Mostrar mensagens com a etiqueta Raid T.T. Kwanza Sul. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Raid T.T. Kwanza Sul. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 22 de outubro de 2009


A espera interminável pela chegada de...
A COMITIVA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Mergulhado numa densa nuvem de pó, que dava uma imagem difusa da paisagem e, pior do que isso, escondia os buracos do caminho, guiava há mais de uma hora pela picada quando reparei que desde que saíra do asfalto, na cidade de Gabela, ainda só tinha avançado cerca de 15 quilómetros. Ao ritmo a que a caravana seguia, seria impossível chegarmos a Quilenda à hora prevista. Desta vez, porém, ninguém tinha culpa do atraso. Ou todos tinhamos, simplesmente porque à hora do almoço a fome pesou mais do que horário programado. O almoço, numa churrasqueira à entrada de Gabela, embora tivesse sido encomendado com semanas de antecedência e sucessivamente confirmado nos dias anteriores, parecia ter sido improvisado no momento em que o restaurante foi invadido por mais de quatro dezenas de pessoas — os participantes no 4º Raid T.T. Kwanza Sul — que traziam fome a dobrar e encontraram comida para apenas metade. Ficou logo bem claro que ninguém saíria dali sem ter comido a refeição a que tinha direito, mas nem os relógios páram nem os frangos assam instantaneamente, pelo que a hora e meia desta paragem foi escandalosamente ultrapassada. Quando eu finalmente me pude servir, já uma boa parte dos meus companheiros estavam a postos para seguir viagem, mas a espera pelos mais atrasados — e talvez também a falta de um café — como que lhes provocou uma suave sonolência, tornada ainda mais agradável pelo calor do sol. Isso permitiu-me ter sido um dos últimos a chegar ao restaurante e o primeiro a partir, adiantando-me para tentar ganhar o tempo suficiente para conseguir parar na esplanada do centro da cidade, tomar um café expresso e voltar a partir devidamente colocado na cauda da caravana, sem que alguém desse pela minha falta e fizesse deter a marcha, como seria suposto que aconteceria até me encontrarem. O plano era perfeito, mas não contava com as obras de renovação dos espaços públicos da cidade, cujos trabalhos tinham precisamente acabado de chegar ao jardim da praça central, que foi isolado por tapumes e obrigou ao encerramento temporário da esplanada e do bar. Era irónico não conseguir tomar um café numa terra toda ela rodeada por abundantes cafezais, mas foi isso que aconteceu. E graças a este plano frustrado, acabei por ser um dos primeiros a avançar para a picada que liga Gabela a Quilenda, provavelmente um dos caminhos de terra com mais buracos por quilómetro entre todos os que já percorri em inúmeras destas aventuras. Só a Nissan Hardbody do líder da expedição seguia à frente da minha, pelo que não era por falta de habilidade ao volante nem de experiência em todo-o-terreno que não íamos mais depressa; era porque não dava mesmo para ir mais depressa. A visita a esta vila, perdida a meio caminho entre Gabela e Porto Amboim, não era uma visita qualquer e sabíamos que estava à nossa espera uma multidão, encabeçada por todas as autoridades e as chamadas “forças vivas” da terra. Até tinha vindo gente das aldeias vizinhas só para receber e aplaudir a comitiva, como diziam entre si. O encontro entre uns e outros estava previsto ter lugar na rua principal, onde fica a velha escola primária — numa das esquinas —, o jardim público com a sede do Clube local, mesmo ao lado, o edifício da sede do município, em frente, e a igreja, na ponta oposta, diante do jardim. Quilenda era o único município da provincia do Kwanza Sul que nunca tinha testemunhado a passagem da caravana desta expedição. E por um triz a visita não foi adiada, pois duas semanas antes de termos saído de Luanda a estrada estava intransitável, arrasada pelas chuvas. Reabriu ao trânsito apenas uns dias antes e somente no troço entre Gabela e Quilenda. E como a ideia era que a caravana daí seguisse até Porto Amboim, para depois descer a estrada costeira até Sumbe, onde nessa noite — com o tradicional banquete oferecido pelo Governador do Kwanza Sul — terminava a quarta edição do raide, ainda se pensou deixar isso para outra oportunidade. Porém, adiar a visita seria frustrar as expectativas daqueles que nos esperavam há quatro anos. E compreendi isso perfeitamente quando lá cheguei... Assim que as duas primeiras pickups entraram em Quilenda, passando defronte do posto da policia, à entrada de uma rua que se alarga e é divida ao centro por um canteiro com árvores — seguindo uma disposição típica do período colonial — imediatamente percebi a agitação. Um bando de rapazes desatou a correr rua acima, em direcção ao centro, anunciando a toda a gente que “a comitiva está a chegar”. Bastou segui-los para perceber onde é que tinha de ir: até ao cimo da rua, a uma rotunda delimitada por pedras que não escondiam ter sido caiadas de branco há muito pouco tempo — como aliás as pedras que contornavam todos os canteiros no meio das ruas. Parecia que estava ali a população toda, dividida em três grupos bem distintos. Os membros da administração do munícipio e as individualidades importantes da vila, desde o padre aos professores, passando pelo chefe da policia, aguardavam-nos no cimo das escadas de acesso às instalações da autarquia; em baixo, junto ao muro, estavam os representantes do poder tradicional, os sobas, à vontade uma trintena deles, todos vestidos com uma farda de cor de areia e alinhados como se estivessem numa formatura militar. E até parecia que estavam. Em frente destes dois grupos, bem no meio da rua, estava o povo todo. Muita gente mesmo. Mais mulheres do que homens, imensas com bebés presos às costas, amarrados com capulanas coloridas, e bastantes crianças, que transbordavam de curiosidade e de excitação. E até denunciavam algum medo. Grande parte desta gente não tinha memória de alguma vez uma comitiva assim ter visitado Quilenda. E o orgulho das autoridades não podia ser maior, pois consideravam a nossa visita como uma “comitiva oficial”, ou não se tratasse de um raide promovido sob a égide de duas entidades oficiais — o Governo da Província do Kwanza Sul e a Câmara Municipal de Almada. Foi nessa altura que senti como era realmente importante para aquele gente receber-nos na sua terra perdida. O que para nós era um frete, uma deslocação que ninguém tinha começado com ânimo, mas sim pela obrigação de cumprir com o programa — pois o cansaço de longos dias a percorrer picadas esburacadas e poeirentas já era forte —, era encarado de modo completamente diferente por quem nos aguardava; era motivo de enorme orgulho, para além de uma grande excitação. Quando chegámos, vi expressões de contentamento nos olhares daquela gente toda. E logo esqueci o sacrifício que tinha sido percorrer aquela picada. Um sacrifício que, diga-se de passagem, ainda iria repetir quando terminassemos a visita. Mas aqueles sorrisos, o sentir que era assim tão importante termos ido lá, superou isso tudo. O frete deu lugar ao prazer de termos conseguido corresponder às expectativas. E uma das coisas boas da vida é conseguirmos isso: corresponder às expectativas. Antes de mais, às nossas. Mas também às de quem, como naquele dia sucedeu com o povo e as autoridades de Quilenda, se mobiliza por nós. Quantas vezes não nos acontece passarmos por isso com uma absoluta indiferença? Provavelmente, todos nós já provocámos decepções dessas. Neste caso, felizmente que fomos ao encontro dessas expectativas, pois a avaliar pela festa que estava preparada em nossa honra, se não aparecessemos teríamos ferido o orgulho daquela gente. Assim que estacionei, depois de descrever a rotunda, começaram logo a ouvir-se os batuques, sinal para o povo arrancar a festa. Esperavam dúzia e meia de pickups, com mais de quarenta pessoas, e apareceram só duas, com dois pares de ocupantes. Como não vinham mais carros atrás, a festa interrompeu-se. A nossa chegada era um falso alarme. A comitiva ainda vinha a caminho. Vinha sim e demorou uma boa meia hora, em que até nós os quatro ficámos impacientes — interrogando-nos se tinha acontecido alguma coisa ao grosso da coluna — quanto mais aquele povo todo, que já ali estava há umas horas... O pó, aquele maldito pó, era o culpado de tamanho atraso. O pó e os buracos infernais. As pickups chegaram em grupos de duas ou três, com alguns minutos de intervalo entre si, que eram o tempo necessário para deixar assentar a poeira. A tarde estava mesmo no final quando a festa recomeçou, repetindo um ritual que já era familiar aos veteranos desta expedição: intermináveis apresentações de cumprimentos, alguns discursos de boas vindas e de agradecimento pela vinda de uma comitiva, uma festa popular com música e danças, e outra festa, mais resguardada de olhares públicos, só para os membros da comitiva e para os anfitriões. Esta última, como normalmente, metia comes e bebes. Afinal, as boas celebrações têm lugar à mesa. Em 2005, no decurso do primeiro destes raides por Angola, quando chegámos à vila de Seles descobrimos que tinham organizado não um, mas sim dois jantares em nossa honra. E como não podíamos fazer a desfeita aos que nos convidavam, tivémos de ter estômago para comparecer aos dois repastos. Foi uma barrigada de galinha de cabidela e caldeirada de cabrito — logo por azar as ementas foram quase idênticas... — mas ninguém ficou ofendido, nem deu pela duplicidade de jantares. E para nós, foi como se tivessemos feito um intervalo entre o primeiro e o segundo pratos. Agora, porém, era diferente. Tinham preparado um lanche na residência da administradora de Quilenda e apesar do nosso atraso nos recomendar que partissemos quanto antes, repetindo o percurso até Gabela, não houve coragem para recusar o convite, tal era a satisfação por finalmente termos ido a esta vila. E como as palavras são como as cerejas — atrás de uma vem sempre outra... — o que tinhamos discretamente combinado que seria uma visita de médico, só o tempo necessário para corresponder ao formalismo da visita, acabou por tornar-se num encontro descontraído e demorado. Só nos apercebemos que as horas continuavam a passar quando começou a escurecer. Ao desperdirmo-nos, explicando a urgência de regressarmos à cidade de Sumbe, para o banquete com o Governador, o chefe da policia de Quilenda quis ser prestativo e imediatamente requisitou uma escolta para nos acompanhar até Gabela. Esqueceu-se foi de dar indicações ao motorista do jipe da policia para ir tão depressa quanto pudesse. E como não o fez, o condutor decidiu converter a sua missão num vagoroso desfile através da picada, rolando devagar, parando para passar cuidadosamente nos buracos mais fundos, abrandando ainda mais à passagem pelas localidades. Mais deseperante não podia ter sido. Ninguém tinha coragem de ultrapassar o carro da policia, que só desmobilizou nos limites do concelho. O resultado foi termos adiado o jantar para a hora da ceia, sentando-nos à mesa já muito perto da meia-noite. O raide, todavia, estava terminado e na manhã seguinte não precisávamos sequer de madrugar, pois só restava cumprir a ligação de regresso a Luanda. Portanto, ninguém se preocupou que o jantar durasse até às três da madrugada e houve mesmo quem tivesse resistido ao sono e continuasse pela noite dentro a dançar, acabando a festa ao amanhecer com um mergulho nas águas do Atlântico, mesmo em frente ao hotel.

