E muito bem escrito o seu relato, me senti vivendo a sua cena, parabéns. Confesso que eu também gosto de passear pelos cemitérios, mas dormir lá já é demais! bjs!

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  3. Olá Isabel, olá Gui!

    Obrigado pelas mensagens. Como calculam, não escolhi o local para passar essa noite. Simplesmente aconteceu e na manhã seguinte, quando descobri que se tratava de um cemitério, acabei por divertir-me com isso, até porque um companheiro de viagem estava bastante assustado com a noite e com os ruídos da selva que se soubesse o que estava ali teria morrido de susto. A Isabel conhece-me pessoalmente há longos, longos anos e sabe a minha paixão por estas aventuras. Mas a Gui, pelo que vi no seu blog, também é uma aventureira. Continue a contar-me as suas histórias, que eu também gosto muito de ler os seus textos. Beijos!

    Alexandre Correia

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  4. Foi difícil conter uma pontinha de inveja por todas essas aventuras, mas especialmente pela oportunidade de conhecer outros locais e costumes. Deve ser extremamente gratificante podermos fazer algo que nos dê prazer, como parece o caso. Também eu um dia tive esse mesmo sonho de ser jornalista mas por uma ou outra razão o futuro reservou-me caminhos bem distintos e menos românticos, bem mais próximos do tema de um dos seus outros blogues. Assim, não tanto por capricho, mas mais como uma necessidade criei um blogue, onde dou vazão à minha necessidade de escrever. Obrigado pela visita. Prometo continuar atento a cada nova aventura. Um abraço.

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  5. Eu concordo com a amiga Isabel, acordar num cemitério deve ser de facto muito "orinal"!!! Se acontecesse comigo, eu "orinava-me" todo!

    (Querida Isabel, não leve a mal, quem me conhece sabe que eu sou um brincalhão! E fazer chichi é uma das minhas especialidades. Quando vi a sua gralha, aproveitei logo!)

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  6. Está linda a fotografia a preto e branco com fundo a cores. O que fazem estas novas tecnologias... no meu tempo era tudo mais complexo

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  7. QUIMARIA: Mas que grande confusão vai pela minha cabeça. Eu estive em Quimaria no serviço militar (zona do Tôto),durante 7 meses em 1971.Ora, para além das instalações maravilhosas do aquartelamento, havia apenas um cemitério. Vestígios de população viva ou de habitações não existiam. Será que falamos da mesma Quimaria?. Depois de ver os programas da guerra colonial na TV penso que, a ser a mesma Quimaria, a população terá sido deslocada ou varrida com a aldeia pela aviação com napalm. Terá a população voltado ao local reconstruindo Quimaria após a guerra??. Uma coisa é certa, se havia cemitério houve lá um povo. Agradeço antecipadamente ajuda para esclarecer a minha dúvida, Amílcar Rosário

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  8. Caro Amílcar,

    Sim, tem toda a razão. Estamos a falar da mesma Quimaria! Fica a cerca de 48 quilómetros de Tôto, o que nesta viagem que tenho vindo a contar significou um dia inteiro de marcha, pois a picada estava num estado lastimável, o cansaço já era por demais e nem sempre os condutores estavam à altura do desafio.
    Agora, Quimaria é uma aldeia, bastante populosa até. E o cemitério continua lá. Foi onde passei uma noite, aliás muito tranquila, conforme conto num dos textos anteriores. Espero que tenha ficado satisfeito e, já agora, conto consigo para passar esta mensagem e divulgar o blog junto de outros interessados.

    Um abraço,

    Alexandre Correia

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  9. Caros,
    Adorei ver essas fotos,também por ai andei em 1971,como conductor da companhía 2695,lembro-me do cemitério junto ao antigo aquartelamento,
    assim como de um outro muito original, afastado alguns km do local,quanto as picadas era o pão nosso de cada dia principalmente em tempo de chuvas, só não havia seres humanos alem dos militares e de algum assalariado,que connosco trabalhava.

    um abraço,

    Antonino Pereira

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  10. Caro António Pereira,

    Pois também eu passei por essas picadas ainda as chuvas andavam por perto. Como pode ver pelas fotos, a pista estava alagada e os buracos feitos pelos camiões tornaram-se verdadeiros atoleiros de lama. Não foi fácil percorrer esse longo caminho desde Ambrizete ao Uíge, mas garanto-lhe que esta viagem deixou recordações para o resto da vida. Tal como a sua passagem por estas terras angolanas também me parece que o marcaram...

