quinta-feira, 6 de agosto de 2009


Ao Acordar na Encantadora Fazenda Cabuta
DELÍCIAS DE UMA BELA NEGRA


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]


Em cima, o terreiro onde são espalhados os bagos de café para secarem ao sol, depois de colhidos. Em baixo, pormenor de um recanto do jardim junto à capela, num recanto isolado da fazenda.

O português é uma língua muito traiçoeira e nem sempre o que parece é. Neste caso, lamento desiludir quem imaginava que eu ia aqui contar uma história de alcova, daquelas que às vezes se contam ao ouvido do melhor amigo, que depois a repete ao melhor amigo dele e por aí adiante, até rapidamente voltar ao nosso ouvido, pela confindência de outro amigo. Não, não vou revelar nenhum desses segredos que se espalham à velocidade com que um fósforo arde, porque Bela Negra é apenas... o nome sugestivo para o café robusta produzido na Fazenda Cabuta, enorme propriedade agrícola que se estende por cerca de 10 mil hectares de colinas verdejantes, forradas de cafezais e palmares. A não mais de meia hora de condução da vila de Calulo, sede de um dos municípios da província angolana do Kwanza Sul, a Cabuta é hoje considerada uma fazenda modelo para o programa de relançamento da produção de café em Angola, que depois de ter atingido um pico de 3,5 milhões de sacas em 1973, desceu até umas míseras 15 mil sacas de 60 quilos em 2004. Antes de ser ultrapassado pelo petróleo, em 1972, o café era o líder das exportações angolanas e se é certo que o "ouro negro" continuará ainda por muitos e longos anos a manter esta posição, também não é menos verdade que as autoridades angolanas têm vindo a manifestar o maior interesse em reconquistar um lugar com relêvo no mercado do café, prevendo que no final de 2009 se atinjam já as 200 mil sacas, das quais cerca de 9 mil deverão ser provenientes da Cabuta.
Para um apreciador de café como eu, foi uma agradável surpresa descobrir esta fazenda, recentemente reconvertida numa unidade de agro-turismo com 45 quartos distribuídos por cinco pólos, desde a casa principal apalaçada a anexos construídos propositadamente para a actividade hoteleira, passando por edifícios adaptados, como algumas casas que no tempo colonial eram residências dos funcionários da administração da propriedade. Cheguei de noite e no meio da escuridão mal consegui imaginar que mais do que o café, bela é mesmo esta fazenda. Pela manhã, claro que não dispensei algumas chávenas de Bela Negra, forte e de sabor intenso, mas imperdível foi mesmo o passeio pelos caminhos da fazenda, rolando alguns quilómetros entre alamedas de palmeiras enormes, geometricamente alinhadas ao longo das bermas, fornecendo a necessária sombra para proteger o cafezal do sol. Curiosamente, talvez não tenha sido por acaso que o encarregado da fazenda veio do Brasil, ou o maior país lusófono não seja o líder mundial inconstestado na produção de café desde que há registos , já lá vão cerca de um século e meio!

A combinação das actividades agrícola e turística permitiu abrir ao público uma das mais belas fazendas de café da região do Libolo. E quem tiver um todo-o-terreno, pode partir dali à descoberta de caminhos que levam ao encontro de paisagens incríveis, como espreitar o Cuanza do alto de uma falésia, ou descer ao rio junto à Ponte Filomeno da Câmara, construída em 1932 e hoje meio perdida das rotas mais usuais.

Um dos velhos armazéns da fazenda, com enorme telhado em chapa e paredes abertas para o ar se renovar com facilidade. Embora a fazenda se encontre a uma altitude considerável, atingindo os mil metros nos pontos mais altos, ali também se sente quando o calor aperta.

Vendedora percorre o bairro dos trabalhadores da fazenda com um cabaz de peixe seco do rio Cuanza à cabeça. Ao final da manhã, o cabaz já está vazio e em muitas casas será esse o prato principal do almoço...



Os 10 mil hectares da Fazenda Cabuta são recortados por quilómetros e quilómetros de caminhos de terra, quase sempre enquadrados em alamedas de palmeiras, que não só asseguram a necessária sombra para proteger os cafezais, como permitem complementar a actividade agrícola com a produção de Dendém, o famoso óleo de palma, indispensável no tempero da cozinha africana e asiática.

13 comentários:

  1. Embora o México seja o sexto maior produtor de café do mundo, o povo mexicano não tem por hábito saborear esse “ouro negro” numa manhã fresca e soleada com umas torradinhas barradas com manteiga a acompanhar, ou depois de uma boa refeição. Aliás, já recebi vários comentários, em tom de gozo, por tomar café em dias de calor (alegam sempre que com este calor não há nada melhor do que "un cocon", o "elixir mexicano" conhecido como coca-cola). Na verdade, e certamente em grande parte pela influência dos E.U.A., o café que normalmente se consome numa confeitaria ou restaurante no México é o típico “café americano”, aguado e de sabor "suave" (para não usar outro adjectivo e deixar de ser simpática). Que vontade de provar essa "Bela Negra, forte e de sabor intenso"! Mas aqui com a minha cafeteira italiana e a variedade de bom café produzido nas terras tropicais do México (desde Veracruz, a Oaxaca e Chiapas) passa-se muito bem!

    Abraço,

    Silvia

    PS. Fotos muito bonitas!

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  2. AMIGO!!!!