Mergulhadas numa nuvem de poeira, as Nissan Hardbody do 4º Raid T.T.Kwanza Sul entraram em Quilenda bem mais tarde do que o previsto. O caminho desde Gabela até esta vila estava num estado tal que a média de andamento rondou os 15 km/h.

Quem chega de visita deve cumprimentar os visitados. E a regra do protocolo diz que os anfitriões devem receber os seus convidados à porta. Nenhuma destas regras foi desvirtuada na nossa visita a Quilenda.

E a tradição também diz que uma comitiva deve ser recebida com um discurso. Em Quilenda, a festa só parou para ouvir as "palavras de circunstância" ditas pelas autoridades locais em honra dos visitantes, assim como pela réplica por parte de uma das "autoridades" da caravana, que agradeceu publicamente a atenção que nos foi dispensada.

Assim que terminaram os discursos, fizeram-se ouvir de novo os batuques e o povo voltou a formar uma roda gigante, dançando alegremente diante da sede do município.

Até os bebés participaram na festa. Amarrados às costas das mães, fartaram-se de dançar!

A festa popular, na rua principal de Quilenda, terminou ao cair do dia. Mas a comitiva tinha ainda uma pequena celebração privada, na residência da administradora local...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009


Ajuda que vale a pena
UMA ESCOLA PARA CONSTRUIR O FUTURO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Em quase três décadas de viagens, tropecei inúmeras vezes em programas organizados que tinham, pelo meio, ou em si mesmo, acções anunciadas como sendo de “ajuda humanitária”. A expressão é relativamente recente, embora o princípio seja idêntico ao que antigamente se fazia sem atribuir nenhum nome especial, ou até mesmo sem disso se fazer grande alarde.
Nunca gostei particularmente de me ver envolvido neste tipo de acções, pelo que sempre me senti um tanto incomodado cada vez que tomava parte num programa que incluía “ajuda humanitária”. E o mais engraçado, embora não tenha realmente graça nenhuma, é que ao abster-me de participar nestas acções, acabei sempre por ser olhado de lado, com desconfiança. Era sempre o único que não vibrava de entusiasmo por entrar numa escola de miúdos meio esfarrapados para oferecer caixinhas de lápis de cor e caderninhos todos bonitos, ou por parar no centro de uma aldeia, algures numa das muitas regiões pobres do mundo, para distribuir não interessa o quê, até porque muito raramente me apercebi de que alguém tivesse feito um levantamento prévio das necessidades das comunidades sobre as quais incidia a “ajuda humanitária”. Normalmente, a sensação que tenho é que se compraram uns tantos artigos baratos, que não fazem falta a ninguém, carregaram-se quilos e mais quilos de brindes publicitários que também já ninguém queria e não servem para nada, por vezes junta-se uma colecção de roupas e sapatos velhos, que deviam ter ido para o lixo, mas que todos guardaram à espera da oportunidade para poder oferecer “a quem precisa”, como costumo ouvir dizer, com aquele ar piedoso de quem julga que está a praticar o bem. Cresci a ouvir dizer que a caridade é anónima e quanto mais assisto a estas manifestações, mais concordo que sim, que quem realmente quer ajudar alguém, simplesmente ajuda. Não o anuncia, nem o publicita.
Nunca me esqueci de ouvir um tipo a contar, depois de ter regressado de uma “missão humanitária”, que tinha andado a ensinar os pretos a comer de garfo e faca. Contava isto em rodas de amigos e toda a gente se ria imenso. Nunca achei piada. Se ele tivesse ido à tropa, cumprir o Serviço Militar, que ainda era obrigatório quando fiz 21 anos, em 1985, podia ter feito o mesmo a imenso tipos, todos da minha idade e tão brancos como eu... Outro tipo que conhecia guardava uma noite por semana para trabalhar como voluntário numa ONG e andava um par de horas a distribuir sanduiches e pacotes de leite aos miseráveis que dormem na rua, em Lisboa, só porque ficava muito bem no seu currículo e, melhor do que isso, as mulheres ficavam sempre muito bem impressionadas com ele. Generoso, hem!... Tive uma amiga — que um dia deixou de merecer sê-lo — que era tão dada a depressões que passava a vida a dizer que queria tirar um ano para ir trabalhar como voluntária num projecto qualquer em África, a ajudar os coitadinhos e a aliviar a consciência, em busca de paz. Pelo que conhecia dela — e sobretudo pelo que mais tarde descobri... — ainda bem que os coitadinhos dos pobrezinhos nunca contaram com a sua disponibilidade, pois quem precisava de ajuda era mesmo ela e eles não iam ter paz. E são tantos os exemplos, maus exemplos, que me ocorrem, que se os fosse contar todos era uma história interminável. Mas se a regra é invocar-se de forma pouco escrupulosa e pouco séria a expressão “ajuda humanitária”, reconheço que não há regra sem excepção. Em tantos anos, só me ocorrem duas excepções, que eu testemunhei. Uma passou-se recentemente, em Angola, outra aconteceu há bastante tempo, também em África, mas bem perto da Europa...
Foi numa expedição a Marrocos, em meados dos anos 90, que vivi um desses momentos que considerei uma excepção: fomos oferecer um motor para puxar água a uma aldeia remota nas franjas do Sahara, encostada à fronteira com a Argélia, numa zona tão isolada que nem sequer as costumeiras caravanas de jipes carregadas de turistas sequiosos de aventura costumavam lá passar. Passavam sim, mas ao longe e quando os miúdos corriam atrás dos jipes, descalços sobre as pedras, agitando as mãos num gesto que tanto era um sinal de cumprimento, a dizer adeus, como de ajuda, a pedir uma esmola, os jipes aceleravam ainda mais e desapareciam sob uma densa nuvem de poeira. Por muito que corressem, os miúdos nunca conseguiam chegar à pista a tempo de ainda alcançarem um jipe. Nesse dia, porém, o que aconteceu foi diferente. Quando os miúdos se aperceberam da caravana já todos os jipes vinham ao seu encontro. Estacionámos no centro da aldeia e imediatamente fomos rodeados por dezenas de crianças, alegres e ruidosas. Em poucos minutos, toda a gente da aldeia estava junto de nós. Até algumas cabras e burros passeavam-se entre a multidão, como se estivessem igualmente curiosos de saber o que ia passar-se. Connosco vinha um camião e foi de lá que retirámos o motor de puxar água, que em minutos foi instalado num poço que ali havia, no meio da aldeia, à