    Abraço,

    Alexandre Correia

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  11. Quando cheguei a Quimaria em 1971 era só um Quartel com cerca de 140 homens. Quando deixei em 1973 Quimaria e fui para Bessa Monteiro, ficou lá outros 140 homens ( uma companhia). Será que estamos a falar dum quartel situado entre o Toto e Bessa Monteiro e também próximo de Kibala? Um abraço

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  12. Caro Anónimo,

    Acertou em cheio! Estamos sim a falar desse mesmo quartel entre Toto e Bessa Monteiro, por onde diz ter assentado praça entre 1971 e 1973. Hoje, ao longo dessa estrada nasceram algumas aldeias e onde outrora havia os aquartelamentos da tropa portuguesa, agora só vive população civil. A picada que nos fez passar por lá, vindos da antiga Ambrizete em direcção ao Uíge, essa sim, parecia não ter manutenção desde que os militares portugueses partiram, tão mau era o estado em que se encontrava. De resto, deixe-me dizer-lhe que a região permanece linda, talvez mesmo muito parecida com o que viu enquanto por lá andou, pois continua a ser uma região muito, mas mesmo muito isolada.

    Abraço,

    Alexandre Correia

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  13. Amigo Alexandre:
    Obrigdo pela informação anterior. Registo com muito agrado saber que Quimaria não foi emgolida pelo capim!-Seria possível saber mais de Quimaria?-Tem algum contacto que me possa fornecer?
    Um abraço
    Manuel Ribeiro

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  14. Caro Manuel Ribeiro,

    Talvez consiga sim saber algo mais sobre Quimaria. Diga-me, em concreto, o que gostava de saber...

    Abraço,

    Alexandre Correia

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  15. Amigo Alexandre:
    obrigado pela sua disponibilidade.O que gostaria de saber, a fim de passar também a outros,seria: nº de habitantes, de que vivem, como se abastecem de água, se têm escolas, como estão organizados, religião e se possível uma ou outra fotografia (também posso fornecer foto aéra do então quartel-as ún
    icas instalações que aí havia-). Compreende..foram aí passados 1 ano e meio sem
    ver viva alma...
    Um abraço
    Manuel Ribeiro

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  16. Caro Manuel,

    Hoje, Quimaria é a sede de um município da província do Uíge. A população, toda civil, pois já não existem instalações militares, é bastante numerosa, contando umas centenas bastante largas, maioritariamente jovem como, de resto, em toda a Angola. Para lhe dar uma ideia, cheguei a estar rodeado por mais de uma centena de crianças e algumas dezenas de jovens mães com bebés ao colo! Pelo que me apercebi, ali vive-se de uma agricultura de subsistência, no centro da povoação, provavelmente onde eram antigamente os aquartelamentos portugueses, há uma fonte pública para abastecimento de água, há pelo menos uma padaria meio artesanal, mas suficiente para abastecer a população e até alguns passantes surpresa, como nós. Há também escola primária, posto de administração municipal e até uma grande antena parabólica, que permite receber o sinal de televisão! Quanto às imagens, vou procurar mais algumas e logo o aviso.

    Abraço,

    Alexandre Correia

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  17. Amigo Alexandre: Obrigado pela atenção que me tem dispensado.Nunca recebi qualquer pensão por ter sido ex-militar, o que não tem acontecido com outros ex-militares, mas gostaria de, quando tal se vier a verificar, entregá-la anualmente (Mais ou menos 140 Euros)a uma criança de Quimaria. que me diz?
    Um abraço
    Manuel Ribeiro

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  18. Caro Manuel,

    Esses 140 euros anuais talvez sejam melhor aplicados, por exemplo, a subsidiar um projecto de vacinação de crianças, do que a aplicá-los numa só. Porque, muito provavelmente, se conseguisse que o dinheiro chegasse a mãos sérias que o usassem para melhorar as condições de vida de uma criança, o mais certo é que isso fosse gerar diferenças, nada convenientes nem justas. Mas, se usar essa verba a vacinar crianças, não só estará a contribuir para uma das poucas coisas verdadeiramente úteis que tão escassos recursos permitem fazer, como a sua acção irá alargar-se a 28 crianças. Já imaginou que um pequeno gesto como o que propõe poderá ser determinante para garantir a sobrevivência de tantos miúdos? É que, convém não esquecer, os índices de mortalidade infantil em África, e Angola não é excepção, continuam elevadíssimos e a vacinação é um dos factores que contribui para inverter as estatísticas. Pense nisso e, claro, vamos mantendo o contacto.