    1) Se divulgares a Regata aqui no teu blogue adito-te à Lista de Amigos que têm a gentileza de divulgar a Regata)

    2) Ainda não se inscreveram!!!

    3) Os meus ioghurts???

    ;-)

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  3. Olá SM!

    Tem de explicar aos seus amigos mexicanos que a sede não se mata com bebidas frescas, mas apazigua-se muito mais com bebidas quentes, como o café, ou o chá. Este último é o grande "alimento" dos povos do Sahara, que passam os dias a beber chá de menta, designação para uma infusão de água fervente com folhas de hortelã, a que adicionam uma monstruosidade de açúcar, por forma a matarem a sede e ganharem energias facilmente. O café não é tão simples de fazer nem tão acessível de comprar, daí ser menos popular nessas paragens desérticas; mas vai conquistando cada vez mais adeptos pelo mundo. Ao contrário do que sucedia há uma década, actualmente já não é difícil tomar café mesmo num local recôndito e os apreciadores incondicionais do café expresso também já não têm de sofrer como dantes, pois estas máquinas têm vindo a popularizar-se em todo o lado. Até no Brasil, o histórico líder mundial da produção de café (e para além da quantidade há também óptimo café) onde durante tantos anos era dificílimo que eu conseguisse beber um café que me deixasse satisfeito, ora porque sempre muito aguado, ora porque já lhe metiam açúcar até fartar (não suporto nem um grão, quanto mais colheradas dele...). Explique ainda outra coisa aos seus amigos aí: esse café aguado estilo americano é bastante mais forte, do ponto de vista de cafeína, que um expresso à italiana, bem curtinho. Basta pensar que num diluí cafeína num balde, enquanto que noutro só tomou uma pequeníssima porção. O forte das italianas é o sabor intenso e concentrado...

    Abraço,

    Alex

    PS - Sailor Girl, os iogurtes gregos foram desviados para uma missão humanitária, mas de onde vieram virão mais. Lamento não poder atravessar o Tejo num dos barcos tradicionais, mas estarei também envolvido numa missão humanitária, de máxima prioridade. Seja como for, em breve encontrarás a tão desejada visibilidade para a divulgar da Regata Atlântico Azul no Tejo!

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  4. Eu não sou uma grande apreciadora de café mas adoro o cheiro e a típica frase "Vamos tomar um café?" mesmo que não se tome café algum! Mas o nome Bela Negra é bonito demais.

    Beijos.

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  5. CORRECTO E AFIRMATIVO, «PATRÃO»!!!
    (depois avisa...)

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  6. Olá Bé!

    É um lugar comum tão agradável esse do "vamos tomar um café?", que até pode ser não tomar coisa nenhuma. Gosto tanto de uma coisa como da outra, pois essa frase é uma forma simpática de inventarmos um pretexto para encontrarmos alguém e, já agora, como aprecio café, porque não tomar mesmo um? Como disse no texto, na Fazenda Cabuta bebi vários, com aquele sentimento "directamente do produtor ao consumidor".

    Beijo,

    Alexandre Correia

    PS - Sailor Girl, podes crer que aviso!

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  7. Que desilusão de "Post", café, fazendas, e afinal a "Bela Negra" saiu-me uma banhada. E eu à espera de uma romançe a preto e branco, daqueles que acabam à facada... Não há direito, e o título é enganador, traduz má fé. Protesto.

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  8. Olá Gui!

    Pode crer que é um lindo lugar. Mas quando lhe mostrar imagens das roças de café em São Tomé é que vai ver, de facto, imagens únicas em beleza. E por aí, em Moçambique, o que há de encantador para além daquelas praias que toda a gente mostra, fala e comenta?

    Um beijo,

    Alex

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  9. Caro Luís Miguel,

    Eu sei que esses romances a preto e branco são um clássico português, mas neste caso quando confesso que me deliciei a saborear a "Bela Negra" estava a referir-me a chávenas de café. Quanto à má fé, isso seria se eu usasse expressões como "quente, gostosa, etc...". E, na verdade, esse café é isso tudo. Mas quanto a belas negras sem aspas, as mais bonitas que alguma vez encontrei foi uns milhares de quilómetros mais a norte, no Senegal, no Mali e arredores. Aí sim, é ver Naomis Campbell por todo o lado!...

    Abraço,

    Alex

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  10. olá amigo
    finalmente cá estou eu a enviar um comentário ahahaha
    Não tens noção do efeito que tem em mim as fotos daquela terra maravilhosa, quer aqui quer na revista, que só quem conhece entende.
    Fazenda de café…que saudades. Eu vivi numa fazenda de sisal perto do Cubal, Fazenda Fernando Alberto, que me deixou gratas recordações apesar de na época ser muito menina, mas o ambiente é, ou era, o mesmo. A casa apalaçada, as residências dos funcionários, etc.
    Conseguiste com a explanação que fazes e com as fotos, que eu tivesse a ilusão de sentir o cheiro delicioso daquela terra, que saudades!
    Bem hajas meu querido, que eu prometo continuar a apreciar o teu trabalho fantástico, agora que já sei como se faz…

    Bjs Lena

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  11. Olá Lena!

    É muita simpatia junta! Obrigado, eu também fico muito contente por ter até conseguido, como diz, sentir o cheiro delicioso daquela terra...

    Um beijo,

    Alexandre Correia

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