sombra de duas enormes palmeiras. Depois de termos posto gasolina no pequeno depósito do motor, puxámos um cabo meia-dúzia de vezes e de repente fez-se um silêncio profundo: assim que se ouviram os primeiros roncos do motor a funcionar, toda a gente se calou. E depois desataram numa algazarra. Aquele era, sem dúvida, um momento de grande alegria! Três homens, que se comportavam como se fossem os líderes locais, aprenderam num instante tudo o que era fundamental saberem para que o motor durasse longo tempo, nomeadamente a manutenção e modo de funcionamento da máquina. Quando a mangueira mergulhou no poço, tão fundo que do alto não conseguíamos distinguir a água, já se tinha criado um fila de mulheres e crianças carregadas com vasilhas de plástico, que aguardavam pacientemente que a água começasse a jorrar da ponta da mangueira. Esse foi outro momento inesquecível. A expressão alegre de toda a gente, os olhares felizes. Sem discursos, sem lápides para descerrar, sem mais nada, despedi-mo-nos e partimos de novo pela pista pedregosa e poeirenta. E desta vez os miúdos não vieram atrás, numa correria desenfreada. Ficaram ali, à volta do poço, fascinados com aquela máquina vermelha, barulhenta, que chupava a água do poço. Pelo menos enquanto o motor funcionasse, não teriam de queimar as energias agarrados à alavanca da velha bomba manual, num repetitivo vai-vem de minutos para fazer cuspir pequenas golfadas de água do poço.
Nesse dia, em Marrocos, algures entre Erfoud e Zagora, junto à fronteira com a Argélia, mudei a minha opinião e achei que tinha valido a pena aquele pequeno esforço para oferecermos um motor de puxar água, que contribuiu para uma efectiva melhoria das condições de vida daquela comunidade. E porque nos limitámos a oferecer o motor. Discretamente.
A outra excepção foi em Junho de 2009, no sul de Angola. Integrava a caravana de uma expedição todo-o-terreno, o Raid T.T. Kwanza Sul e na manhã do último dia do programa os promotores do evento levaram-nos a ver as obras de construção de uma escola primária, uma das três escolas projectadas e custeadas pelo município português de Almada, ao abrigo de um acordo de geminação que começou pela associação à pequena cidade costeira de Porto Amboim e que acabou por alargar-se a toda a província do Kwanza Sul.
Implantada nos arredores da vila de Conda, não muito longe da cidade de Gabela, a escola que visitámos era ainda o esqueleto de um edifício térreo, com três amplas salas para aulas e um anexo com as restantes infra-estruturas. O local da construção é no meio do nada, entre uma aldeia e a vila de Conda, à beira de um cabeço, de onde se aprecia uma paisagem extraordinária. Lembrou-me uma escola primária que encontrei há alguns anos num local igualmente isolado e lindíssimo, na Amazónia venezuelana; tinha na fachada, pintada em grandes letras, uma frase atribuída a Simon Bolívar, que nunca mais me saiu da cabeça: “Un hombre sin estudios és un ser incompleto”. E ao visitar as obras da nova escola de Conda, dei comigo a pensar que se há coisas em que vale sempre a pena investir é na construção de escolas. Nisso e na vacinação de crianças, que um médico, velho amigo, que já desapareceu, me dizia ter a certeza de que era a única coisa verdadeiramente útil que tinha feito em longos anos de trabalho em missões humanitárias, que o levaram diversas vezes ao epicentro de alguns dos maiores conflitos recentes, como o Afeganistão, ainda no tempo da guerra com os russos, mas também já sob o domínio dos talibãs, o Ruanda durante a crise dos Grandes Lagos, a Libéria e a Serra Leoa durante os piores momentos das guerras civis que assolaram estes países, entre tantos outros cenários, sempre dos mais duros para trabalhar.
Ali, entre os muros de tijolo nu da nova escola, lembrei-me também das Filipinas, onde encontrei escolas nos locais mais recônditos, em plena selva. Em 1898, quando a Coroa espanhola vendeu aos Estados Unidos da América o arquipélago das Filipinas — alienando esta colónia do Pacífico pela soma de um milhão de USD — os americanos tomaram posse de 7107 ilhas, um terço das quais habitadas, onde ninguém se entendia. Simplesmente porque cada comunidade tinha a sua própria língua. E quase ninguém falava espanhol, porque durante o tempo de domínio espanhol as poucas escolas estavam reservadas aos próprios espanhóis e a uma reduzida elite filipina. Em 1946, quando os EUA concederam a independência às Filipinas, a realidade era completamente diferente: já havia uma língua que unia todos os filipinos. Era o inglês. E como é que os norte-americanos conseguiram em 48 anos aquilo que os espanhóis não conseguiram em mais de três séculos? Abriram escolas. Milhares de escolas. Uma em cada aldeia. E levaram professores. E decretaram que as crianças eram obrigadas a frequentar a escola primária.
Numa altura em que se debate a importância do português enquanto língua, bem como a memória de Portugal nos países que outrora integravam o imenso Império Colonial Português, são exemplos como este, da pequena escola perdida no cimo de um cabeço junto à vila de Conda, nas profundezas de Angola, que nos mostram a solução. A solução mais válida de todas para que o português mantenha a sua importância no quadro das grandes línguas faladas no mundo. E volto a lembrar-me da frase de Simon Bolívar, escrita na fechada da escola que encontrei na floresta amazónica: um homem sem estudos é um ser incompleto. Sem dúvida. E nenhum país se constrói nem se desenvolve com analfabetos. O futuro, de Angola, de Portugal, de qualquer país, constrói-se nas escolas.
Momentos depois da breve inspecção às obras, dirigi-mo-nos ao centro da vila de Conda, onde todos os membros desta caravana foram recebidos como os beneméritos da nova escola, a quem as autoridades e a população locais dispensou uma pequena homenagem, que decretou feriado na terra durante aí uma meia hora. O tempo necessário para uma sessão de cumprimentos aos sobas e administradores municipais, seguidas por algumas palavras de circunstância, que não se alongaram. O sistema de som que permitiu amplificar a voz dos que discursaram, foi o mesmo que logo a seguir aos aplausos populares afrouxarem começou a emitir música. E em segundos dançava-se na rua principal de Conda. Naquele dia, havia motivo para festejar a meio da manhã...