    Abraço,

    Alexandre Correia

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  19. Amigo Alexandre:
    Obrigado pela sua opinião. Quando o assunto se vier a concretizar (houve a promessa para outubro passado), voltarei a pedir a sua ajuda.
    um abraço
    Manuel Ribeiro

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  20. Caro Manuel,

    Fiquei a pensar na sua proposta e como ela já está tão exposta nas várias mensagens que trocámos, e que são públicas, pois estão disponíveis para leitura no blog, decidi contar a história de uma forma mais visível, tornando-a num dos temas do próprio blog. Espero que aprecie, a história e mais algumas imagens de Quimaria, dos arredores e da sua gente.

    Abraço,

    Alexandre Correia

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  21. Amigo Alexandre:
    Ok, fico a aguardar.
    Um abraço
    Manuel Ribeiro

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  22. Ola boa noite
    Tenho lido com interesse, a sua viagem ,e passagem por quimaria.
    a minha companhia foi a ultima a utilizar o quatel já em 1974.fomos render uma compainhia do continente, que salvo erro tiveram 3. ou 4 mortes, perto da zona de Luaia ??
    gostava muito de ver como está a zona, porque no meu tempo não havia civis, os mais proximos estava no Tôto, quibala, ou bessa monteiro
    se for possivel , mesmo aqui no seu bloge, ficaria grato
    aguiar nunes
    companhia madeirense 4947

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  23. Caro Aguiar Nunes,

    Convido-o a visitar mais demoradamente este blog, pois encontrará, com certeza, muitos dados sobre a actualidade dessa região, por onde andou em 1974. Seja como for, adianto-lhe que já não há militares em Quimaria, mas sim muitos, mesmo muitos civis. Toto, Quibala e Bessa Monteiro continuam a ser lugares mais populosos, mas Quimaria renasceu com a partida dos militares. E, de resto, acredite que toda essa zona continua linda como, aliás, pode ver pelas fotos que tenho vindo a publicar. O texto mais recente do blog é, precisamente, ilustrado com imagens de Quimaria e da estrada daí para Toto e para Bessa Monteiro, ou seja, num sentido e no outro. E sinta-se à vontade para perguntar o que quiser!

    Abraço,

    Alexandre Correia

    PS - Pela companhia que integrou, já percebi que somos conterrâneos. O meu Pai era do Funchal, pelo que eu, embora seja de Lisboa, tenho "costela madeirense", como se costuma dizer...

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  24. Ola boa noite
    Obrigado pela sua resposta, que agradeço.
    ainda bem que muito mudou em quimaria, lugar que gostaria de vesitar um dia, quem sabe ?
    se por acaso alguem quizer ver quimaria , com era á muitos anos, posso por algumas que tenho do quartel.
    obrigado pela atençao.
    felicidades para o seu blogue
    aguiar nunes

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  25. Caro amigo,
    referente ao comentário de 24/01/10 todos os ex camaradas que por lá passaram gostariam de ver as fotos de quimaria, já sabemos que não terão a qualidade das do amigo Alexandre, mas o que importa é rever o local. Como diz o poeta lá longe, onde o isolamento castigava mais não houve suspiros nem ais, mas sim coragem e valor. Quanto aos que partiram paz às suas almas e respeito pela sua memória. Saudações cordiais para todos os que por aqui passarem, um ex militar da companhia 2695.
    Antonino Pereira

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  26. Caro amigo Aguiar Nunes.

    Fiquei contente ao teu comentário a Quimaria por hoje ser habitada em relação quando da nossa estadia na c.caç.4947.
    Relembro que a nossa saída de lá foi a 08/12/1974.
    Um abraço do amigo Silva ex.: fur. mecánico.

