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quarta-feira, 29 de julho de 2009


Visita ao Passado das Memórias de Maria
LÁGRIMAS EM CAMABATELA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Perdida num planalto do interior, a cerca de 250 quilómetros de Luanda, a vila de Camabatela — sede do município de Ambaca, nos limites da província do Kwanza Norte, encostado à do Uíge — é uma terra igual a tantas outras que cruzam as estradas em Angola e quebram a sensação de isolamento tão presente nos itinerários mais longos e remotos. Mas não, Camabatela não é uma terra qualquer. É a terra que marcou a juventude da minha amiga Maria, que tanto dela falou que até eu, quando lá cheguei pela primeira vez, achei que já a conhecia. A vila desenvolveu-se e viveu próspera durante apenas duas décadas, contadas entre meados dos anos 50 e 70 do século passado. Rodeada por grandes fazendas de cafezais, esta povoação tornou-se num importante entreposto comercial, onde o café se negociava entre produtores e intermediários, mobilizando grandes romarias de gente, automóveis e camiões nos dias de mercado; as camionetas chegavam vazias de Luanda e cheias das fazendas, carregadas de sacas de sarapilheira a rebentar pelas costuras com grãos de robusta — a qualidade mais produzida nas plantações do nordeste angolano — e horas depois isso invertia-se quando partiam pelo mesmo caminho, não sem antes se fazer fila à porta de uma das duas dependências bancárias, estrategicamente instaladas uma em frente à outra, em esquinas da larga avenida principal, diante da igreja. Era nessa altura de grande riqueza e movimentação que Maria, uma das mais animadas participantes no 4º Raid T.T. Kwanza Sul, passava as suas férias em Camabatela. Uns dias antes de lá irmos, confessou-me que depois de passar por Negage teria de adiantar-se à caravana, pois este regresso, após tantos anos desde a última visita, não só precisava de tempo, como também de alguma tranquilidade, que não teria se chegasse ao mesmo tempo que a dúzia e meia de Nissan Hardbody e Patrol, com cerca de meia centena de expedicionários. Maria não conseguiu adiantar-se e quando estacionou a sua pick-up no fim da avenida principal da vila, mesmo ao lado da singular igreja — com um estilo que lembra a igreja da Mina de São Domingos, no Alentejo profundo, e evidenciando uma recuperação recente que lhe deu um colorido novo à fachada — havia já tanta gente por ali que parecia que o padre ia repetir a missa dominical, terminada pouco antes. O calor do meio dia fazia-se sentir e a sombra das árvores em frente à igreja foram rapidamente ocupadas; Maria nunca se tinha apercebido dessas sombras, pois as árvores só foram plantadas no decurso dos anos 60, precisamente no período em que ali gozou algumas das "férias grandes", como era costume chamar-se às férias no final de cada ano escolar. Maria não se cansou de contar-nos tudo o que se recordava de Camabatela, indicando o que era ali e acolá, identificando o que continuava na mesma, como o cinema, o clube, a esplanada no centro do jardim — a sofrer uma profunda obra de requalificação em Junho de 2009, 52 anos depois de ter sido criado —, o velho posto da Fina, agora transformado numa "bomba de gasolina" da Sonangol, claro, e até o restaurante onde ia com o tio, o PIF-PAF. De sorriso aberto, como sempre, Maria parecia ter regressado à sua juventude, como se ao voltar a Camabatela tivesse entrado na máquina do tempo. De repente, desatou num pranto e as lágrimas escorreram-lhe abundantes pela face. Estava na hora de continuarmos esta demorada viagem através de Angola e a chamada do líder da caravana fê-la despertar para a realidade...


A antiga dependência do Banco Nacional de Angola, em ruínas. Trata-se, contudo de uma excepção, pois a maioria dos edifícios da avenida principal de Camabatela — essencialmente moradias de um ou dois pisos — continua a uso.

A fachada do cinema de Camabatela e, ao lado esquerdo, o clube local. Foram ambos construídos em 1957 e resistiram bem a este meio século, tão conturbado em terras angolanas.