Depois de visitadas as obras da nova escola, fizémos uma entrada triunfal em Conda, onde as forças vivas da terra e inúmeros representantes da sociedade civil — num discurso formal é assim que designamos a assistência popular — aguardavam pacientemente a chegada da comitiva, para um breve acto simbólico. Foi bonito ver que aqueles que receberam ajuda ficaram gratos por isso.

Para não tapar ninguém, fui o último a participar na sessão de cumprimentos, trocando dezenas de apertos de mão com os Sobas do município de Conda, mas também com o Padre e seus ajudantes, com os dirigentes da Administração local e os representantes das Autoridades. No final, apanhei o microfone a jeito não resisti a um breve improviso. Nunca se deve deixar um microfone à mão...

Uma vénia de respeito diante das senhoras, que os sobas são sempre homens de grande educação.

Terminados os breves discursos, ainda se ouviam os aplausos populares e já tocava música no sistema de som, transformando a rua principal de Conda num palco de dança, como se tivesse sido decretado feriado na vila por uma boa meia-hora!

...até na repartição o trabalho parou uns momentos, para os funcionários espreitarem a festa, encostados à janela.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009


O Presídio de Massangano
A CAPITAL QUE A HISTÓRIA ESQUECEU

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Há um tesouro histórico perdido a cerca de duas horas de condução desde Luanda, seguindo pela estrada para Catete e Dondo. Quem não o conhecer, dificilmente o descobrirá, pois para lá chegar terá de desviar da estrada principal uns 15 quilómetros antes de entrar na vila de Dondo, tomando uma estrada secundária que arranca pelo lado direito, mas que não só não tem nenhuma placa a identificá-la, como nem sequer é suficientemente perceptível por quem circula na via principal. Desenrolando-se ora pelo cimo de pequenos cabeços, ora nos vales, num constante sobe e desce, esta estrada é por si só um belo passeio, em que o descrever de cada curva desvenda novas perspectivas de uma paisagem que não cansa o olhar e onde os embondeiros são uma presença constante, a perder de vista. Quase sempre apenas com a largura de um veículo e em piso de terra, embora por vezes surjam ainda velhos troços de asfalto que conseguiram resistir ao desgaste do tempo e ao esquecimento, esta estrada, que não tem saída, é como que guardiã de um segredo bem guardado, que apenas é transmitido a alguns afortunados. Esse sítio tão precioso — especialmente para os amantes da história — chama-se Massangano e os participantes no 4º Raid T.T. Kwanza Sul, onde me incluí, foram alguns dos sortudos que puderam visitá-lo, chegando lá guiados por outros que o são muito mais, nem que seja pelo facto de terem conhecido este local histórico noutra altura, nalguns casos há muitas décadas, quando aquela vintena de quilómetros ainda era uma estrada de asfalto... Massangano situa-se numa pequena elevação de terreno que se evidencia na ampla planície onde correm os rios Cuanza e Lucala, entre a margem direita do primeiro e esquerda do segundo, ligeiramente a montante do ponto em que se juntam. Embora não seja senão um cerro, é o ponto mais alto da região, tornando-se num local estratégico para controlar toda a movimentação nas terras em redor e a navegação nos dois rios. Este aspecto não passou despercebido a Paulo Dias de Novais, quando em 1579 começou a subir o rio Cuanza, na liderança da primeira grande expedição pelo interior do Reino de Angola que visou estender a colonização portuguesa destas terras para além da faixa costeira. Assim, foi mesmo aí que o primeiro Capitão-Mor e Governador de Angola fundou o primeiro de uma série de presídios — postos da administração colonial, que deram origem a povoações e fortalezas — junto aos grandes rios. Em Maio de 1585, apenas dois anos após ter mandado construir o presídio de Massangano, foi aí que Paulo Dias de Novais morreu, tendo sido sepultado diante da igreja que tinha dedicado a Nossa Senhora da Vitória. A morte do Governador não foi, porém, a morte de Massangano, que continuou a desenvolver o seu papel determinante para implantar a soberania portuguesa no coração da terra dos Ngola, tornando-se numa importante povoação. Por isso mesmo, quando os holandeses assaltaram Luanda e tomaram conta da cidade, foi para Massangano que Salvador Correia — que era então o Governador de Angola — fugiu, refugiando-se neste lugar com toda a administração portuguesa. Durante sete anos, num período que foi de Agosto de 1641 a Agosto de 1648, Massangano foi oficialmente a capital portuguesa de Angola, tendo-se desenvolvido ainda mais. Porém, com a reconquista de Luanda e a definitiva expulsão dos holandeses, a 18 de Agosto de 1648, a capital voltou para onde ainda hoje está, enquanto que a pequena cidade criada nesse cerro entre o Cuanza e o Lucala voltou à sua modesta condição de um ponto de implantação colonial, com uma forte componente militar. Com o passar dos séculos, a importância estratégica de Massangano sob o ponto de vista militar nunca se perdeu, mas a chegada da paz a Angola até isso fez tornar-se irrelevante. Actualmente, este local, sem dúvida que um dos mais importantes da história de Angola e da sua colonização, não passa de uma discreta aldeia ribeirinha, com escassa população, uma esquadra policial quase sem guarnição, um posto de saúde que só abre quando há consultas médicas e a casa da administração local. Tudo o resto, salvo a igreja, situada numa das extremas da povoação, são ruínas. Ruínas imponentes, como a da Casa da Câmara, ou do Tribunal — que tinha a cadeia em anexo, como que para tudo ficar resolvido no mesmo sítio... —, cujas grossas e altas paredes de pedra souberam resistir ao passar dos séculos. A fortaleza, encostada a uma pequena falésia que desce para o Cuanza, entre a velha Casa da Câmara e a Igreja de Nossa Senhora da Vitória, já foi desocupada e esvaziada, restando apenas as grossas paredes, que também acusam a falta de manutenção. Até a igreja precisa urgentemente de um novo tecto, que ameaça desabar e deixa já o céu a descoberto nalguns pontos. No entanto, não é por isso que o povo deixa de a encher regularmente, sempre que o padre celebra missa. Dos primórdios de Massagano, esta foi a única herança que jamais se perdeu, ou um dos objectivos dos pioneiros não tivesse sido a cristianização dos povos angolanos...



Passado e presente frente a frente. Em primeiro plano, as ruínas da antiga Casa da Câmara; por trás, o edifício cor de rosa é onde actualmente está instalada a administração local. A esquadra da policia fica ao lado.


O túmulo de Paulo Dias de Novais, diante da igreja que o primeiro Capitão-Mor e Governador de Angola mandou construir, numa extrema da povoação.

O telhado ameaça desabar, mas a velha Igreja de Nossa Senhora da Vitória continua aberta ao culto e enche-se de gente nos dias em que o padre vem dizer a missa. Esta é a única rotina que nunca mudou desde que nasceu Massangano.

Com excepção de alguns turistas, que surgem ocasionalmente, ninguém vai a Massangano, senão os que lá vivem. E são poucos. Dentro da povoação, até o caminho foi conquistado pelo mato; só a marca dos rodados dos jipes é mais forte.


À porta da fortaleza, a placa que assinala a homenagem aos heróis de Massangano, realizada precisamente 300 anos depois de Luanda ter voltado à soberania portuguesa. Foi em 1648 e desde então este lugar encantador à beira do rio Cuanza não voltou a ter a mesma importância...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009


Ao Acordar na Encantadora Fazenda Cabuta
DELÍCIAS DE UMA BELA NEGRA


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]


Em cima, o terreiro onde são espalhados os bagos de café para secarem ao sol, depois de colhidos. Em baixo, pormenor de um recanto do jardim junto à capela, num recanto isolado da fazenda.