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  27. Encontrei por acaso este blog e perdi-me entre os seus textos e comentários. Sempre que de Angola se trate o meu olhar, o coração e a alma ficam prisioneiros de um tempo e de uma Terra que me teve entre finais de 1965 e início de 1968, como militar do exército português.
    QUIMARIA e sobretudo a sua GENTE, que as fotos documentam, deixaram-me de tal modo emocionado que não pude impedir que algumas gotas salgadas brotassem de meus olhos já cansados e doentes. Como é bom ver aquelas paragens povoadas de GENTE LIVRE, SENHORA DE SI PRÓPRIA E ACREDITANDO NA ESPERANÇA! Sabia que em QUIMARIA e arredores, a caminho de TÔTO a população já ultrapassa os sete milhares de almas. Mas olhando os rostos dessa GENTE, ainda que atrvés de fotografias, é cativante.
    Passei por QUIMARIA inúmeras vezes, durante os 14 meses que permaneci no quartel de QUIBALA. Tempo e zona difíceis e perigosos. Por lá perderam a vida dezenas de militares portugueses.
    Quanto ao cemitério a que se refere o Caríssimo Alexandre Correia,creio que é o de QUIMAVAIS, situado perto do entroncamento da picada que dali parte para QUIBALA e continua em direcção à ponte de Freitas Morna, sobre o Rio Loge, já perto de AMBRIZ.
    Também conheço um curioso episódio passado nesse cemitério com um pelotão de militares. Lá pernoitaram, sobre o seu chão, e de manhã, antes de continuarem a progredir, na sua missão, atearam o fogo ao capim que cobria todo aquele espaço. Foi então que descobriram onde tinham dormido.
    Vou divulgar este precioso blog, inclusive dá-lo a conhecer a um Amigo angolano emigrado em França, cujos pais vivemneste momento em Quimaria.
    Bem haja, Amigo Alexandre Correia,pelo que nos mostra.
    Sérgio O. Sá

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  28. Caro Sérgio,

    Quando passei em Quimaria, há cerca de dois anos, já tinha uma ideia muito concreta da actividade militar que por ali se desenrolou nos anos 60, pois um dos companheiros de viagem cumpriu os seus três anos de serviço militar nessa área. O que não imaginava é que tanta gente tivesse guardado recordações para toda a vida desse período. Inocência milha. Afinal, eu próprio guardo recordações que me acompanham desde que prestei serviço militar em Santa Margarida, entre 1985 e 1986, mesmo sem nunca ter experimentado as dificuldades e momentos de tensão próprios de quem vive uma temporada num cenário de conflito armado.

    Um forte abraço,

    Alexandre Correia

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  29. Caríssimo Alexandre Correia
    De facto as campanhas de África dos anos 60/70 não deixaram indiferente quem nelas participou. Mas ANGOLA foi um caso especial. É difícil encontrar alguém que não tenha sido marcado pela sua passagem por lá. Infelizmente muitos não se esquecem disso pelas mais funestas razões. Mas de um modo geral, quem voltou ileso de danos físicos e/ou psicológicos, mesmo que a vida lhe tenha sido difícil, mesmo que por lá tenha comido do "pão que o diabo amassou", jamais se desprendeu daquela Terra.
    Foi o meu caso. Mas não só a Terra. Também as suas Gentes, perdidas na lonjura do seu sertão, contribuiram para isso, pela sua inocência e autenticidade.
    Fosse eu mais novo e a saúde me deixasse, que ainda haveria de lá voltar.
    Caro Alexandre, diga-me via e-mail (ver meu blog TORRE DE TERRA)para onde posso enviar-lhe algo sobre a minha passagem por Angola como militar.
    Um abração.
    Sérgio O. Sá

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  30. Amigo Alexandre Correia:
    Só agora cheguei e vi, noticias sobre Quimaria. Cheguei a Quimaria em Junho de 1966 onde só havia um projeto de aquartelamento militar.
    Foram 6 Meses difíceis de permanência onde nem água havia.Mas começamos a aperceber que era uma zona que teria sido muito habitada pelos restos de casas e Cemitérios de Km em Km Por isso não estranho que a população tenha voltado depois da guerra, o que me deixa feliz. Mas ficaria mais se um dia pudesse voltar a ver aquelas paisagens maravilhosas, aqueles laranjais a caminho do Toto
    Aquela fauna, Pacaças, gazelas, burros do mato etc.
    Gostaria de saber mais.

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