Na esquina das traseiras de um dos quarteirões da avenida principal, o PIF-PAF era e continua a ser um ponto de encontro privilegiado em Camabatela, mantendo a sua função de restaurante e snack-bar, assim como de hotel, com quartos no primeiro andar.

quinta-feira, 2 de julho de 2009


Enfrentar os lamaçais da pista N'Zeto/Uíge
TRABALHOS FORÇADOS
NOS LAMAÇAIS DO NORTE DE ANGOLA


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

A quinta etapa do Raid T.T. Kwanza Sul ficará para sempre na memória dos todos os que integraram esta caravana. Previa-se que fosse uma jornada dura, mesmo a mais difícil das 13 que compreenderam esta longa expedição através do norte de Angola. Mas nunca ninguém imaginou que fossem necessários dois dias inteiros e quase outras tantas noites para se alcançar o destino. Tudo porque choveu mais e durante muito mais tempo do que era suposto nesta altura do ano (final de Maio e início de Junho), inundando os caminhos, que nas zonas de vegetação mais densa e fechada tardaram em secar, tornando-se em verdadeiros atoleiros de lama, onde as 18 viaturas desta expedição ficaram presas repetidamente; tantas vezes que se perdeu a conta ao número de atascansos, que mobilizaram esforços contínuos, fazendo com que nos tivessemos sentido em trabalhos forçados. Literalmente!


Volvidos cerca de vinte quilómetros, a excelente pista de terra, larga e de bom piso, tornou-se num estreito corredor entre vegetação cerrada. Nestas condições, os primeiros 90 quilómetros foram cumpridos em meia-dúzia de horas, que desde logo mostraram ser impossível completar todo o itinerário — estimado em menos de 350 km — nas 12 horas previstas. Nesta altura, o pior ainda estava para vir...


Uma a uma, as pickups avançaram cuidadosamente pelos trilhos lamacentos. Muitas acabaram a ser rebocadas, num ritual que se repetiu vezes sem conta durante dois dias plenos de aventura. Foram jornadas desgastantes, mas que ninguém alguma vez esquecerá. Nestes lamaçais perdidos no norte de Angola, senti-me a reviver episódios semelhantes passados tantos anos antes em diversas das expedições do célebre Camel Trophy em que tomei parte: na amazónia, em 1992, foi assim durante dias seguidos, tal como um ano mais tarde nas selvas do sultanado de Sabah, no norte da ilha do Bornéu.


Em cima e abaixo, algumas imagens do troço mais difícil de todo o percurso. Os atascansos foram tantos que numa hora apenas se avançaram 300 metros. A tarde ía a meio e nessa altura faziam-se apostas entre a caravana quanto à hora de chegada ao Uíge. Os mais optimistas arriscavam a meia-noite, enquanto que muitos apostaram que ninguém chegaria antes das três horas da madrugada. Se alguém tivesse previsto essa hora um dia mais tarde, teria ganho, mas ninguém acreditou que o percurso se alongasse por dois dias inteiros e quase duas noites.




Durante longos quilómetros, a pista alternou passagens encharcadas como esta com troços lamacentos e mesmo terreno seco, nos pontos em que a vegetação abria e o sol facilmente secava a água das chuvas tardias que surpreenderam os participantes no 4º Raid T.T. Kanza Sul.


Nos trilhos enlameados e rasgados por sulcos profundos abertos pelo rodado dos camiões, as pickups só conseguiam passar pisando as bermas, mas a mínima escorregadela, tantas vezes tão inevitável quanto incontrolável, resultava num despiste. Felizmente, em tantos incidentes como o que a imagem documenta, só por uma vez não se resolveu ao fim de uns minutos de esforço colectivo. Foi quando o veículo de apoio mecânico, que seguia no fim da caravana, derrapou até tombar sobre um dos lados, imobilizando-se uns metros mais abaixo do trilho, com as rodas no ar. Para o recuperar foram precisos três dias de intenso trabalho e a caravana não esperou. O mais incrível é que a Nissan Patrol PickUp da TDA — o distribuidor da Nissan em Angola — não sofreu quaisquer danos, pois quando se despistou foi amparada pelo mato e acabou assente numa "cama" de vegetação espessa e lama.


O Toyota Land Cruiser da TV Zimbo — dotado de uma antena para transmitir imagens via satélite — foi uma das maiores vítimas das passagens enlameadas deste percurso. A preparação do veículo desta estação de televisão angolana observou inúmeros pormenores, mas ignorou um dos mais importantes quando se trata de rodar em trilhos de terra e estrada mal conservadas ou mesmo sem pavimento: os pneus! "Calçado" com os pneus próprios para estrada com que foi adquirido em Portugal, aventurou-se nos sertões angolanos com muito sacrifício...


Nem todos os atascansos foram penosos de resolver. Houve inúmeras situações em que bastou um empurrão para que as pickups deslizassem sobre a lama até que as rodas voltarem a pisar terreno firme e ganharem tracção para continuar a progressão.


A Nissan Hardbody da revista Todo Terreno tombada para fora da pista. Aconteceu por três vezes no difícil percurso que levou a caravana a demorar 44 horas a percorrer menos de 350 quilómetros desde N'Zeto, na costa do norte de Angola, ao Uíge, capital da província com o mesmo nome, no interior.