O português é uma língua muito traiçoeira e nem sempre o que parece é. Neste caso, lamento desiludir quem imaginava que eu ia aqui contar uma história de alcova, daquelas que às vezes se contam ao ouvido do melhor amigo, que depois a repete ao melhor amigo dele e por aí adiante, até rapidamente voltar ao nosso ouvido, pela confindência de outro amigo. Não, não vou revelar nenhum desses segredos que se espalham à velocidade com que um fósforo arde, porque Bela Negra é apenas... o nome sugestivo para o café robusta produzido na Fazenda Cabuta, enorme propriedade agrícola que se estende por cerca de 10 mil hectares de colinas verdejantes, forradas de cafezais e palmares. A não mais de meia hora de condução da vila de Calulo, sede de um dos municípios da província angolana do Kwanza Sul, a Cabuta é hoje considerada uma fazenda modelo para o programa de relançamento da produção de café em Angola, que depois de ter atingido um pico de 3,5 milhões de sacas em 1973, desceu até umas míseras 15 mil sacas de 60 quilos em 2004. Antes de ser ultrapassado pelo petróleo, em 1972, o café era o líder das exportações angolanas e se é certo que o "ouro negro" continuará ainda por muitos e longos anos a manter esta posição, também não é menos verdade que as autoridades angolanas têm vindo a manifestar o maior interesse em reconquistar um lugar com relêvo no mercado do café, prevendo que no final de 2009 se atinjam já as 200 mil sacas, das quais cerca de 9 mil deverão ser provenientes da Cabuta.
Para um apreciador de café como eu, foi uma agradável surpresa descobrir esta fazenda, recentemente reconvertida numa unidade de agro-turismo com 45 quartos distribuídos por cinco pólos, desde a casa principal apalaçada a anexos construídos propositadamente para a actividade hoteleira, passando por edifícios adaptados, como algumas casas que no tempo colonial eram residências dos funcionários da administração da propriedade. Cheguei de noite e no meio da escuridão mal consegui imaginar que mais do que o café, bela é mesmo esta fazenda. Pela manhã, claro que não dispensei algumas chávenas de Bela Negra, forte e de sabor intenso, mas imperdível foi mesmo o passeio pelos caminhos da fazenda, rolando alguns quilómetros entre alamedas de palmeiras enormes, geometricamente alinhadas ao longo das bermas, fornecendo a necessária sombra para proteger o cafezal do sol. Curiosamente, talvez não tenha sido por acaso que o encarregado da fazenda veio do Brasil, ou o maior país lusófono não seja o líder mundial inconstestado na produção de café desde que há registos , já lá vão cerca de um século e meio!

A combinação das actividades agrícola e turística permitiu abrir ao público uma das mais belas fazendas de café da região do Libolo. E quem tiver um todo-o-terreno, pode partir dali à descoberta de caminhos que levam ao encontro de paisagens incríveis, como espreitar o Cuanza do alto de uma falésia, ou descer ao rio junto à Ponte Filomeno da Câmara, construída em 1932 e hoje meio perdida das rotas mais usuais.

Um dos velhos armazéns da fazenda, com enorme telhado em chapa e paredes abertas para o ar se renovar com facilidade. Embora a fazenda se encontre a uma altitude considerável, atingindo os mil metros nos pontos mais altos, ali também se sente quando o calor aperta.

Vendedora percorre o bairro dos trabalhadores da fazenda com um cabaz de peixe seco do rio Cuanza à cabeça. Ao final da manhã, o cabaz já está vazio e em muitas casas será esse o prato principal do almoço...



Os 10 mil hectares da Fazenda Cabuta são recortados por quilómetros e quilómetros de caminhos de terra, quase sempre enquadrados em alamedas de palmeiras, que não só asseguram a necessária sombra para proteger os cafezais, como permitem complementar a actividade agrícola com a produção de Dendém, o famoso óleo de palma, indispensável no tempero da cozinha africana e asiática.

sexta-feira, 31 de julho de 2009


Um Desvio até às Quedas de Calandula
NINGUÉM CONHECE ANGOLA
SEM VISITAR AS CATARATAS


[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Assim que Camabatela ficou para trás, não tardou a que o asfalto desaparecesse para dar lugar a uma pista de terra, larga e de traçado rápido, com óptimo piso. O objectivo imediato era conduzir até Calandula, almoçar rapidamente no novo hotel da vila e depois passar uma boa parte da tarde a contemplar as famosas quedas de água. Até teríamos chegado mais cedo, não fosse o pó, que à passagem de uma caravana tão numerosa como a do 4º Raid T.T. Kwanza Sul perdurava no ar durante minutos, como se a estrada ficasse momentaneamente submersa num manto de nevoeiro acastanhado. E o pior era quando nos cruzávamos com veículos pesados, sobretudo uns camiões cisterna azuis, todos iguais, que nos apareceram diversas vezes pela frente, sempre aos pares, e em atitude de Reis da estrada. Por uma questão de sobrevivência, os camiões são normalmente veículos prioritários e nestas condições até era capaz de parar para os deixar passar à vontade! Mesmo assim, esta ligação foi das raras em duas semanas de percurso que se cumpriu rigorosamente de acordo com as previsões. O mais engraçado é que como provavelmente ninguém contava que chegássemos à hora marcada, o almoço não estava pronto e o tempo que ganhámos na corrida para Calandula perdemos a bebericar umas Cucas, Nocal, Ekas e outras que tais bem fresquinhas, aguardando pacientemente que o bufete abrisse. Quanto ao apetite, esse estava mais do que aberto e, talvez por isso, o almoço soube lindamente, apesar de banal: fatias de picanha ou pedaços de frango de churrasco, com os acompanhamentos da praxe, ou seja, o arroz, o feijão preto, e a batata frita, que nunca chegava para as encomendas. Depois de vários piqueniques ou nem isso, acreditem que é um encanto redescobrir o prazer de sentar à mesa para desfrutar de um almoço...
O maior prazer veio depois da sobremesa, quando voltámos a fazer-nos à estrada e guiámos uns minutos pelo ramal que termina junto ao topo das quedas de água de Calandula, local de visita obrigatória a qualquer um que pretenda conhecer realmente Angola. Supostamente, até assim terá pensado a comitiva do Príncipe Real Dom Luiz Filipe — o filho mais velho do Rei Dom Carlos I —, quando no Verão de 1907 visitou Angola, no decurso de uma viagem em que tocou Moçambique, São Tomé e Princípe, a Guiné e Cabo Verde — e que foi a única visita a África de um monarca português, até à implantação da República, três anos depois... Mas, a verdade é que esta vila e as quedas de água que lhe estão próximas já eram conhecidas por Duque de Bragança muitos, mesmo muitos anos antes do jovem príncipe herdeiro ter ido a Angola. Romanticamente, atribui-se-lhes — à vila e às quedas — o nome de Duque de Bragança como uma homenagem da visita real que, todavia, não foi além da faixa costeira, repartindo-se entre Luanda e Benguela, onde Dom Luiz Filipe chegou a bordo do paquete África, um nome que é também uma simpática coincidência. Na verdade, toda esta região da província de Malange em redor do rio Lucala e das suas quedas de águas era dominada desde o século XVIII pelo Presídio do Duque de Bragança, instalado no lugar onde se situa a actual vila de Calandula. A propósito, é importante sublinhar que naquela época a designação de presídio não significava uma prisão, mas tão somente um posto de ocupação colonial português, com presença de uma guarnição militar e de uma igreja ou missão católica. E o mais curioso é que antes das cascatas tornarem o lugar num dos mais importantes pontos turísticos do interior de Angola, a região de Duque de Bragança já era famosa, mas por outros motivos: o comandante da guarnição militar local nos anos 60 do século XIX era um importante naturalista, Francisco António Pinheiro Bayão, que se empenhava mais nestas funções que nas de Tenente do Exército, tendo registado 57 espécies de animais até então desconhecidas, classificando uma ave, quatro mamíferos, 16 anfíbios, 14 répteis e 24 insectos. Bayão não se limitou a observar e registar estes animais, como capturou exemplares de todos eles, que enviou para o Museu de Lisboa, ao cuidado do seu patrono, o não menos famoso político e zoólogo José Vicente Barboza du Barboza du Bocage — primo do poeta Manuel Maria Barboza du Bocage — que foi um influente Ministro de Estado, Par do Reino, Conselheiro do Rei e, entre outras coisas, fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa. Mas quando Francisco Bayão foi vítima da fúria do Governador de Golungo Alto, a quem acusou de ter açoitado quatro soldados da sua guarnição de Duque de Bragança, a influência do patrono não foi suficiente para o livrar de dois anos de prisão, que acabaram com a sua carreira de naturalista. Ainda no interior de Angola, Bayão foi contemporâneo de outro renomado naturalista, o austríaco Frederico Welwitsch, que em 1858, quando trabalhava num levantamento botânico encomendado pelas autoridades portuguesas, descobriu, no deserto de Namibe, mas para o sul, uma estranha planta carnívora que remonta ao período dos dinossauros, há mais de 70 milhões de anos. Chamou-lhe então Welwitschia Mirabilis... Foi Welwitsch quem desvendou a Francisco Bayão o segredo da negritude das Pedras Negras de Pongo Andongo — onde também havia um Presídio português: deve-se à acção de umas algas filamentosas que crescem nas águas que ficam retidas nas rochas, depois das chuvas! Nesta jornada, também passámos por Pungo Andongo, mas já era noite cerrada e tão escura que os enormes rochedos não passavam de uma sombra negra, cujo contornos parecia tocar as nuvens.
Voltando atrás, a placa que à entrada da vila distribuí o trânsito para a povoação e para as quedas de água ainda deixa perceber o nome Duque de Bragança, apagado pelo tempo mas não esquecido pelo nome adoptado após a independência de Angola: Calandula, ou Kalundula, que é a designação original, em língua nativa, do lugar. Assinale-se ainda que estas são as segundas quedas de água mais altas de todo o continente africano, perdendo por três metros apenas para as
Victoria Falls — onde o rio Zambeze se despenha por 108 metros, contra 105 que mede este desnível do rio Lucala, onde as margens se estendem por 410 metros, enquanto as quedas que estabelecem uma fronteira natural entre o Zimbabwé e a Zâmbia se alargam por 1700 metros.


Não tardará muito a que todas estas picadas de terras se transformem em estradas asfaltadas. Quando isso acontecer, a viagem até às quedas de Calandula será ainda mais fácil e rápida, mas o traço negro do alcatrão mudará para sempre a paisagem e retirar-lhe-á algum do encanto actual.

Mais dois passos para a esquerda (a minha, não a da imagem) e já não teria escrito estas histórias, pois só o Super-Homem seria capaz de sobreviver a um mergulho destes. Quem não sofra de vertigens, vale a pena espreitar a queda de água bem de perto e sentir aquela humidade a envolver-nos.

Cerca de uma centena de metros mais abaixo do ponto de queda — 105 metros, para ser mais preciso — as águas do rio Lucala prosseguem pelo vale, abrandando a corrente à medida que se afastam da cascata. Na margem esquerda, o edifício que se vê ao fundo, mesmo sob o arco-irís, é a antiga Pousada, magnífica construção de arquitectura moderna que foi abandonada há mais de três décadas e que, muito provavelmente, um dia acabará por ruir, se não for rapidamente recuperada.

No jardim do hotel em Calandula, as quedas de água não são naturais, mas bastante artísticas: duas mãos que rasgam do solo e seguram cada uma a sua cabaça, que entorna vagarosamente um fio de água para uma pia enorme. Se tivesse chegado mais cedo, tinha-me era entornado na piscina, uns metros mais adiante.

Ainda ia em direcção a N'Dalatando — antiga vila Salazar — quando o sol começou a desaparecer entre o capim, anunciando o final de mais um longo dia por terras de Angola. Até à Fazenda da Cabuta, onde terminei esta jornada, faltavam várias horas de condução, cumpridas pela noite dentro em picadas poeirentas. Bem, não ia numa excursão, mas sim num verdadeiro raide em todo-o-terreno!...

quarta-feira, 29 de julho de 2009


Visita ao Passado das Memórias de Maria
LÁGRIMAS EM CAMABATELA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Perdida num planalto do interior, a cerca de 250 quilómetros de Luanda, a vila de Camabatela — sede do município de Ambaca, nos limites da província do Kwanza Norte, encostado à do Uíge — é uma terra igual a tantas outras que cruzam as estradas em Angola e quebram a sensação de isolamento tão presente nos itinerários mais longos e remotos. Mas não, Camabatela não é uma terra qualquer. É a terra que marcou a juventude da minha amiga Maria, que tanto dela falou que até eu, quando lá cheguei pela primeira vez, achei que já a conhecia. A vila desenvolveu-se e viveu próspera durante apenas duas décadas, contadas entre meados dos anos 50 e 70 do século passado. Rodeada por grandes fazendas de cafezais, esta povoação tornou-se num importante entreposto comercial, onde o café se negociava entre produtores e intermediários, mobilizando grandes romarias de gente, automóveis e camiões nos dias de mercado; as camionetas chegavam vazias de Luanda e cheias das fazendas, carregadas de sacas de sarapilheira a rebentar pelas costuras com grãos de robusta — a qualidade mais produzida nas plantações do nordeste angolano — e horas depois isso invertia-se quando partiam pelo mesmo caminho, não sem antes se fazer fila à porta de uma das duas dependências bancárias, estrategicamente instaladas uma em frente à outra, em esquinas da larga avenida principal, diante da igreja. Era nessa altura de grande riqueza e movimentação que Maria, uma das mais animadas participantes no 4º Raid T.T. Kwanza Sul, passava as suas férias em Camabatela. Uns dias antes de lá irmos, confessou-me que depois de passar por Negage teria de adiantar-se à caravana, pois este regresso, após tantos anos desde a última visita, não só precisava de tempo, como também de alguma tranquilidade, que não teria se chegasse ao mesmo tempo que a dúzia e meia de Nissan Hardbody e Patrol, com cerca de meia centena de expedicionários. Maria não conseguiu adiantar-se e quando estacionou a sua pick-up no fim da avenida principal da vila, mesmo ao lado da singular igreja — com um estilo que lembra a igreja da Mina de São Domingos, no Alentejo profundo, e evidenciando uma recuperação recente que lhe deu um colorido novo à fachada — havia já tanta gente por ali que parecia que o padre ia repetir a missa dominical, terminada pouco antes. O calor do meio dia fazia-se sentir e a sombra das árvores em frente à igreja foram rapidamente ocupadas; Maria nunca se tinha apercebido dessas sombras, pois as árvores só foram plantadas no decurso dos anos 60, precisamente no período em que ali gozou algumas das "férias grandes", como era costume chamar-se às férias no final de cada ano escolar. Maria não se cansou de contar-nos tudo o que se recordava de Camabatela, indicando o que era ali e acolá, identificando o que continuava na mesma, como o cinema, o clube, a esplanada no centro do jardim — a sofrer uma profunda obra de requalificação em Junho de 2009, 52 anos depois de ter sido criado —, o velho posto da Fina, agora transformado numa "bomba de gasolina" da Sonangol, claro, e até o restaurante onde ia com o tio, o PIF-PAF. De sorriso aberto, como sempre, Maria parecia ter regressado à sua juventude, como se ao voltar a Camabatela tivesse entrado na máquina do tempo. De repente, desatou num pranto e as lágrimas escorreram-lhe abundantes pela face. Estava na hora de continuarmos esta demorada viagem através de Angola e a chamada do líder da caravana fê-la despertar para a realidade...


A antiga dependência do Banco Nacional de Angola, em ruínas. Trata-se, contudo de uma excepção, pois a maioria dos edifícios da avenida principal de Camabatela — essencialmente moradias de um ou dois pisos — continua a uso.

A fachada do cinema de Camabatela e, ao lado esquerdo, o clube local. Foram ambos construídos em 1957 e resistiram bem a este meio século, tão conturbado em terras angolanas.

Na esquina das traseiras de um dos quarteirões da avenida principal, o PIF-PAF era e continua a ser um ponto de encontro privilegiado em Camabatela, mantendo a sua função de restaurante e snack-bar, assim como de hotel, com quartos no primeiro andar.

quinta-feira, 23 de julho de 2009


No caminho de Uíge às Cataratas de Calandula...
ESCALA EM NEGAGE. ALÔ AB3?...

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

No final dos anos 50, o dispositivo militar em Angola era relativamente discreto e não dispunha, verdadeiramente, do suporte de uma força aérea. Foi nessa altura que se generalizaram os processos de independência em África que tornaram livres grande parte dos países até então considerados colónias de potências europeias, deixando o velho Império Português repentinamente isolado, como se de um momento para o outro Portugal tivesse ficado preso ao passado, ao mesmo tempo que os novos países à volta e os que se desligaram das colónias pareciam dar um enorme passo adiante, em direcção ao futuro. Imediatamente Portugal começou a sentir uma enorme pressão internacional, com particular incidência dos Estados Unidos da América, no sentido de adoptar medidas tendentes a uma descolonização. A recusa do Governo português — nessa altura ainda liderado por António de Oliveira Salazar — quanto a seguir uma política desta natureza levou os peritos militares a prever desde logo o que acabaria por acontecer: o despoletar de um conflito armado, que em Angola deflagrou a meio de Março de 1961. Antes que isso sucedesse, as chefias militares portuguesas começaram a desenvolver um plano para criar estruturas e reforçar as existentes, de modo a estender a presença a todos os lugares e a preparar-se para enfrentar o despertar dos movimentos de libertação armados. É neste quadro em que 1957 se desloca a Angola uma comissão mandatada pelo Estado-Maior da Força Aérea com a missão de definir a localização para implantar uma série de infra-estruturas para a aviação militar, desde algumas grandes bases até pequenos aeródromos de apoio. A província de Uíge era uma das que seria contemplada com os vários níveis de infra-estruturas aeronáuticas e para a base mais importante foi feito o reconhecimento de uma possível localização nos arredores de Carmona — a actual cidade de Uíge. Todavia, as autoridades da vizinha vila de Negage, cerca de meia centena de quilómetros a leste da capital da província, estavam atentos e ambicionavam atrair para junto de si essa base principal. Como tal, deslocaram-se a Luanda para apresentar uma proposta alternativa à Força Aérea e conseguiram receber uma visita de inspecção, que resultou na escolha de Negage para implantar o Aeródromo Base nº 3, conforme foi determinado por uma portaria publicada no Diário do Governo no último dia de Outubro de 1960. Curiosamente, nessa altura já tinha sido iniciados os trabalhos de construção da futura AB3 — como se tornaria conhecida a base — que viria a ser oficialmente inaugurada a 4 de Junho de 1962, muito embora tivesse começado a operar quase um ano e meio antes: os primeiros aviões, dois Auster provenientes de Carmona e um Nordatlas vindo de Luanda, aterraram em Negage na manhã de 7 de Fevereiro de 1961, quando estavam apenas compactados os primeiros mil metros da futura pista, ainda por pavimentar, tal como a generalidade das estruturas e edifícios de apoio; por exemplo, o centro de comunicações da base foi provisoriamente instalado na cozinha de uma casa de habitação, entre as diversas que tinham sido arrendadas para albergar o pessoal e os serviços durante a fase de construção. O gabinete do comandante ocupava a sala de jantar dessa moradia... Contudo, a partir do momento em que chegaram os aviões, a vida desta pacata vila perdida nos confins do Uíge mudou profundamente. Negage deixou de ser apenas um pontinho irrelevante no mapa de Angola para tornar-se numa escala importante da aviação militar, mantendo-se activa até hoje.
O mais incrível da história do AB 3 é que uma semana após a cerimónia oficiosa de inauguração, devidamente festejada com um almoço no Grande Hotel de Negage, quando começaram os ataques às fazendas de café espalhadas pelo Uíge — que deram início às hostilidades que ficariam conhecidas por Guerra Colonial — esta base foi fundamental para a evacuação dos colonos resgatados das fazendas atacadas. Mesmo longe de acabado e de ter condições de plena operacionalidade, o AB 3 passou a receber um movimento crescente, num vai-vem de Dakota's e Nordatlas que recolheram refugiados e procediam à sua posterior evacuação para Luanda. Ainda mais incrível é que então ninguém diria que a paz somente voltaria a Angola em 2002. E com a paz, o velho AB 3 perdeu a importância que teve durante as guerras — colonial e civil — e os reflexos não tardaram a fazer-se sentir na vila. Actualmente, a base aérea ainda lá está, mas já não é activa como dantes e Negage parece ter voltado a adormecer, como antes da chegada dos primeiros aviões, no início de 1961.
Quando visitei Negage, no início da sexta etapa do Raid T.T. Kwanza Sul 2009, apenas passei à porta do AB 3, mas entrei na vila e percorri-a de uma ponta à outra. Estava a meio uma tranquila manhã de sábado, soalheira e quente, a inspirar preguiça. Nem os cafés tinham gente, quanto mais as ruas. No centro da vila, as casas continuam iguais ao que eram há mais de quatro décadas. Nunca lá tinha estado, é certo, mas naquela meia hora senti-me a voltar ao passado, a uma época em que nem eu tinha nascido...


Discretamente rodeada por um jardim bem cuidado, uma das moradias mais finas, a meio de uma das artérias principais. Trata-se da residência do administrador municipal de Negage.

Noutros tempos, em que os meios de diversão eram escassos, o velho cinema desempenhava um papel fundamental na animação de quem vivia em Negage. Agora, continua em funcionamento, mas lá, como um pouco por todo o mundo, "ir ao cinema" já não tem o mesmo significado. A televisão e os video-clubes encarregaram-se de desfazer o encanto de uma sessão de cinema...



Bem no centro, o edifício de quatro pisos que se vê do lado esquerdo é uma das poucas excepções desta cidade, onde a maioria das construções são térreas ou, quando muito, elevam-se até ao primeiro andar, como, aliás, documentam as imagens.

Entroncamento à saída da cidade. A padaria ainda continua a cumprir a sua função, mas as instalações do Banco Nacional de Angola já há muito que foram desactivadas e o velho edifício dos anos 50 encontra-se parcialmente abandonado.

quarta-feira, 15 de julho de 2009


Passado e Presente de Angola em Livro
A ESCOLHA DO PROFESSOR MARCELO

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

Actualmente, em Portugal livro que se preze tem de ser citado n'"As Escolhas de Marcelo", programa transmitido na RTP todos os domingos logo após o Jornal da Noite, em que Marcelo Rebelo de Sousa faz um balanço da semana, com particular enfase à vida política nacional. Incontornável enquanto comentador político, este Professor Catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa tornou-se também na figura mais importante para estimular a leitura de livros ao referir publicamente, no fecho de cada programa, alguns livros que escolheu, entre os muitos que todas as semanas recebe. No último domingo, uma das escolhas de Marcelo foi o livro recentemente editado sobre Angola, a propósito da quarta edição do Raid T.T. Kwanza Sul, cujas aventuras têm alimentado este blog desde que foi posto "online", há precisamente dois meses. Editado simultaneamente em Lisboa e em Luanda, pela Pangeia e pela Chá de Caxinde, respectivamente, DO KUNENE A CABINDA — HISTÓRIA E ESTÓRIAS DE ANGOLA apresenta em 224 páginas textos de 13 autores distintos, entre historiadores, investigadores e jornalistas, para além de especialistas em diversas áreas específicas. Esta obra, que foi editada graças ao patrocínio do Banco Keve — a única instituição bancária sedeada na província angolana do Kwanza Sul — teve a coordenação de Miguel Anacoreta Correia, acessorado por Eleutéria Ornelas, e exibe na capa uma fotografia minha, feita na terceira edição desta expedição, numa picada do município do Calulo. No interior, há mais uma dúzia de fotos da minha autoria, entre dezenas e dezenas de imagens que ilustram este livro, de leitura recomendada a todos os que se interessam por Angola e as estórias da sua história. Disponivel nas boas livrarias, custa 15 euros em Portugal. Se tiver dificuldade em encontrá-lo, pode sempre fazer um pedido enviando um email para mvrestinga@gmail.com. Boa leitura!

sábado, 11 de julho de 2009


A cidade do Café de Angola
VISITA AO UÍGE
NUMA MANHÃ DE PREGUIÇA

[Texto e Fotos: Alexandre Correia]

No nordeste de Angola, confinando com a República Democrática do Congo, o Uíge é das 18 províncias deste país a que se reparte por maior número de municípios: são 16 ao todo, com a cidade onde está instalada a sede do Governo Provincial a coincidir no nome da província. Hoje, dizer que fomos ao Uíge implica acrescentar se fomos à cidade ou apenas à província, mas antes, durante duas décadas, entre 1955 e 1975, essa duplicidade de nomes não exista, pois o Uíge era apenas a importante província do Café de Angola, e Carmona a sua capital - assim designada em homenagem a Óscar Carmona, que foi Presidente da República Portuguesa durante cinco mandatos, entre 1926 e 1951, que ficou na história por mais dois factos inéditos: foi o primeiro a ser eleito para este cargo, embora tal somente tenha acontecido em 1933, e foi o único que morreu no desempenho destas funções, tendo sido substituído interinamente por António Salazar até à eleição do seu sucessor. Atribuir o nome de António Óscar de Fragoso Carmona a uma cidade angolana era, nessa época, uma escolha de elevado prestígio e ao recair sobre o Uíge, pretendeu-se não só render homenagem ao velho Presidente, como sublinhar a importância da capital desta província. De tal modo que a Vila Marechal Carmona rapidamente foi promovida a cidade, passando então a designar-se simplesmente Carmona.
Quando era miúdo, para mim o Uíge era apenas um belo paquete da Companhia Colonial de Navegação, que várias vezes admirei atracado nos cais de Lisboa, quando ao domingo, depois da missa, ia com o meu pai olhar os navios, ou quando o meu irmão mais velho, já então um apaixonado por navios, me levava pela mão a atravessar a Avenida 24 de Julho e a passear pelos cais da Rocha e Alcântara. O Uíge era um dos paquetes que recordo, entre os vários que a frota portuguesa detinha nessa época dourada para a marinha mercante de Portugal. Desses paquetes, hoje resta apenas o Funchal. O Uíge há muito que foi para a sucata...
Claro que não me mantive na ignorância do que era o Uíge muito tempo. Ainda miúdo, na quarta classe, a última da instrução primária, tive de aprender a geografia do vasto Império Português, que terminou precisamente nesse ano. Se não soubesse dizer o nome de todas as províncias, as da Metrópole, as Insulares (como se classificavam as actuais Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores) e as Ultramarinas (Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Timor e Macau), bem como as suas capitais, principais rios e actividades, etc..., a minha professora tinha um método doloroso de fazer-me aprender, batendo-me vigorosamente na palma das mãos com uma régua de madeira. Nunca me esqueci do dia em que apanhei 16 de seguida, mas passei o ano com distinção!
Quando comecei a viajar por Angola, em meados dos anos 80, a guerra condicionava as deslocações e nunca tive grandes chances de aventurar-me por este país, salvo uma excepção para a fase de paz que se viveu em 1992. Nessa altura, rumei ao sul, mas quando estava a partir para conhecer o norte, o recomeço da guerra adiou essa descoberta. Foram, pois, muitos, muitos anos de espera até poder embrenhar-me pelos caminhos do norte e o Uíge não escapou a esta rota de descoberta. A oportunidade surgiu com a quarta edição do Raid T.T. Kwanza Sul, evento que tenho de reconhecer como o melhor passaporte para facilitar a dinamização do turismo em Angola e o conhecimento da realidade actual do país, ao promover todos os anos uma expedição envolvendo participantes angolanos e portugueses.
Assim, numa manhã de preguiça, plenamente merecida depois de um itinerário inesperadamente longo e cansativo que nos ocupou quatro vezes mais tempo do que o previsto, pude finalmente visitar o Uíge. Ou melhor, a cidade do Uíge, pois a província já a tinha começado a atravessar um par de dias antes, percorrendo caminhos fora de uso por entre as antigas grandes fazendas que fizeram desta a principal região de produção de café em Angola.
Depois de ter visto o pequeno filme rodado no início dos anos 70 em Carmona e que está disponível no YouTube (Angola-Carmona (Viagem ao Passado) Kandando Angola), e de ter folheado as páginas do livro de João Loureiro Angola - Memória em Imagens até ter decorado todas as fotografias, assim que cheguei ao Uíge não me senti um estranho na cidade. Isso já diz muito. Quer dizer, por exemplo, que grande parte daquilo que vi no filme e nas fotografias continua igual, como, aliás, mostro nesta pequena selecção de imagens. Mas, o melhor foi mesmo ter feito esta visita acompanhado pelo próprio João Loureiro, que ali passou anos marcantes da sua vida, tendo sido um dos últimos portugueses a sair de Carmona antes da cidade tornar-se em Uíge, faltavam apenas uns dias para a independência. Longe de ser a cidade mais bonita entre todas as que visitámos nesta expedição, Uíge tornou-se inesquecivel sobretudo por estas memórias. As minhas, de miúdo, quando pensava que era só um navio de passageiros e apanhava reguadas da professora, mas também as de João Loureiro, que nessa mesma altura era o Procurador-Geral Adjunto nesta região de Angola. Já conhecia os seus livros de postais e fotografias, mas as suas histórias são ainda mais ricas... e exclusivas, pois não estão ainda editadas em livro.

Ao alto, a Rua do Comércio, a mais importante do centro do Uíge. Em cima, os telhados do centro da cidade. Os edifícios públicos são os que actualmente se apresentam melhor conservados, mas o Uíge não foge à regra de reabilitação que observamos em todas as cidades angolanas e que gradualmente está a apagar as marcas de uma longa paragem no tempo e de uma guerra que durou décadas.
Em primeiro plano, prédio de habitação que remonta à época em que Uíge foi elevado à condição de cidade, em meados dos anos 50. Trata-se do penúltimo edifício do lado direito da Rua do Comércio, que termina com o Edifício Mazda, com apartamentos para habitação do primeiro andar e lojas no rés-do-chão, e que na ponta tem hoje um posto de abastecimento da Sonangol, onde antigamente havia um concessionário dos automóveis Mazda.
Bem que queria ter acedido à internet, mas o simpático funcionário, quanto muito, podia era ter procedido à dizitação desta foto que me pediu para lhe fazer. Ou seria digitação?... Seja como for, pela simpatia demonstrada, o jovem à janela devia ser o professor dos cursos de relações públicas, embora tivesse expediente para ministrar igualmente formação de "e muito mais..."
O talho estava fechado. Nesta manhã não se abateu gado e não havia carne para vender...

Ir buscar água a uma torneira pública na rua principal do Uíge. Uma rotina para muitas mulheres e crianças dos bairros que rodeiam o centro da cidade.
Sábado de manhã, o movimento era grande no centro da cidade.
Vista aérea da cidade de Uíge, na saída pela estrada para Luanda.